18 de julho de 2024
Ressignificando o abandono • atualizado em 24/06/2024 às 20:12

Projeto transforma prédio histórico abandonado de Goiânia em museu

O antigo prédio da Celg, inutilizado desde 2020, foi projetado por Gustav Ritter e era conhecido por sua grandiosidade arquitetônica
As paredes do prédio deram lugar a telas com obras de arte contemporâneas. Foto: Divulgação
As paredes do prédio deram lugar a telas com obras de arte contemporâneas. Foto: Divulgação

Um projeto feito em parceria entre pesquisadores do Núcleo Interdisciplinar de Patrimônios, Artes e Memórias (Nipam) da Universidade Federal de Goiás (UFG), do Museu Antropológico da UFG, da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e ativistas, está transformando e ressignificando o antigo prédio da Companhia Energética de Goiás (Celg). A construção histórica que abrigava o afresco pintado por Frei Confaloni sofria com abandono e, agora, dá lugar ao museu intitulado “Museu do Depois do Amanhã” (MUDDA), em referência às novas representações artísticas que dali surgirão.

O idealizador do projeto, professor especialista em geografia urbana vinculado ao Nipam-UFG, Glauco Golçalves, afirma que o objetivo do museu é preservar a construção histórica e ressignificar o espaço abandonado, fazendo-o renascer na arte. “Quando a gente inaugura, enfim, invoca essa ideia de chamar aquele prédio de um museu, a gente também começa a olhar para essa produção do acaso, essas obras do tempo feitas pela natureza, feita pela umidade, feita pela chuva, que vai desenhando parede, que vai criando plantas. Então a gente também começa a criar um viés poético para esse abandono”, destaca Glauco.

Prédio abandonado deu lugar ao Museu do Depois do Amanhã (MUDDA). Foto: Divulgação

Ressignificando o abandono

A construção que fica localizada na Avenida Anhanguera, em Goiânia, datada dos anos 1950, foi projetada por um dos artistas modernistas mais importantes de Goiás, o engenheiro Gustav Ritter. Segundo Glauco, com aspectos artísticos imensamente ricos. “É um projeto absolutamente fantástico em termos da primeira geração de modernismo para o Brasil inteiro. Quando você olha o sentido do modernismo da década de 50, você olha aquele prédio. Aquele prédio sem janelas, todo vazado, com um enorme e maravilhoso cobogó voltado para a Avenida Anhanguera, a disposição dele no terreno, o jeito que o sol atravessa, a facilidade de circulação de ar, o modelo arquitetônico”, elenca o professor.

O prédio foi construído no final dos anos 1950 para sediar a Celg, companhia de energia elétrica de Goiás, à época. No entanto, com a privatização da empresa, deu lugar à sede da Secretaria Estadual de Educação de Goiás (Seduc), ainda em posse do Governo de Goiás. A partir de 2020, quando a Seduc mudou de endereço, inicia então o histórico de abandono da construção.

Painel pintado pelo artista Frei Confaloni. Foto: Divulgação

“Em março de 2020, dois meses depois, estranhamente, assustadoramente, assombradamente, o painel afresco do Frei Confaloni de 8, quase 9 metros de largura por 2 de altura, aparece pintado, minuciosamente pintado com manta asfáltica”, para Glauco, o início da era de deterioração máxima do prédio e sinalização do total descaso do Estado diante do prédio de inestimado valor histórico e artístico.

A construção histórica foi deteriorada pela ação do tempo, por vândalos e pelo descaso do Estado. Foto: Divulgação.

A partir da metade de 2023, os ativistas, junto a equipe de pesquisadores da UFG, começaram a vislumbrar a possibilidade de construir um museu e propor, de maneira experimental, um novo ambiente no prédio. “Primeiro fizemos vídeo artes. Tem uma série de mais de 10 mil fotos que fomos acumulando diferentes momentos, o prédio completamente abandonado. Então, esse prédio lá jogado às traças e passamos a estudar e fazer experimentações artísticas e ir pesquisando o que é esse prédio, porque ele está assim”, descreve o professor.

Renascimento no museu

Para o especialista, propor o museu ali é, em última instância, o ato de “convocar a sociedade goiana a pensar o sentido da sua memória”. “É um alerta, um grito, um chamado à sociedade, a nós que moramos em Goiânia, a pensar o que a gente está fazendo no nosso patrimônio arquitetônico histórico, perdendo ou deixando às traças, vendo desmoronar, pouco a pouco, um prédio com uma grandeza e uma importância única e incomparável”, pontua Glauco.

A construção foi abandonada em 2020. Foto: Divulgação

Além do museu físico, o projeto também institui um museu virtual, com exposições de materiais produzidos no espaço, como galeria de grafites, lambe-lambes, intervenções artísticas, textos e documentos sobre a história do prédio e das obras de arte que lá já ocuparam. O museu virtual do MUDDA permite que os goianos visitem as obras e saibam um pouco mais sobre o espaço que está sendo ressignificado.

Glauco convida os goianos a apreciarem o renascimento do prédio projetado por Ritter como uma forma de viver uma experiência urbana e refletir sobre para onde caminha a preservação da história antiga da capital, tão presente na arquitetura. “Fazer um Museu do Depois do Amanhã (MUDDA) é também um jeito de falar sobre o antes de ontem, é um jeito de não se perder essa dimensão, essa magnitude do que aquele prédio significa para a história de Goiânia”, reitera o ativista.


Leia mais sobre: Cidades / Goiânia

Luana Cardoso

Luana

Atualmente atua como repórter de cidades, política e cultura. Editora da coluna Crônicas do Diário. Jornalista formada pela FIC/UFG, Bióloga graduada pelo ICB/UFG, escritora, cronista e curiosa. Estagiou no Diário de Goiás de 2022 a 2024.