Quem vivia em Goiás, especialmente em Goiânia, no fim da década de 1980, deve se preparar para um certo déjà vu ao assistir “Emergência Radioativa”, série que estreou essa semana na Netflix. Em cinco capítulos marcados por doses de realismo, em parte, mas também ficção fora do contexto, segundo algumas das principais vítimas do acidente com o Césio 137, retratado na produção, a série segue um roteiro de fatos fartamente documentados, mas também com bastidores, inclusive políticos. A série mexe com o emocional de quem conhece a história de perto.
Os personagens têm nomes fictícios, mas os reais estão ali, retratados de um jeito que promete ser fiel: Maria Gabriela, os meninos Lucimar e Leide das Neves e a mãe – a doce dona Lourdes -, Devair, Ivo, Roberto, Geraldo e tantos outros. E muito mais pessoas: trabalhadores da Vigilância Sanitária, da Polícia Militar, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), o então governador Henrique Santillo e o secretário de Saúde da época, Antônio Faleiros, além dos físicos Walter Ferreira e José Júlio Rosenthal, todos vividos por atores.
A série retrata um passo a passo do drama, focada na atuação dos dois físicos, interpretados pelos atores Johnny Massaro e Paulo Gorgulho. E enaltece a coragem de Maria Gabriela, dona de casa – interpretada pela atriz Ana Costa -, que virou heroína ao impedir que muito mais pessoas morressem ou fossem contaminadas por insistir que havia algo errado com o material que ela levou à Vigilância Sanitária, sem ter muita atenção no primeiro dia.
Mas a série foi gravada fora de Goiânia, nas cidades de Santo André e São Paulo, na Região Metropolitana de São Paulo. Os produtores, os irmãos Caio e Fabiano Gullane, disseram em entrevista à BBC Brasil, que, para resgatar o caso, recorreram a consultores da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), além de físicos, médicos e jornalistas que acompanharam a tragédia.
Com isso, confirmam que as pessoas afetadas não foram ouvidas, fator de muita crítica de Odesson Alves Ferreira – irmão de Devair e Ivo, tio de Leide e um dos protagonistas da história real -, e de Sueli de Moraes, da Associação das Vítimas do Acidente com o Césio.
Coincidência com MotoGP
Há quase 40 anos, o drama avassalador que atingiu a capital goiana, por ironia do destino, ocorreu na mesma época em que acontecia em Goiânia uma edição do Grande Prêmio Internacional de Motovelocidade, o mesmo evento que se repete de sexta (20) até domingo (22) no Autódromo Internacional Ayrton Senna, na semana em que a série foi lançada.
O que a produção não faz, lamenta ao Diário de Goiás, o ex-motorista de ônibus Odesson, “é ouvir as vítimas e seguir um roteiro que não bate com vários fatos”. Ele ainda está assistindo a série, mas já se indignou com a colocação de fatos que segundo sua visão não condizem com a realidade da época.
Além disso, o aspecto mais mítico, a famosa luz azulada que seria irradiada intensamente pelo Césio, ele diz que “não foi bem assim”. “Eu peguei um pouco e coloquei na mão e no bolso. Eu sei que não era naquela intensidade”, reclama, buscando alertar que exageros são ofensivos aos radioacidentados, como também são chamadas as pessoas que se contaminaram.
Esse, que pode parecer um detalhe, entretanto, é o reflexo do sentimento de “alijamento” que as vítimas identificam em algumas produções cinematográficas a respeito do acidente radiológico. Odesson, por exemplo, já cobrou correções em algumas produções devido ao tratamento falso ou depreciativo em relação à história vivida por ele, seus familiares, vizinhos e amigos, entre outras famílias atingidas. No caso da produção atual, ele cita, por exemplo, o papel dos físicos em alertar seu irmão no ferro velho, que não teria sido retratado corretamente, assim como os ferimentos imediatos em algumas das pessoas atingidas, como a cunhada, Maria Gabriela. Essa forma de retratar o caso sem dar a dimensão de quem quem viveu próximo aqueles acontecimentos ofende as vítimas, avalia ele.
Como deveria ser, o final melancólico de “Emergência Radiológica” lembra as consequências e punições aos causadores do acidente: os donos da cápsula abandonada e a Cnen. Também lembra que o acidente serviu como parâmetro mundial e que os protocolos gerados foram adotados pela Comissão Internacional de Proteção Radiológica.
A despedida, inclusive, agradece meritoriamente aos físicos e médicos envolvidos no tratamento das vítimas e na descontaminação da cidade, mas novamente não se preocupa em informar como sobrevivem atualmente as pessoas atingidas, aumentando as críticas delas.
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Relato oficial
A fonte foi abandonada em 1987 nos escombros do antigo Instituto Goiano de Radioterapia situado em um lote que pertencia à Santa Casa de Misericórdia – hoje ocupada pelo Centro de Cultura e Convenções, no Centro de Goiânia. O registro da fonte não foi controlado adequadamente pela Cnen. A cápsula possuía radioatividade de 50.9 Tbq (137 Ci) e continha cloreto de césio, composto químico de alta solubilidade. Sua meia-vida física era de cerca de 33 anos.
Com a violação do equipamento, foram espalhados no meio ambiente vários fragmentos de Césio, na forma de pó azul brilhante, especialmente no escuro, o que provocou a contaminação de diversos locais, especificamente naqueles onde houve manipulação do material e para onde foram levadas as várias partes do aparelho de radioterapia.
Por conter chumbo, material de relativo valor financeiro, a fonte foi vendida para um depósito de ferro-velho, cujo dono a repassou a outros depósitos, além de distribuir os fragmentos do material radioativo a parentes e amigos que por sua vez os levaram para suas casas.
Consequências
- Vítimas fatais iniciais: Leide das Neves (6 anos), Maria Gabriela Ferreira, Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza.
- Contaminação: O caso gerou 249 pessoas com contaminação grave documentada.
- Magnitude: Mais de 100 mil pessoas foram monitoradas, e o desastre produziu 13.500 toneladas de lixo radioativo
- Destruição de imóveis – Casas e estabelecimentos foram demolidos total ou parcialmente por contaminação. Casas de vítimas tiveram até paredes arrancadas e animais sacrificados.
- Remoção de solo contaminado Solo de algumas áreas urbanas foi retirado e armazenado como lixo nuclear.
- Impactos psicológicos – Vítimas sofreram traumas (estresse pós-traumático), estigmatização e transtornos mentais tais como ansiedade e depressão.
- Preconceito contra moradores de Goiânia e produtos de Goiás- Habitantes da cidade enfrentaram discriminação em outras regiões do país; compras de produtos goianos foram canceladas.
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