17 de junho de 2024
Política

Grupos transformam governo em fábrica de crises

Reportagem da Tribuna do Planalto mostra que divergências dentro do próprio governo estadual criaram as maiores crises até agora. Leia o texto completo, de Daniel Gondim, disponível no site do Jornal.

 

“As crises vividas na administração do governador Mar­coni Perillo (PSDB) nascem, em sua maioria, dentro da própria base aliada do tucano. Com a oposição vivendo dificuldades para atingir a gestão marconista, os aliados de Pe­rillo assumem o papel de ‘opositores’ e criam ‘saias-justas’ para o chefe do Executivo, que, vivendo dificuldades políticas e administrativas, não consegue controlar os conflitos de interesses entre os grupos que compõem a gestão.

É fácil perceber que são os aliados os responsáveis pelas principais crises políticas no atual mandato de Marconi. A Tribuna listou alguns dos episódios (veja quadro) mais recentes que mostram que uma simples declaração pode causar mal-estar dentro do governo. Mais do que isso, porém, os episódios do chamado “fogo amigo” sugerem que a briga por espaço persiste dentro da administração.

Nesse sentido, para conter as disputas internas, seria necessário que Marconi Perillo agisse de forma mais incisiva para conter os grupos e colocar os governistas “remando para um lado só”. Dentro da base aliada, porém, a avaliação é de que o tucano nunca conseguiu se recuperar dos desgastes vividos durante os dois primeiros anos da gestão.

A falta de resultados práticos da gestão, já decorridos dois anos e meio de mandato, é um dos motivos para a fragilidade. O outro ainda é o desgaste político do governador, devido aos enfrentamentos internos entre os grupos e até por fatores externos, como o suposto envolvimento com o bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carli­nhos Cachoei­ra. A crise deflagrada pela Operação Monte Carlo já tem um ano, mas ain­da é sinônimo de fragilidade para Marconi.

Assim, sem condições de conter os egos de aliados, Perillo não tem outra saída senão aguentar os conflitos que ameaçam o governo. “O governador precisa de uma pesquisa que dê a ele 60% de popularidade. Aí ele pode dar murro na mesa o tanto que quiser”, ironiza um aliado do tucano.

Espaço

Dentro do governo, a avaliação é que as desavenças entre aliados são consequência de uma intensa disputa por poder. A proximidade da eleição intensifica a briga, já que começa a existir uma preocupação maior ainda com o futuro político dos integrantes dos grupos que formam a administração. “É muito por­co para pouca lavagem”, resume outro aliado do governador.

Os conflitos são comuns em administrações que reúnem muitos grupos. Desde que assumiu o governo pela primeira vez, em 1998, Marconi é acompanhado praticamente pelas mesmas lideranças. Além disso, mais do que disputa por espaço, as constantes brigas refletem também que cada ala interna atua de forma isolada dentro da administração, dificultando ainda mais a gestão da máquina estadual.

Em outros mandatos, Perillo também enfrentou disputas internas. A diferença é que, nas outras ocasiões, a po­pularidade e o prestígio permitiam que ele arbitrasse e resolvesse as diferenças. No atual mandato, porém, as crises provocadas se acumulam sem que o tucano consiga resolvê-las.

Uma das crises mais recentes mostra bem essa dificuldade do governador em arbitrar. No mês passado, foi publicado no Diário Oficial do Estado a criação do Conselho Gestor de Obras, órgão idealizado no ano passado, mas cujo projeto só foi encaminhado para a As­sembleia em março desse ano.

Inicialmente, a intenção do Conselho era dar agilidade para que o Estado pudesse iniciar as obras de infraestrutura, que são de responsabilidade da Agência Goiana de Transporte e Obras Públicas (Agetop). Em 2013, porém, a criação do órgão só serviu para criar mais uma crise entre o presidente do órgão, Jayme Rincón, e o grupo liderado pelo secretário de Gestão e Planejamento, Giuseppe Vecci.

Descontente por uma su­posta pressão de Jayme para que o governo desistisse da construção do VLT em Goiâ­nia, Vecci, cujo grupo era responsável pela obra na capital, iria comandar o Conselho. Se­ria uma forma de pressionar a Agetop, que concentra todas as outras obras. Sa­bendo disso, o próprio Rincón deu declarações questionando a necessidade do Conselho Gestor.

No fim, o governador teve que recuar dos dois lados. O VLT, que estava ameaçado de não ser construído, recebeu garantias de que será feito, mesmo com a previsão de entrega para daqui três anos. Ao mesmo tempo, o Conselho não poderia acompanhar as obras da Agetop, livrando Jayme Rincón da influência e da fiscalização de Vecci.

Mesmo diante disso, os aliados preferem não arriscar um motivo para a falta de atitude do governador em relação aos problemas. Questio­nados pela Tribuna, muitos deles acabaram por dar a mesma resposta. “Você tem que perguntar é para ele [go­ver­nador] porque ele não age para acabar com isso”, despistaram.

Blindagem

Tudo isso só aumenta o clima de tensão na base aliada. O que também chama a atenção é que os aliados não agem para blindar Marconi, que acaba por enfrentar todo desgaste sozinho.

O deputado federal Carlos Alberto Leréia (PSDB) e o presidente da A­ge­top eram os únicos que defendiam abertamente o governador, mas, por motivos di­ferentes, ambos saíram de cena.
Atualmente, Leréia tem outras preocupações. Ele é investigado pelo Conselho de Ética da Câmara dos Deputa­dos por causa do suposto envolvimento com Carlinhos Cachoeira e corre o risco de perder o mandato. Por causa disso, o parlamentar tucano es­tá ausente do cenário, mais preocupado com próprio futuro.

Rincón, que foi o grande defensor de Marconi no período em que o governador esteve no “olho do furação” da Operação Monte Carlo, já não atua com tanta frequência como defensor do tucano. O motivo seria que Rincón estaria “cansado” de ser o único a defender o governador, enquanto outros secretários e aliados deixam Perillo sofrer sozinho.
Recentemente, Rincón de­fendeu Marconi das críticas feitas pelo empresário Júnior do Friboi, que em seu evento de filiação ao PMDB fez pesadas declarações contra o governo estadual. O presidente da A­getop foi o único secretário do chamado ‘alto clero’ a defender o governador.

Crises provocadas por aliados

Criação do Conselho Gestor

A criação do Conselho Gestor de Obras expôs publicamente as divergências entre Jayme Rincón e Giuseppe Vecci. Nos bastidores, o órgão, que seria comandado por Vecci, seria uma forma de pressionar a Agetop, que é comandada por Jayme e concentra praticamente todas as obras estaduais. Apesar disso, foi Rincón que venceu a “guerra”, já que, apesar de criado há duas semanas, o Conselho não acompanhará as obras da Agetop.

“Bandidos” no governo

Um dos principais alvos de aliados, Giuseppe Vecci, desabafou ao jornal O Popular, no dia 23 de maio, sobre as críticas que recebe. “Ninguém sério do governo falou de mim. Só tem bandido falando”, disse. A declaração causou muito mal-estar, chegando ao ponto do secretário-chefe da CGE, José Carlos Siqueira, ter que convocar o Vecci para esclarecer as interpretações, que, segundo nota divulgada pelo órgão, seriam “claramente malévolas”.

Festa no Palácio

Uma festa beneficente para arrecadar fundos para a Santa Casa Beneficente realizada no Palácio das Esmeraldas também gerou problemas para Marconi. Andressa Mendonça, mulher do bicheiro Carlinhos Cachoeira, foi ao evento. A assessoria do governo, porém, teria dito que ela não foi convidada, o que despertou a ira do contraventor. Dias depois, em artigo no jornal Diário da Manhã, ele mandou recado e fez ameaça ao governo do Estado. “Não vão gostar nem um pouco de conhecer o peso de minha mão”, escreveu.

Perseguição ao DEM

O deputado estadual José Vitti (DEM) sugeriu que há uma perseguição de secretários estaduais ao DEM, já que, segundo ele, os prefeitos da sigla teriam dificuldades até para “receber cobertor da OVG”. O motivo da retaliação seria a intenção do presidente do diretório estadual, Ronaldo Caiado, de tirar a legenda da base de sustentação do governador. Essa não é a primeira vez que Vitti reclama do governo. No início do ano, em entrevista à Tribuna, ele declarou que tinha “vergonha” de andar na região de Palmeiras de Goiás por causa das condições das rodovias.

“Humilhação” de Henrique Arantes
Deputado estadual licenciado, o petebista sofreu com muitas críticas ao trabalho desenvolvido por ele como secretário de Cidadania e Trabalho. No fim do ano passado, quando Marconi tentou fazer uma reforma administrativa, Henrique era sempre apontado como um dos favoritos a perder o cargo. Cansado, o petebista desabafou ao jornal O Popular, dizendo que trabalhava mais que muitos secretários, mas que era humilhado há dois anos dentro do governo. A declaração gerou mal-estar e Arantes teve que se retratar.

Falta de blindagem de secretários
Há, dentro do governo, um descontentamento com a atuação de alguns secretários, que não atuam para blindar o governo quando há desgastes nas respectivas pastas. Um dos mais citados é o titular da secretaria de Educação (Seduc), Thiago Peixoto (PSD). As constantes crises no setor acarretam dificuldades para Marconi, que não seria “protegido” pelo pessedista.

Secretariado e Assembleia não se entendem

Um dos principais focos de insatisfação que prejudica a administração vem da Assem­bleia Legislativa. O motivo se­ria a dificuldade de relacionamento entre os deputados da base do governador Marconi Pe­rillo com o secretariado. An­tes veladas, as críticas dos parlamentares já co­meçam a ser feitas em público, chegando a se­­rem externadas no plenário da Casa.

No início de junho, José Vitti (DEM) reclamou de uma suposta perseguição ao DEM, argumentando que prefeitos da sigla não recebiam nem cobertor doado pela Orga­niza­ção das Voluntárias de Goiás (OVG). Duas semanas antes do democrata, Elias Júnior (PMN) votou contra o governo no projeto que reajustava salários dos profissionais da Educação por supostamente não ter sido atendido pelo secretário da pasta, Thiago Peixoto (PSD).

A oposição bem que tentou capitalizar a situação. Nos dois casos, o deputado Bruno Peixoto (PMDB) aproveitou a deixa para convidar Elias Júnior e José Vitti para passar para o grupo contrário ao do governador, mas acabou ignorado por ambos. O único a res­ponder foi Túlio Isac (PSDB), que tentou por “panos quentes” na situação.

Mesmo assim, os dois episódios mostram o alto grau de animosidade na relação. Além disso, a coluna Linha Direta mostrou também que parlamentares estão reclamando dos auxiliares de Marconi que têm projeto de serem candidatos em 2014. Na última edição da Tribuna, o deputado Lin­coln Tejota (PSD) reclamou que esses secretários estão até perseguindo bases eleitorais de membros da Assembleia.

A repetição dos episódios de rusgas entre secretários e deputados tem deixado os parlamentares irritados até com Marconi. Alguns deles já até ensaiam afastamento. “Não sei muita coisa sobre o governo. Eu não tenho tempo para ficar de fofoca, tenho que correr atrás de benefícios para minhas bases. Não dá para esperar nada desse governo”, atesta um aliado de Marconi Perillo na Assembleia. (D.G.)”


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