09 de setembro de 2026
HISTÓRIA

‘Emergência Radioativa’: quem é o físico que identificou Césio-137 e evitou desastre maior

Série da Netflix reacende interesse pela tragédia em Goiânia e pela história real do físico que reconheceu o risco radiológico.
Na imagem, Walter Mendes Ferreira e Johnny Massaro. Foto: Divulgação/Ana Paula Freire/CNEN e Netflix
Na imagem, Walter Mendes Ferreira e Johnny Massaro. Foto: Divulgação/Ana Paula Freire/CNEN e Netflix

O físico nuclear Walter Mendes Ferreira foi o primeiro a compreender a dimensão do que acontecia em Goiânia no fim de setembro de 1987. Enquanto moradores apresentavam sintomas sem explicação, ele identificou que a origem do problema estava na exposição a uma fonte radioativa contendo césio-137, material altamente perigoso que circulava sem controle pela cidade.

A constatação ocorreu após a Vigilância Sanitária acionar o especialista para analisar uma peça levada por Maria Gabriela Ferreira, que suspeitava que o objeto estivesse ligado ao mal-estar do marido e de outras pessoas próximas. A atuação de Walter se tornou decisiva para o reconhecimento oficial do acidente e inspirou o personagem vivido por Johnny Massaro na minissérie Emergência Radioativa, que reacendeu o interesse pela .

Quem é o físico que identificou o césio-137

Atuação de Walter Mendes foi decisiva para reconhecer o risco. Foto: Arquivo Pessoal

Natural de Minas Gerais, Walter Mendes Ferreira tinha 29 anos quando foi acionado para analisar uma substância desconhecida levada à Vigilância Sanitária de Goiânia, no dia 29 de setembro de 1987.

Com o auxílio de um equipamento de medição de radiações ionizantes, ele identificou níveis elevados de radiação no material, que estava armazenado de forma improvisada em uma sacola plástica. A partir dessa constatação, orientou a evacuação imediata do local e acionou os protocolos de emergência.

A identificação foi o ponto de virada para o reconhecimento oficial do acidente, que passou a ser acompanhado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear e posteriormente comunicado à Agência Internacional de Energia Atômica.

Atualmente, Walter Mendes atua como chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da CNEN, com décadas de experiência na área.

Como começou o acidente com o césio-137

Equipamento abandonado deu origem à contaminação. Foto: Reprodução

O acidente teve início em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia abandonado foi retirado das instalações do antigo Instituto Goiano de Radioterapia.

Dentro do equipamento havia uma cápsula contendo césio-137, uma substância altamente radioativa. Ao ser aberta, liberou um pó que emitia brilho azul no escuro – característica que despertou curiosidade e levou à manipulação direta por várias pessoas, sem qualquer proteção.

Nos dias seguintes, o material foi compartilhado entre familiares e conhecidos, ampliando rapidamente a contaminação.

Identificação evitou desastre ainda maior

Ação rápida permitiu conter a expansão do acidente. Foto: Reprodução

A atuação de Walter Mendes foi decisiva para interromper a cadeia de exposição. Até a identificação do material, a substância já havia circulado por diferentes locais da cidade, sendo manipulada por dezenas de pessoas.

A confirmação do risco radiológico permitiu o isolamento das áreas contaminadas e o início do às vítimas. Sem essa intervenção, especialistas apontam que o número de pessoas expostas poderia ter sido ainda maior.

Quantas pessoas foram afetadas pela tragédia

Mais de 112 mil pessoas foram monitoradas. Foto: SES

Segundo dados divulgados pelo de , mais de 112 mil pessoas passaram por monitoramento após o acidente.

Dessas, 249 apresentaram algum grau de contaminação por radiação, e 129 precisaram de acompanhamento médico contínuo.

O acidente resultou na morte de quatro pessoas, vítimas da Síndrome Aguda da Radiação.

Vítimas

Caso deixou quatro mortes e impacto nacional.  Leide das Neves, de 6 anos, morreu contaminada por radiação. Foto: aquivo pessoal

Entre as vítimas está Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, que se tornou símbolo da tragédia após ter contato direto com o material radioativo.

Também morreram Maria Gabriela Ferreira, Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza, todos contaminados durante a manipulação da substância.

As mortes ocorreram semanas após a exposição, em decorrência dos efeitos da radiação no organismo.

Tragédia deixou legado na segurança nuclear

O acidente com o césio-137 provocou mudanças importantes na área de segurança nuclear e radiológica.

Segundo Walter Mendes, a tragédia contribuiu para o aprimoramento de protocolos relacionados à radioproteção, atendimento médico especializado, comunicação de risco e monitoramento ambiental.

Essas mudanças foram incorporadas por instituições brasileiras e internacionais, tornando o caso de Goiânia uma referência mundial em gestão de acidentes radiológicos.

Onde está o material contaminado

Resíduos seguem armazenados em Goiás. Foto: Divulgação / PETO

Um dos impactos mais duradouros do acidente foi a geração de resíduos radioativos. Ao todo, cerca de 6 mil toneladas de material contaminado foram recolhidas e armazenadas em depósitos controlados no município de Abadia de Goiás.

Até hoje, o Centro de Assistência aos Radioacidentados acompanha vítimas e familiares, evidenciando que os efeitos da tragédia se estendem por décadas.


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