19 de julho de 2026
FENÔMENO • atualizado em 24/02/2026 às 08:28

Prefeito de Anápolis abandona figurino institucional e bomba no Instagram sob o mantra de fiscal e sem medo de polêmica

Com estratégia clara, prefeito tem comunicação voltada para a rua, não foge de polêmicas e colhe frutos de popularidade e alto engajamento digital
Márcio Corrêa mantém perfil próximo ao cidadão nas redes sociais. (Foto: Reprodução)
Márcio Corrêa mantém perfil próximo ao cidadão nas redes sociais. (Foto: Reprodução)

De odontólogo e empresário do ramo imobiliário a influenciador político numa ascensão meteórica. Em menos de 14 meses como prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa (PL) já acumulou mais de 700 mil novos seguidores – num prato cheio para o estudo do marketing político num tempo como o nosso. A fórmula é simples e funcional: quase zero institucionalidade, muito povo e, claro, pitadas de polêmica aqui e ali.

A receita também emprega, geralmente, pouca produção. A maioria dos milhares de vídeos emprega apenas alguém para filmar – que por vezes, sobretudo nas gravações da madrugada, é o motorista do próprio prefeito – e uma edição simplificada. A ideia é claramente falar a língua do povo. Por isso o próprio Corrêa utiliza uma linguagem predominantemente coloquial.

Como toda boa estratégia política, a comunicação digital do prefeito é baseada em pesquisa. Seu antecessor, Roberto Naves (Republicanos), hoje presidente da Goiás Turismo, mantinha uma comunicação digital formal, sem povo e com baixa frequência de publicações. O resultado foi mensurado em diversas pesquisas. Num mundo digitalizado e que postar quer dizer fazer, paga aquele que não publica. Naves não publicou e era tido pela população como um prefeito ausente. Não só pelos problemas da cidade.

O antídoto escolhido pela população nas urnas trouxe exatamente a resposta que os levantamentos mostravam que o eleitor deseja: alguém que falasse com o povo e que estivesse nas ruas. E foi este figurino que Márcio Corrêa adotou desde o primeiro dia. E o resultado? São quase 700 mil seguidores em um município de 415 mil habitantes e menos de 300 mil eleitores. O número de pessoas que acompanham o prefeito supera em 65% o de moradores da cidade. Não menos importantes são as dezenas de milhares de curtidas, as centenas de milhares de visualizações e uma enxurrada de comentários, mesmo que nem todos positivos.

Fiscal, do povo e destemido

Um rápido olhar no perfil de Corrêa no Instagram entrega tudo. A imagem é de homem do povo, atento aos problemas das pessoas e que não tem medo de encarar os desafios, mesmo que estes não sejam de sua alçada. Não são poucos os vídeos em que o prefeito participa, por exemplo, de batida policial. E com direito a interrogatório do suspeito. Um verdadeiro show para o público das redes.

Em todos os vídeos, a editor de Corrêa faz questão de deixar as buzinas de motoristas, os “alô, prefeito”, elogios e cumprimentos. E com frequência os vídeos incluem conversas emotivas. Há no perfil personagens de sobra que contam histórias de uma vida difícil. E o prefeito estende a mão para aquilo que é possível fazer. Num dos casos mais recentes, o storytelling, na linguagem das redes, tratou de um idoso deixado de fora de casa. O roteiro de reality show incluiu batida na porta dos locadores e recolha, pelas próprias mãos, dos pertences daquele senhor. Teve até vídeo de fofoca de casal, com trilha sonora e tudo.

As rondas noturnas, aliás, tornaram-se rotineiras e mostram um gestor de agenda cheia, mas que abre mão de descansar para ver por si próprio, na rua, o problema que o cidadão vive. A rotina intensa chegou a ser motivo de ‘puxão de orelha’ de Daniel Vilela ao aliado depois que ele passou por um período internado. “Precisa dormir mais e se cuidar mais. Já avisei a Carla (Lima, primeira-dama)”, brincou.

A brincadeira rendeu outro vídeo, claro. Para reforçar o mantra de fiscal do povo, o prefeito instalou câmeras nas unidades de saúde para monitorar a movimentação. “Agora posso dormir tranquilo”, disse no postagem, numa poltrona em casa.

Para ter a aprovação popular, claro, é preciso encarar temas sensíveis. Nestes 14 meses houve um período de declaração de guerra ao serviço prestado pela Saneago. Em rondas pela cidade Corrêa encontra moradores, mostra estragos, ouve os relatos de reclamação e liga para cobrar do responsável. É o roteiro que funciona, sobretudo para uma cidade que estava farta de um administrador, como definem as pesquisas qualitativas, sem presença.

Há cobranças até à própria população, sem medo, e com a autoridade. Corrêa tocou em pontos sensíveis, como a cobrança dos chamado flanelinhas por estacionamento público. E vinha sempre a frase. “Eu sou o prefeito”.

Na onda da direita

Parece ser tudo original para os desavisados, mas nem sempre é. Corrêa tem um consultor muito ligado nas redes sociais de outros prefeitos. E nem só Rodrigo Manga – a explosão de Sorocaba – é sucesso. O prefeito de Anápolis já se inspirou em trends não oficiais lançadas por gestores municipais. Muitos deles de Santa Catarina. Outra inspiração é Abílio Brunini, de Cuiabá. Se não são todos do PL, são todos de direita.

Uma das trends adotadas por ele, que não curiosamente também foi seguida por Sandro Mabel (UB), de Goiânia, foi da abordagem a pessoas em situação de rua. Corrêa gravou diversas conversas com indivíduos que viviam nas ruas. Tratou o problema ‘na linguagem do povo’. “Ou trabalha, ou não fica aqui”, disse por vezes. Até gravou o sucesso, a posteriori, de um ex-morador de rua que agora laborava na companhia de lixo.

Nesta abordagem nada ortodoxa, viralizaram vídeos do prefeito em conversas com pessoas em situação de rua que assumiam prisões e condenações por crimes. Até homicídio. E, claro, com um ‘quê’ de estratégia política. Coincidência ou não, todos estes diziam que o Centro Pop, que acolhe quem está em situação de rua, “é uma mãe”. A frase apareceu uma dezena de vezes nos reiterados vídeos. E uma das políticas adotadas pela administração – depois proibida pela Justiça – foi fechar o Centro Pop.

Outra trend não oficial nasceu com Brunini em Cuiabá e chegou a Anápolis e Goiânia. A denúncia: pessoas saudáveis procuram UPA para obter atestado médico e faltar ao trabalho. Virou conteúdo para a rede social e choveram comentários elogiosos – ou não – à nova política para ampliar a restrição à concessão de atestados. Um dia depois, o vídeo do resultado: UPA vazia, dizia o enunciado.

Também veio como inspiração doutros prefeitos de direita uma das mais recentes. A prefeitura identificou fraude em atestados de servidores. A conta é grande e o número prende o público para a denúncia: R$ 27 milhões de prejuízo aos cofres públicos. E mais: 101 mil dias de licenças remuneradas. E casa perfeitamente bem no perfil construído por Márcio Corrêa em mais um vídeo de sucesso para a incontável coleção.

O boom das redes tem receita e estratégia, mas não alcança a todos igualmente. Embora seja prefeito de Goiânia, mais de três vezes mais populosa que Anápolis – e muito ativo digitalmente – Sandro Mabel tem 286 mil seguidores. Leandro Vilela, em Aparecida, não chega a 50 mil. Wellington Carrijo, em Rio Verde, fica nos 72 mil. O futuro governador Daniel Vilela ainda está nos 163 mil, assim como Wilder Morais. Dos fenômenos digitais, Márcio só não bate Aava Santiago, com quem tem números basicamente iguais. E Ronaldo Caiado, com décadas e décadas de vida pública, com 2 milhões. A comparação caseira chega a ser desleal. O ex-prefeito Roberto Naves tem 45 mil seguidores.

O DG tentou conversar com o prefeito sobre o fenômeno em suas redes sociais, mas a agenda não permitiu a entrevista. A reportagem solicitou as respostas por escrito, mas não houve retorno até a publicação da matéria.

Amor e ódio

O assunto é rede social, logo os sentimentos que a movimentam a níveis virais são dois: amor e ódio. E assim é a relação do público e do mundo político. Márcio Corrêa navega em uma maré de alta popularidade. Pesquisas internas de diferentes grupos políticos indicam que o prefeito está na casa de 80% de avaliação positiva. Mas não são desprezíveis os que o chamam de ‘blogueirinho’, ‘tiktoker’ ou o acusam de maquiar a verdade em vídeos roteirizados.

E, claro, no meio político as percepções são distintas. O decano da Câmara Municipal, Jakson Charles (PSB), aliado do prefeito, resume a conduta. “Isso é dele. Ele é assim, gosta muito dos vídeos e das redes sociais”. E se a maior autoridade do município faz, por que não eu? Muitos vereadores pensam assim e a tentativa de reproduzir o ‘efeito Márcio’ nas redes replicou-se entre os parlamentares. Sem o sucesso obtido pelo prefeito. Um deles é Elias do Nana (PSD). “Ele faz muito bem. As pessoas gostam”. Aliados citam ainda ‘transparência’, ‘proximidade com o povo’ e ‘trabalhador’ para definir o ativismo digital.

Márcio Corrêa em vídeo conversa com pessoa em situação de rua. (Foto: Reprodução)

Do outro lado, os chavões são inevitáveis. Na oposição, Domingos Paula (PDT) chegou a chamá-lo de Márcio Correria, em alusão aos vídeos de rondas noturnas pela cidade. “O prefeito adora fazer vídeo, mas por que não faz vídeos dos problemas da administração?”, questiona.

E a oposição, claro, não esquece que o maior escândalo da administração nasceu, ironicamente, nas redes sociais. Um perfil criado para atacar personalidades da cidade – políticos ou não – tinha como um dos mentores, segundo a Polícia Civil, o ex-secretário de Comunicação da prefeitura. Mais tarde pediu-se que o próprio Corrêa fosse investigado por orientar postagens contra adversários, o que não prosperou na Justiça. Justamente no período da operação que cessou o ‘Anápolis na Roda’ o prefeito bateu seu recorde de ‘silêncio’ nas redes, com duas semanas sem o padrão tradicional de postagens.


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