O mercado pecuário brasileiro vive um momento de transição. Após atingir patamares recordes em abril, o preço do boi gordo registrou uma desaceleração nas últimas semanas, mas o alívio para os frigoríficos pode ter prazo de validade. Especialistas do setor apontam que uma combinação de fatores sazonais, eventos globais e ciclos biológicos do rebanho deve pressionar as cotações para cima a partir de julho.
Historicamente, o mês de maio exerce uma pressão de baixa sobre a arroba, movimento que se repete em 2026. No entanto, o cenário projetado para o segundo semestre é de oferta restrita e demanda aquecida, tanto no mercado interno quanto no comércio exterior.
O movimento sazonal e a queda recente
Desde o recorde de R$ 367,30 por arroba registrado em meados de abril (indicador Cepea/Esalq), o boi gordo acumulou uma queda de aproximadamente 3,8%. Essa retração já era aguardada por consultorias especializadas.
O declínio atual reflete o chamado “fim das águas”. Com a chegada do clima seco, o pasto perde qualidade nutricional, obrigando o pecuarista a descartar animais, tanto machos quanto fêmeas que não emprenharam, para evitar prejuízos.
Esse aumento temporário na oferta de gado para abate é o que segura os preços no curto prazo. Somado a isso, há uma desaceleração momentânea nas negociações com a China, após o preenchimento das cotas anuais de importação sem tarifas adicionais.
Copa do Mundo e Eleições
O cenário deve mudar drasticamente no segundo semestre. Dois grandes eventos são apontados como motores para o consumo doméstico de carne bovina: as eleições e a Copa do Mundo.
Dados históricos mostram que em anos eleitorais a arroba do boi gordo em outubro costuma ser cerca de 6% superior à cotação de janeiro, um salto considerável em comparação aos 2% registrados em anos sem pleitos. A circulação de recursos e o clima de confraternização estimulam o mercado interno.
Além disso, a partir de julho, a lógica de mercado volta a ser a da retenção de fêmeas. Com o preço do bezerro (reposição) em níveis remuneradores, o pecuarista prefere manter a vaca no pasto para produzir novos bezerros em vez de enviá-la ao frigorífico. Menos fêmeas indo para o abate significa menos carne disponível, elevando o valor da arroba.
A retomada da China e o impacto nos frigoríficos
No cenário externo, a China continua sendo o fiel da balança. A expectativa é que, a partir de outubro, os exportadores retomem o ritmo acelerado de embarques para garantir que as cargas cheguem ao destino antes das festividades do Ano Novo Chinês, em janeiro.
Os grandes frigoríficos já se preparam para margens de lucro mais apertadas em 2026. Executivos do setor confirmam que o custo de aquisição da matéria-prima (o boi gordo) subiu cerca de 13% na comparação anual.
Embora o mercado interno esteja “indiscutivelmente aquecido”, a indústria precisa equilibrar o repasse desses custos ao consumidor final para manter a competitividade.
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