A morte do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, neste sábado (14), aos 96 anos, representa a perda de uma das vozes mais influentes do pensamento político contemporâneo. É o que afirma o professor, pesquisador e cientista político Luiz Signates, cuja tese de doutorado foi inspirada em obra do autor.
Considerado um dos maiores intelectuais do século XX e do início do século XXI, Habermas dedicou mais de sete décadas ao debate sobre democracia, linguagem e participação política, consolidando uma visão de democracia baseada no diálogo.
“Ele deixa uma das mais completas e significativas teorias da comunicação que temos disponíveis. Habermas determinou, para sempre, que é de comunicabilidade que são feitas as democracias. Mas, o que ele chamava de comunicação não é mídia ou propaganda: é diálogo. A interlocução mediada pela linguagem, em padrões éticos, pautada pela verdade, pela confiança no outro e pelo respeito ao interlocutor, dentro de um relacionamento em que todos busquem não vencer um ao outro, mas chegar a consensos por meio de argumentos honestos, considerando-se mutuamente como sujeitos iguais em direitos e capacidade de expressão”, pontua Signates, ao apontar a comunicação para Habermas.
Segundo o pesquisador, a obra do filósofo representa uma das formulações mais abrangentes já produzidas sobre a relação entre sociedade, poder e democracia. “Ele via o Estado e a economia como sistemas de poder. Mas, acreditava que as sociedades democráticas eram capazes de colocar limites aos processos de dominação e criar uma condição em que esses sistemas pudessem servir à sociedade”, frisou.
“Para isso, é preciso democratizar as esferas pública e privada, estabelecendo a informação e a lei como parâmetros pelos quais a justiça social e a igualdade sejam garantidas, a partir do debate livre e racional”, acrescentou o pesquisador, sobre a teoria de Habermas.
Ao destacar que ele foi, sem dúvidas, “um dos maiores pensadores da democracia da história da humanidade”, Signates ressaltou que o filósofo pós-kantiano, líder da segunda geração da Escola de Frankfurt, “acreditava profundamente na ética pública como fundamento da democracia” e “deixou uma obra portentosa, que toca em praticamente todos os campos das ciências humanas e sociais”.
A morte de Jürgen Habermas foi confirmada pela editora Suhrkamp, com base em informações divulgadas pela família. O filósofo faleceu em sua residência em Starnberg, nos arredores de Munique, na Alemanha. A causa não foi divulgada.
Biografia
Nascido em 1929, na cidade de Düsseldorf, Habermas cresceu durante o período do nazismo, experiência que marcaria profundamente sua visão sobre política e responsabilidade histórica. O fim da Segunda Guerra Mundial, vivido ainda na juventude, tornou-se um marco para suas reflexões sobre reconstrução democrática e memória coletiva.
Entre 1949 e 1954, estudou filosofia, história, psicologia, literatura alemã e economia em universidades como Bonn, Göttingen e Zurique. Antes de consolidar sua carreira acadêmica, também trabalhou como jornalista freelancer.
Habermas tornou-se um dos principais representantes da segunda geração da Escola de Frankfurt, tradição intelectual ligada à Teoria Crítica e dedicada à análise das estruturas sociais e culturais do capitalismo.
Influenciado por pensadores como Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, foi convidado a integrar o Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, um dos principais centros de produção da teoria crítica no mundo.
Em 1964, assumiu a cátedra de Filosofia e Sociologia na instituição, sucedendo Horkheimer e consolidando sua posição como um dos principais intelectuais da Alemanha do pós-guerra.
Ao longo de décadas, sua obra abordou temas como democracia deliberativa, racionalidade, legitimidade política, direito, ética e comunicação, deixando uma das produções intelectuais mais abrangentes das ciências humanas contemporâneas.
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