16 de julho de 2024
CENÁRIO PREOCUPANTE

Pesquisa vê falhas no ensino da Educação Física, onde 76% dos professores presenciaram bullying

Cerca de 80% dos professores já precisaram comprar material para aulas com o próprio salário; 94,7% apontaram que o espaço das aulas precisa de melhorias; entrevistados eram das redes pública e privada
Bolas são os itens mais comprados por próprios professores de Educação Física - Foto: Agência Brasil / arquivo
Bolas são os itens mais comprados por próprios professores de Educação Física - Foto: Agência Brasil / arquivo

Uma pesquisa realizada com mais de 3 mil professores de Educação Física de escolas públicas e privadas de todo o país revelou que 97% deles dão aulas em locais onde a estrutura e o material são inadequados. Necessidades de melhoria da estrutura e falta de materiais para as aulas foram apontadas. Além disso, 76,1% dos professores da disciplina presenciaram algum tipo de bullying.

O estudo foi realizado pela Organização não Governamental Instituto Península e divulgado neste sábado pela Agência Brasil. A pesquisa envolveu profissionais de escolas públicas (86%) e de escolas particulares (13%), entre outubro e novembro de 2023.

Segundo o levantamento, 94,7% dos professores apontaram que o espaço onde são ministradas as aulas de educação física exigem melhorias. Entre os problemas apontados estão a situação ruim de quadras esportivas, a ausência de vestiários e a falta de materiais como bolas de handebol, basquete, vôlei e até mesmo de futsal.

Mais de 51% precisam levar o próprio material para dar aula

Quando perguntados sobre que estratégias adotam quando enfrentam problemas de infraestrutura, 51,9% dizem levar seu próprio material. Outros 50,9% respondem que fazem seu próprio material. Ao menos 16% usam doações, mas 14,6% só fazem tarefas que não precisam de material. Outros 11,1% levam estudantes para fora do ambiente escolar.

Gastando o salário para ensinar

Além disso, segundo a pesquisa, 79,8% dos professores informaram já ter comprado material com dinheiro do próprio bolso em algum momento. Entre os materiais adquiridos pelo próprio docente mais comuns estão bolas de futsal (19,2%), bolas de vôlei (17%), bambolês (13,6%) e bolas de handebol (11,2%).

“Isso quer dizer que eles sentem que não têm as ferramentas suficientes para poder fazer o seu trabalho. Eles também sentem necessidade da melhoria nos espaços das escolas para que eles possam dar aula. Ou seja, eles não têm o espaço nem o material para atuarem como professores de educação física”, afirmou à Agência Brasil Daniela Kimi, do Instituto Península. O instituto trabalha com a capacitação de professores.

Bullying foi presenciado por 76,1%

Outro destaque da pesquisa é que 76,1% dos professores já presenciaram bullying. Ou seja, testemunharam a intimidação sistemática, física ou psicológica em atos de humilhação ou discriminação, cometido por alunos contra outros durante aulas de Educação Física.

A pesquisa apontou que a maioria dos casos de bullying envolve a habilidade técnica de outros alunos (79,7%). Além disso, também foram registrados bullying por causa da aparência (54,6%), do gênero (28,8%) e da sexualidade (23%).

Professores admitem falta de preparo frente ao bullying

Entre aqueles professores que já presenciaram bullying nas aulas, o levantamento apurou que 21,4% disseram não ter preparo para lidar com a situação.

“A reflexão que a gente traz é que o espaço da Educação Física é mais propício para que os alunos tenham essas atitudes. E os professores também nos trazem a necessidade de saber como intervir nessas situações”, explica Daniela.

A pesquisa questionou também sobre dificuldades para incluir meninas nas aulas de Educação Física. Do total, 36,9% apontaram esse problema.

“O curioso é que a gente pergunta ‘você gostaria de ter apoio no sentido de incluir as meninas?’, mais de 60% [63,6%] afirmam que sim. Então a gente acha que esse número de 37% seja ainda maior”, destaca Daniela.

A Agência Brasil entrou em contato com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e com a Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), mas não teve resposta.


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Marília Assunção

Jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás. Também formada em História pela Universidade Católica de Goiás e pós-graduada em Regulação Econômica de Mercados pela Universidade de Brasília. Repórter de diferentes áreas para os jornais O Popular e Estadão (correspondente). Prêmios de jornalismo: duas edições do Crea/GO, Embratel e Esso em categoria nacional.