A Prefeitura de Goiânia deixou para trás uma situação de desequilíbrio fiscal e caminha para fechar 2025 com superávit primário, segundo afirmou o secretário municipal de Finanças, Valdivino de Oliveira, em entrevista concedida à Rádio Difusora de Goiânia, nesta quarta-feira (14). O resultado positivo nas contas públicas é o principal trunfo da gestão para viabilizar novos investimentos e sustentar projetos estruturantes para a capital.
“Nós saímos de uma prefeitura que era deficitária para uma prefeitura que passa a ser superavitária. Ainda estamos fechando o balanço de 2025, mas deveremos fechar com um bom superávit primário”, destacou o secretário durante a entrevista.
Valdivino explicou que, ao assumir a pasta, a atual gestão encontrou um cenário crítico, com cerca de R$ 5 bilhões em compromissos assumidos e não pagos. Um dos principais gargalos era a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), que acumulava mais de R$ 3 bilhões em dívidas. “Estamos terminando agora esse processo. Acredito que até meados de fevereiro a Comurg estará com o balanço completamente equilibrado e arrumado”, afirmou.
Além disso, o secretário citou problemas graves herdados na área da saúde, que chegou a sofrer intervenção estadual antes da posse do atual prefeito, Sandro Mabel. “Havia mais de R$ 600 milhões em dívidas, inclusive recursos do SUS que foram destinados a outras finalidades”, disse. O Instituto Municipal de Assistência à Saúde (Imas) também apresentava passivos ocultos. “Era uma dívida não contabilizada, algo que a gente chamava de ‘dívida do pendrive’, em torno de R$ 250 milhões com prestadores de serviço”, completou.
Superávit como base para investimentos
De acordo com Valdivino, o ajuste fiscal foi acompanhado da criação de um Comitê de Controle de Gastos, responsável por impedir que a Prefeitura gaste além do estritamente necessário. “Só poderemos fazer investimentos se nós gerarmos superávit. E é isso que estamos fazendo: economias para criar superávit e permitir que o prefeito invista na infraestrutura da cidade”, ressaltou.
Esse novo cenário fiscal sustenta a projeção de investimentos que podem ultrapassar R$ 1 bilhão em 2026. “Talvez até mais de R$ 1 bilhão. Estamos preparando projetos para enfrentar problemas históricos da cidade, especialmente na drenagem urbana, no sistema viário, na saúde e na educação”, afirmou.
Entre as prioridades estão intervenções na marginal do Córrego Botafogo e em pontos críticos da cidade afetados por alagamentos recorrentes. Segundo o secretário, os custos com reparos emergenciais são maiores do que investimentos estruturais. “Os remendos custam mais caro, mas herdamos esse comportamento. A partir de 2026, quando começarmos a executar nossos próprios projetos, será possível mudar essa lógica”, disse.
Operações de crédito e modernização
Durante a entrevista, Valdivino também comentou a autorização legislativa para a contratação de R$ 132 milhões em financiamentos junto ao BNDES. Ele esclareceu que a Prefeitura ainda não assinou os contratos, mas está se candidatando a três linhas: o FINEP/BNDES de Modernização da Administração Tributária, o Fundo Clima para Desenvolvimento Urbano Resiliente e Sustentável e o BNDES Mais Inovação.
“O atraso tecnológico da Prefeitura é enorme. Nossos sistemas de comunicação com o contribuinte são da década de 1980. Precisamos transformar Goiânia em uma prefeitura digital”, afirmou. Segundo ele, um primeiro contrato de R$ 60 milhões para tecnologia, aprovado ainda em 2024, foi efetivado no fim de 2025.
Taxa do lixo
Outro tema abordado foi a taxa do lixo, que segue em vigor após veto do prefeito a projeto aprovado pela Câmara. Valdivino argumentou que a extinção da cobrança, sem compensação financeira, violaria a legislação fiscal. “São cerca de R$ 200 milhões de receita. Se tira essa receita, automaticamente tem que reduzir despesas vinculadas por lei, como educação, saúde, emendas parlamentares e o duodécimo da Câmara”, explicou.
Segundo o secretário, a taxa não foi criada pela atual gestão. “Ela foi enviada à Câmara em 2022, sancionada em 2024 pelo ex-prefeito, em cumprimento ao marco legal do saneamento básico. O município que não cobra incorre em omissão de receita e pode sofrer penalidades”, afirmou. Confira a entrevista na íntegra:
Jordevá Rosa:
Secretário, obrigado pela participação ao vivo com a gente. Vamos falar de dinheiro, que é um assunto que o senhor entende muito. Há essa questão dos R$ 132 milhões que seriam tomados junto ao BNDES como empréstimo. Como está isso?
Valdivino de Oliveira:
Jordevá, Vassil, isso é uma autorização legislativa. Ainda não temos a lei em vigor, mas a Câmara autorizou a Prefeitura a contratar essas operações. Na prática, estamos nos candidatando a linhas do BNDES.
Uma delas é o FINEP, voltado à modernização da administração tributária, especialmente dos municípios e dos setores sociais básicos. A segunda é o Programa Fundo Clima para Desenvolvimento Urbano Resiliente e Sustentável. A terceira é o programa BNDES Mais Inovação.
A Prefeitura é muito pobre em tecnologia. Nossos sistemas de comunicação e de interação com o contribuinte foram implantados no fim da década de 1980, ainda no governo do professor Leon Bernays, e estão totalmente ultrapassados.
Quando o prefeito me convidou para ser secretário da Fazenda, percebi imediatamente esse atraso tecnológico e deixei claro que precisaríamos transformar Goiânia em uma prefeitura digital. A Prefeitura precisa se comunicar melhor com a sociedade. Precisamos investir em equipamentos, softwares e no desenvolvimento de programas.
Temos investido bastante. Firmamos recentemente o primeiro contrato com o BNDES, aprovado ainda em 2024 e efetivado no fim de dezembro de 2025, no valor de R$ 60 milhões, para investimentos em tecnologia. Agora, estamos propondo ao BNDES um novo contrato de R$ 132 milhões, para o qual foi elaborado um projeto de lei aprovado pela Câmara. A partir de agora, iniciamos as tratativas com o Ministério da Fazenda e com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
Vassil Oliveira:
Secretário, organizar uma prefeitura não é missão fácil, ainda mais com a cobrança política ao longo do ano. Como o caixa da Prefeitura de Goiânia chegou ao fim desse primeiro ano? E o que se pode prever para o próximo?
Valdivino de Oliveira:
Nós saímos de uma prefeitura deficitária. A administração vinha incorrendo constantemente em déficit de execução orçamentária e déficit financeiro. Quando assumimos, havia pelo menos R$ 5 bilhões em compromissos assumidos ou não assumidos formalmente, mas que não estavam pagos. Passamos, então, a enfrentar e pontuar esses problemas.
A maior devedora era a Comurg, com quase R$ 4 bilhões em dívidas — algo em torno de R$ 3 bilhões e pouco. Às vezes os números traem a gente, mas era mais de R$ 3 bilhões, sem dúvida. Estamos finalizando esse processo e acredito que, até meados de fevereiro, a Comurg estará com o balanço completamente equilibrado e organizado.
A Prefeitura também tinha problemas gravíssimos na saúde, inclusive com ex-secretários presos e a decretação de intervenção pelo governador, antes mesmo de tomarmos posse. A saúde acumulava mais de R$ 600 milhões em dívidas, incluindo recursos do SUS e de emendas que foram destinados a outras finalidades.
Tínhamos ainda problemas no Imas. Havia uma dívida não contabilizada, não processada, que no meio acadêmico chamamos de “dívida do pendrive”: cerca de R$ 250 milhões com prestadores de serviço, que estamos resolvendo aos poucos.
Com isso, saímos de uma prefeitura deficitária para uma prefeitura que passa a ser superavitária. Ainda estamos fechando o balanço de 2025, mas devemos encerrar o ano com um bom superávit primário.
Jordevá Rosa:
Secretário, já que o senhor está falando de dinheiro, muita gente pergunta sobre a votação no fim do ano envolvendo a taxa do lixo. Como ficou essa questão?
Valdivino de Oliveira:
A taxa permanece. A lei aprovada na Câmara foi vetada, por proposição nossa, e o prefeito acatou esse veto. Estamos falando de cerca de R$ 200 milhões em receita. Alguns vereadores querem acabar com a receita, mas não querem acabar com a despesa correspondente.
Isso contraria a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Lei nº 4.320 e a Lei Federal do Saneamento Básico. Para extinguir a taxa do lixo, é preciso apresentar compensações.
No orçamento do município, 4,5% correspondem ao duodécimo da Câmara. Se eu tiro R$ 200 milhões da receita, tenho que retirar cerca de R$ 9 milhões do duodécimo. Dois por cento do orçamento são emendas impositivas dos vereadores; ao retirar R$ 200 milhões, é preciso cortar R$ 4 milhões dessas emendas.
Além disso, 25% do orçamento vão para a educação — o que significaria um corte de R$ 50 milhões — e 20% para a saúde, o que representaria menos R$ 40 milhões. Isso é o que muitos vereadores não querem entender. Houve até quem dissesse que, se eu tirasse dinheiro da Câmara, proporia meu impeachment. Mas isso é óbvio: se as despesas são vinculadas a percentuais, ao reduzir a receita, elas caem automaticamente.
Vassil Oliveira:
Impeachment não cabe, né? Mas tudo bem, é direito de propor. Até porque impeachment pressupõe mandato.
Valdivino de Oliveira:
De qualquer forma, esse foi o ambiente em que trabalhamos durante todo o período de discussão sobre a extinção da taxa. Ela não foi criada pelo prefeito Mabel. Foi enviada à Câmara em 2022 e sancionada em 2024 pelo ex-prefeito, em cumprimento à lei federal e ao marco do saneamento básico. O município que não cobra incorre em omissão de receita e fica sujeito a penalidades.
Vassil Oliveira:
Secretário, a previsão do prefeito de investir R$ 1 bilhão neste ano em Goiânia tem fundamento na realidade?
Valdivino de Oliveira:
Talvez até mais de R$ 1 bilhão em investimentos. Estamos elaborando os projetos. A cidade tem problemas sérios de drenagem, especialmente na marginal do Córrego Botafogo, além de vários pontos críticos que se agravam com as chuvas. O prefeito pretende realizar um volume expressivo de obras para adequar a infraestrutura da cidade à realidade atual.
Jordevá Rosa:
Além da drenagem, quais outras obras Goiânia pode receber neste ano?
Valdivino de Oliveira:
As obras ainda estão sendo estruturadas e licitadas pela Secretaria de Infraestrutura. Citei essas porque participei de reuniões com o prefeito e discutimos as fontes de recursos. Mas há muitas intervenções previstas no sistema viário, na drenagem, na saúde, nas escolas e na área educacional.
Temos muitos investimentos a fazer, mas só será possível realizá-los se gerarmos superávit. É exatamente isso que estamos fazendo. Criamos o Comitê de Controle de Gastos, que impede a Prefeitura de gastar além do necessário, gerando economia e superávit para que o prefeito possa investir na infraestrutura da cidade.
Vassil Oliveira:
O que sai mais caro: fazer remendos a cada chuva ou investir de vez e resolver os problemas estruturais?
Valdivino de Oliveira:
Os remendos saem mais caros. O problema é que herdamos esse comportamento. Até a operação de crédito feita pelo prefeito no Banco do Brasil foi, em grande parte, destinada a recapeamentos. Os vereadores não aceitam alterar o projeto já aprovado, então precisamos continuar com recapeamentos e recuperação de vias, mesmo sabendo que o ideal seria mudar a infraestrutura e fazer drenagens. Isso só será possível a partir de 2026, quando começarmos a executar nossos próprios projetos.
Vassil Oliveira:
O prefeito tem um estilo próprio, muito presente nas redes sociais. Isso cria dificuldades no dia a dia ou na relação com os vereadores?
Valdivino de Oliveira:
A Prefeitura tinha problemas administrativos graves na gestão anterior. Muitos vereadores e até deputados acreditavam que também poderiam ser prefeitos. Quando o prefeito chega e afirma que a cidade tem um novo gerente, que o gerente é ele, isso elimina essas pretensões e gera conflitos iniciais.
Hoje, no entanto, todos já estão mais acostumados com o estilo do prefeito. Ele tem comando firme, sabe o que quer para a cidade e o que precisa ser feito. Naturalmente, as pessoas e o próprio sistema vão se adequando.
Jordevá Rosa:
Secretário, o prefeito tem feito algumas mudanças, mas o senhor continua firme no cargo, né?
Valdivino de Oliveira:
Nossos cargos são cargos de confiança. Existe o dia em que você entra e o dia em que você sai. Quando deixa de agradar ou de ser útil, você sai. Eu já passei dos 74 anos, terminei recentemente meu doutorado e penso em fazer um pós-doutorado. É natural que surjam alternativas e propostas. Mas sigo firme com o prefeito Mabel e pretendo continuar enquanto ele entender que sou útil para a Prefeitura.
Jordevá Rosa:
Quero agradecer a participação do secretário de Finanças, Valdivino de Oliveira. Aos 74 anos, doutor, pensando em pós-doutorado, não para nunca, né?
Vassil Oliveira:
Está certíssimo. Melhor fazer planos para os 90 do que ficar parado.
Valdivino de Oliveira:
Faço parte do que os americanos chamam de NOLT — New Older Living Trends. São pessoas mais velhas que ainda têm projetos de vida como quem tem 30 ou 40 anos: empreendem, estudam e buscam melhorar de vida.
Jordevá Rosa:
Boa sorte ao senhor e obrigado por contribuir com a gente aqui no Microfone Aberto. Um bom dia.
Valdivino de Oliveira:
Quero desejar a todos os ouvintes da Difusora um 2026 profundo, cheio de realizações e prosperidade. Tenho uma simpatia especial pela Difusora. Um abraço a todos.
Leia mais sobre: Finanças públicas / Prefeitura de Goiânia / Rádio Difusora de Goiânia / Valdivino de Oliveira / Cidades / Notícias do Estado

