25 de abril de 2024
Política

Eliton cria agenda paralela e amplia poder

Após ingressar no PP o atual vice-governador, José Eliton Jr, tem trabalhado em todo o Estado. Ele criou uma agenda de eventos no interior, com isso consegue cada vez mais crescer politicamente. Aquele advogado que foi indicado para o cargo de vice na disputa de 2010 deu espaço a um politico que surge até mesmo como opção para a disputa de 2014

Veja a reportagem do Jornal Tribuna do Planalto, disponível aquí:

A filiação ao PP parece ter dado novo gás ao vice-governador José Eliton. Apesar de sem¬pre ter tocado uma agenda pública movimentada desde que tomou posse em 2011, Eliton a intensificou após trocar oficialmente o DEM pelo PP, no início de junho. Além de eventos ao lado do gover¬na¬dor Marconi Perillo (PSDB), o vice tem feito uma série de visitas e participado de eventos paralelos à agenda oficial do tucano. Isso mostra, cada vez mais, que o neopepista se apressa para se aproximar das bases do seu novo partido e construir o seu projeto político para 2014: ser candidato à reeleição ao lado de Perillo ou, até mesmo, concorrer ao posto número um do governo.

Eliton e seus aliados miram a possibilidade, caso o governador desista da candidatura à reeleição no ano que vem. Assim, se o tucano for candidato a outro cargo, terá que passar o posto para o vice até o final de março. Tendo substituído Marconi Perillo no comando do Estado em sete oportunidades desde o início do atual mandato, a agenda positiva no último mês é só mais um indicativo da força do projeto próprio que o vice-governador quer construir. Como a primeira eleição de que participou foi só em 2010, Eliton aproveita esta indefinição para buscar capilaridade política pelo Estado e se preparar para uma eventual candidatura.

Filiado ao PP desde seis de junho, Eliton tem também como trunfo a vontade da sigla de voltar a ser protagonista no cenário político do Estado. Esse recado foi dado logo no evento de filiação de Eliton, quando o presidente do diretório estadual pepista, o deputado federal Roberto Balestra, disse, em seu discurso, que o projeto político do mais novo filiado era o próprio projeto do partido.

Até agora, segundo Bales¬tra, José Eliton tem correspondido às expectativas. “Estamos muito satisfeitos com ele e teremos muita coisa boa para as eleições. Queremos lutar por um espaço na cabeça de chapa, ainda não sei o cargo, mas todo mundo vai lutar para isso. Se possível, queremos mantê-lo na vice-governadoria, o que depende do candidato a governador, mas isso vai ser decidido na hora certa”, analisa o deputado federal.

Esperança

O discurso de Balestra deixa no ar uma esperança de que Eliton seja o nome da base aliada para 2014. O cenário ideal para que isso ocorresse seria um em que Marconi não conseguisse se recuperar dos desgastes, o que o impossibilitaria de disputar a reeleição em 2014. 

Desta forma, o assunto é ainda tratado com muito sigilo. “São coisas internas do partido. Política é feita com bico calado e pé ligeiro”, despista Balestra, usando seu tradicional bordão para fugir do questionamento do objetivo das viagens do recém-filiado. Mesmo assim, é fácil perceber que o perfil de José Eliton destoa dos últimos políticos vice-governadores do Estado.

Atualmente na Assembleia Legislativa, Ademir Menezes (PR) foi vice de 2007 a 2010 e teve atuação discreta – assumiu o governo em apenas quatro oportunidades durante todo o período. Antes dele, Alcides Rodrigues (PP) ocupou o posto nos dois primeiros mandatos de Marconi Perillo. No primeiro, chegou a ser secretário de Meio Ambiente, mas também não teve atuação destacada.

Na hora certa e no lugar certo, o pepista ainda conseguiu ser eleito governador. Já em 2006 assumiu o cargo, quando Marconi se desincompatibilizou para disputar o Senado. Cos¬turando uma base ampla de partidos e pegando carona na popularidade do tucano à época, Rodrigues venceu a eleição contra o atual prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela (PMDB), mes¬mo saindo atrás nas pesquisas eleitorais. Caso a história se re¬pita, José Eliton quer estar preparado caso a oportunidade surja.

Primeiro, se cercou de aliados de peso na administração marconista. Hoje, ao lado do pepista está o chamado “grupo da Assembleia”, que tem entre os líderes o presidente da Casa, Helder Valin (PSDB), e membros dos Tribunais de Contas do Município (TCM) e do Es¬ta¬do (TCE). Além disso, ao la¬do do vice-governador também estão secretários importantes, como o de Educação, Thia¬go Peixoto (PSD), e o de Gestão e Planejamento, Giusep¬pe Vecci (PSDB), que tem grande in¬flu¬ên¬cia junto a Marconi Perillo.

A aproximação do tucano Vecci e Eliton foi uma espécie de ‘casamento perfeito’. Nos bastidores, o tucano é apontado como um forte candidato à Câmara dos Deputados, mas como nunca disputou cargo público, precisaria conseguir bases eleitorais. O pepista, por sua vez, tem grande influência nas regiões Norte e Nordeste do Estado, já que o pai, José Eliton de Figueiredo, foi prefeito de Posse por dois mandatos.
Por causa disso, Vecci e Eliton são sempre vistos juntos na região Nordeste. No dia 26 de junho, ambos estiveram em Mambaí, Simolândia e Alvo¬ra¬da do Norte para entregar be¬ne¬fícios e vistoriar obras, in-cluindo até projetos do Pro¬grama Rodovida Urbano.

José Eliton tem até mesmo participado das campanhas eleitorais extemporâneas a prefeito, no interior do Estado. Em Goiás, Justiça Eleitoral cancelou eleições em três municípios, que terão novo pleito no domingo, 7. Em 26 de junho, Eliton, acompanhado de Vecci, participou de carreatas em Flores de Goiás e São Domingos, ambas no Norte do Estado. Um dia depois, esteve em Jussara.

Permissão

Uma grande questão, porém, é saber também quais as consequências da intensa movimentação de José Eliton. Em alguns casos, o pepista mantém compromissos que diferem da agenda do governador, dando a impressão de busca mesmo um caminho próprio. Até agora, porém, não há sinais de problemas por causa disso.

Aliados do governador são categóricos em dizer que a relação de Marconi e Eliton é de confiança. Eles, porém, não sabem afirmar se a movimentação do vice-governador é estimulada por Perillo ou se é fruto da ambição de Eliton. Além disso, avaliam também que, por causa da fragilidade, o tucano também não teria muitas condições de impedir que o pepista buscasse espaço político com as viagens. De qualquer forma, José Eliton trilha caminho de quem quer ser opção. Em uma base sem muitas alternativas, caso Mar¬coni realmente não seja candidato, a ação do pepista pode ser muito importante.

Comando do PP pode atrapalhar projeto

O próximo passo do vice-governador no PP deve ser mesmo o de assumir a presidência do diretório estadual do partido. Atualmente, a sigla é comandada pelo deputado federal Roberto Balestra, que preside a comissão provisória formada no início do ano, mas expirada desde 30 de junho. A decisão sobre o futuro presidente deve sair nesta semana, assim que o presidente da Executiva nacional, senador Ciro Nogueira (PI), voltar dos Estados Unidos.

O grande problema é que a sucessão no diretório estadual deixa José Eliton em fogo cruzado no PP. Se assumir, ele corre o risco de desagradar Balestra, nome histórico da legenda. Por outro lado, ao não aceitar o cargo, o pepista “ne¬garia fogo” para Ciro Noguei¬ra, que apostou nele para comandar a legenda em Goiás.

Além disso, comandar o PP em Goiás poderia prejudicar o futuro do vice-governador, que correria o risco de ser acusado de usar o partido em benefício próprio. Com intenção de, no mínimo, se manter como vice na chapa da base para 2014, Eliton teria mais chances se fosse ao interior não como presidente, mas sim como o nome pepista para a chapa majoritária.

Inicialmente, o plano era justamente esse. Na avaliação de pepistas, visitas de um dia não são suficientes para “interiorizar” o nome dele, precisando de um trabalho mais duradouro e com mais profundidade. Para atingir esse objetivo, o PP tinha um projeto de realizar 11 encontros regionais em Goiás, criando condições para que Eliton fosse reconhecido em todo o Estado. Agora, po¬rém, com a iminência dele as¬sumir o partido, o plano está suspenso até que a decisão seja tomada.

Desavença

A conversa de o vice-governador assumir o PP surgiu logo nas suas primeiras articulações para se filiar à sigla, em uma reunião que contou com a presença dele, dos deputados Sandes Júnior e Roberto Bales-tra e do presidente Ciro No¬guei¬ra. Sandes, que estaria descontente com Balestra por causa de uma suposta concentração de poder, viu em José Eliton uma possibilidade de diminuir a força do parlamentar.

Por isso, Sandes acabou o principal defensor da ideia do vice-governador assumir o diretório, enquanto prefeitos e outras lideranças pepistas preferiam que Balestra continuasse no comando. O fato de Sandes Júnior encampar Eliton para a presidência é até um dos motivos para que Roberto resista à ideia de passar o comando para o vice. Se isso acontecer, Sandes poderia capitalizar uma vitória nessa queda de braço.

Outra preocupação para o atual presidente é que, em outra oportunidade, ele acabou perdendo o controle do partido para o então vice-governador Alcides Rodrigues. A briga perdurou durante toda a administração alcidista, e, em 2010, culminou em um racha no PP.

De um lado, ficaram os alcidistas, que declararam apoio à candidatura do ex-prefeito de Senador Canedo Van¬derlan Cardoso (PSB, na época no PR) para o governo. Um dos defensores da candidatura de Van¬derlan foi justamente Sandes Júnior. Balestra, por sua vez, liderou a ala que apoio o governador Marconi Perillo. Poste¬rior¬mante, o deputado federal reassumiu o controle da sigla.

Hoje, é difícil imaginar que José Eliton possa levar o PP para outro caminho que não seja a base de Marconi. Além de Eliton mostrar apreço por Balestra, o projeto de ambos inclui o tucano. Em todas as entrevistas desde que anunciou sua filiação, inclusive, o vice-governador faz questão de afirmar que o projeto político dele no PP será feito com diálogo, especialmente com as lideranças pepistas. Mesmo assim, Balestra não estaria disposto a correr o risco de perder, mais uma vez, o controle de seu partido. (D.G.)


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