12 de junho de 2024
LEILÃO CRITICADO

Vice-prefeito de Bela Vista aponta falhas no processo para venda de imóveis em leilão na 2ª

Juliano Moreira cobra realização de audiências públicas e pede que prefeita suspenda leilão marcado para 2ª; ele defende troca por áreas ocupadas por terceiros no lugar dos prédios oferecidos
Juliano Moreira concedeu entrevista falando sobre leilão e pré-candidatura - Foto: reprodução Diário de Goiás
Juliano Moreira concedeu entrevista falando sobre leilão e pré-candidatura - Foto: reprodução Diário de Goiás

O leilão de prédios públicos em Bela Vista de Goiás, planejado pela prefeita Nárcia Kelly (PP) para a próxima segunda-feira (27), não tem respaldo nem mesmo do vice-prefeito da cidade, Juliano Moreira (PRD). Em entrevista ao Diário de Goiás nesta quarta-feira (22), ele, que é pré-candidato à Prefeitura sem o apoio de Nárcia, apontou falha no processo que seria a realização de consulta popular. A prefeitura nega a exigência (leia ao final).

Juliano citou também a existência de opções. Seriam três áreas que, segundo diz, “estão ocupadas por terceiros e que valem milhões de reais”. Ele defende que elas sejam vendidas no leilão de prédios públicos, substituindo os quatro imóveis que estão oferecidos no edital do leilão.

Como vem mostrando o DG, com exceção do pré-candidato apoiado pela prefeita – o presidente da Câmara Municipal, Dione do Cará -, os demais se manifestam contra a venda das quatro áreas públicas como única opção.

Nárcia Kelly tem justificado que a intenção é levantar recursos para adquirir um terreno e construir um novo cemitério em Bela Vista, diante do esgotamento do atual ser previsto para meados de 2025. O leilão deve arrecadar no mínimo R$ 5 milhões.

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Vice-prefeito condena leilão de prédios públicos em Bela Vista

“Fico sem entender porque os 11 vereadores votaram a favor de uma lei permitindo a venda, mas uma lei que contém vícios”, aponta o vice-prefeito. Segundo ele, o Plano Diretor e a Lei Orgânica do Município de Bela Vista “exigem a realização de três audiências públicas para a população de Bela Vista dizer se é a favor ou contra a venda”. Ele afirma que essas audiências não aconteceram.

Para Juliano, a prefeita deveria suspender o leilão marcado para o dia 27. “Deveria enviar um novo projeto de lei para a Câmara, deveria realizar as audiências para ver o que a população realmente quer para nosso município. Infelizmente [assim] essas vendas em ano eleitoral, não teriam tanta contestação. Temos que ouvir primeiro os verdadeiros donos dos imóveis, que é a população”, sustenta o vice.

Áreas para substituir em leilão de prédios públicos

O vice-prefeito de Bela Vista argumenta também que existem áreas nobres da prefeitura ocupadas por terceiros e defende que a prefeita venda essas áreas e não os prédios previstos para o leilão de segunda-feira.

“Elas valem muitos milhões”, garante. Perguntado pelo editor-chefe do DG, Altair Tavares, quais são esses imóveis, ele citou: “Existe uma área de quase 2 mil metros na GO 020 que está sendo ocupada desde 2004 e que não tem nem um comodato, mesmo valendo quase 2 milhões de reais. Também tem uma área na Rua Domingos Arantes, no Centro de Bela Vista, de 1.072 metros, e que vale cerca de 1,5 milhão de reais. Tem ainda um lote na Rua Coronel João Camilo que vale entre 200 e 250 mil reais. Acredito que se tivesse que fazer a venda primeiramente ouviria a população e venderia essas áreas ocupadas de forma irregular” exemplificou ele.

Racha, aliança e plano de governo

Juliano Moreira foi eleito junto com Nárcia Kelly em uma “combinação” segundo a qual, lembra ele, haveria um acordo para ser dois mandatos, ou seja, oito anos de gestão de Nárcia Kelly, e depois o mesmo com ele. O vice afirma que abriu mão de disputar como prefeito e saiu como candidato a vice de Nárcia com base neste acordo.

“Mas, infelizmente, no final de fevereiro de 2024 a prefeita me chamou dizendo que ela, e a comunidade do Cará tinham decidido que o candidato apoiado pela prefeita seria o presidente da Câmara (Dione do Cará). Mas nosso trabalho não depende do apoio deles”, rechaçou o vice-prefeito.

De acordo com ele, no ano passado articulou parceria com quatro partidos em torno de sua pré-candidatura. Juliano cita que estão juntos em Bela Vista PSDB, Cidadania, PSB e o partido dele, o PRD. “Lançamos o edital da convenção para 25 de julho, mas já estamos trabalhando com esses quatro partidos para que mais partidos venham. Estamos conversando com cinco partidos que provavelmente estarão conosco em 2024”, aponta.

Juliano sustenta que a candidatura dele conta com o apoio entre produtores rurais da região “que abraçaram a candidatura”.

Ele falou de forma compreensiva sobre o gesto de afastamento de Nárcia Kelly. “Prefeito nenhum gosta de eleger seu sucessor. No meu caso, se ela tivesse me apoiado, daqui a oito anos ninguém lembraria quem foi Nárcia Kelly”, alfineta. Para ele, a intenção da prefeita é disputar novamente a prefeitura em 2028.

“Não vou ser a última pessoa traída”

“Não vou ser a última pessoa traída. Cada um tem seu livre arbítrio. Não vou condenar. Vou respeitar”. Da mesma forma que ela foi traída no passado, está me traindo agora, mas o que é combinado não é caro”, afirmou. Ele estava se referindo a acordo que também existiu no passado envolvendo o ex-prefeito e hoje também pré-candidato, Eurípedes do Carmo, e Nárcia Kelly.

Juliano Moreira vai trabalhar a candidatura com base nos dois mandatos de vereador que assumiu na cidade e na experiência como vice. “Fui primeiro vice-prefeito reeleito em quase 200 anos de história de Bela Vista”, celebra.

Ele não descarta composições com o grupo da prefeita, mas deixa claro que a possibilidade é remota. “De 2015 para cá, apareço tendo entre 20 e 25% de intenção de votos para prefeito. Acredito que, até as convenções, o pré-candidato que tiver entre 32 e 34% será eleito prefeito de Bela Vista”, analisa.

Diante de sete pré-candidatos já anunciados na cidade, ele brinca que “quanto mais candidatos, melhor, mais opções para a população escolher”.

De acordo com ele, seu grupo político já trabalha em uma proposta de plano de governo. Por esse plano, um dos prédios colocados a leilão na segunda-feira, o do antigo hospital da cidade, vai abrigar um Centro Municipal de Fisioterapia. O vice-prefeito disse que tem a informação de que basta trocar o telhado da unidade porque ele passou por várias reformas anteriores, inclusive uma intervenção maior em 2016.

Ainda falando sobre suas propostas, o vice-prefeito lista a geração de empregos, “especialmente para as mulheres”. E também um programa para os animais em situação de rua, com a criação de um centro de acolhimento e castração. Também aponta melhorias na limpeza pública e defende a instalação de um centro de reciclagem em Bela Vista.

Futuro próximo

Juliano acredita que, pelo grande número de condomínios de luxo aprovados na cidade nos últimos anos, Bela Vista terá, nos próximos dois anos, a população com renda per capita mais alta do estado.

Prefeitura nega exigência de audiências públicas

Em nota enviada pela Assessoria de Imprensa da prefeitura de Bela Vista, a chefe da Procuradoria Municipal, Daniella Cunha, informou que “não há nada na nossa Lei Orgânica, no Plano Diretor nem na lei federal que obrigue a realização de audiências públicas antes da venda de imóveis”.

Sobre as áreas citadas pelo vice-prefeito como mais apropriadas para venda por estarem ocupadas segundo ele de forma irregular, a assessoria solicitou uma apuração que deve ser informada depois ao DG.


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Marília Assunção

Jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás. Também formada em História pela Universidade Católica de Goiás e pós-graduada em Regulação Econômica de Mercados pela Universidade de Brasília. Repórter de diferentes áreas para os jornais O Popular e Estadão (correspondente). Prêmios de jornalismo: duas edições do Crea/GO, Embratel e Esso em categoria nacional.