27 de fevereiro de 2024
Opinião
Publicado em • atualizado em 17/12/2022 às 07:08

Salários baixos, inflação, desamparo e xenofobia: seis meses morando em Portugal

Marquises do Teatro Nacional São João servem de teto para moradores de rua em Porto, segunda maior cidade de Portugal. (Foto: Carlos Nathan Sampaio)
Marquises do Teatro Nacional São João servem de teto para moradores de rua em Porto, segunda maior cidade de Portugal. (Foto: Carlos Nathan Sampaio)

O termo “qualidade de vida” passou a ser muito mais relativo para mim após estes seis meses vivendo em Portugal. Um dos diversos motivos para essa reflexão foi quando, em uma noite qualquer, passeando por Porto, fui abordado por um morador de rua que pedia dinheiro para se alimentar. Durante a curta conversa ele afirmou que sairia do país se pudesse. Fato este, somado às outras experiências que tenho vivido, me fizeram questionar até que ponto este lugar é melhor pra mim do que o Brasil.

A história é aquela: vim, a princípio, para conhecer e, já com uma vontade de me mudar para outro país, vi possibilidades de me manter em Porto. Tomei a liberdade de me divertir por ali durante duas semanas e, depois disso, reafirmei a decisão de viver nesta cidade e comecei a procurar emprego enquanto me informava sobre tudo que precisava fazer. Fiz os documentos necessários, busquei por oportunidades profissionais dentro e fora da minha área de atuação. Aqui dei detalhes sobre as primeiras impressões de busca pro trabalho e o dia a dia morando em Portugal no primeiro texto da série.

Reforço, antes de dar mais detalhes, como sempre faço nos textos dessa série, que nestes meses em que estou pelo país luso, escrevo sobre o que vivi e informações que obtive entrevistando moradores, sejam eles portugueses nativos ou imigrantes do Brasil e outros países. Cada experiência é única e o que acontece comigo e estas outras pessoas não é um retrato fiel da realidade, mas parte dela e do que, normalmente, acontece em Portugal.

Tenho, ainda, o segundo texto da série em que falo sobre como é ser imigrante em Porto, depois de 4 meses vivendo no país luso.

Sobre o que escrevi no início do texto, venho me questionando sobre viver em Portugal por que, além do relato do morador de rua, a maioria dos portugueses e imigrantes com quem falei admitiram que já houve tempos melhores para se viver no país. Primeiro, um grande problema que assola o mundo não fez com que este lugar passasse ileso: inflação. Os preços, principalmente de produtos do dia a dia, de mercado, têm subido e não falei com uma pessoa sequer que não tenha sentido no bolso a atual realidade econômica do país.

É sabido que, no Brasil, o problema é o mesmo, mas quando você parte do pressuposto que você deixou tudo em um país para tentar a vida em outro, o mínimo que se espera é que haja mais benefícios dali pra frente. Sobre o desamparo em Portugal, ainda é algo que se vê pouco, nem se compara ao que se vê nas grandes cidades do Brasil, mas é desanimador perceber que os próprios cidadãos portugueses de diversas classes sociais não tem ajuda ou oportunidades no próprio país.

Um homem que não quis se identificar me contou que morava neste carro, estacionado próximo a um shopping de Porto, por que não tinha mais onde viver e não conseguia emprego. (Foto: Carlos Nathan Sampaio)

Um exemplo disso são os baixos salários. Já não bastasse a inflação e o desamparo, as remunerações são um grande problema em Portugal. Para se ter ideia, para a grande maioria das profissões não se paga muito mais do que o salário mínimo, que é de 705 euros (algo em torno, hoje, dos R$ 3.990,00). Seja uma pessoa com diploma, trabalhando na sua área, seja profissional de trabalhos envolvendo vendas, restaurantes, limpeza, o “ordenado”, como também chamam aqui, varia ali na casa dos 900 euros.

Tudo isso já é um obstáculo porque não se pode viver de forma excelente com tais salários, que dirá começar uma vida do zero. Com menos de mil euros você vive para o básico e, se não tem apoio de família, companheiro ou reservas, não terá como desfrutar de toda qualidade de vida que a Europa oferece.

Por fim, se não fosse suficiente as adversidades econômicas batendo à porta, vem a xenofobia. São pequenas atitudes diárias que precisam ser “engolidas” para que você tente viver bem. No trabalho e no dia a dia, encontrei muitos portugueses que acharam que tinham o direito de me menosprezar ou me tratar mal por qualquer que fosse o motivo.

Eu fui agredido verbalmente diversas vezes e, fisicamente, duas vezes (não de forma violenta, mas recebendo um tapa rude em minha mão e um chacoalhar de pessoas que não tinham liberdade ou direito em me tocar). Sem falar nas ironias de o por quê eu vim para Portugal, como se eu não tivesse nenhuma permissão de reclamar por ter escolhido estar ali.

Reforço porém, que também lidei com pessoas incríveis em Portugal, mesmo portugueses. Mas sabemos bem que, quem não te trata bem, acaba atingindo muito mais do que quem se comporta como uma pessoa normal, sendo educada com você.

É isso, e por mais que seja um texto reflexo da minha experiência de das pessoas com quem falei, o número de brasileiros em Portugal que querem retornar ao Brasil subiu, sim. De acordo com um levantamento feito pelo blog Portugal Giro, do jornal O Globo, em parceria com o programa de retorno Árvore, da OIM (Organização Internacional para as Imigrações).

Segundo o estudo, o número representa um aumento em relação a 2021, que teve 190 pedidos de suporte econômico para voltar ao Brasil e 52 retornos. Já entre janeiro e setembro deste ano, foram registrados 541 pedidos, enquanto 202 brasileiros receberam apoio com despesas e passagens aéreas. Ou seja, mais que o dobro.

Como exemplo de quem decidiu voltar, um casal gravou um vídeo que foi assistido por mais de 120 mil pessoas. Na publicações, ambos contam das experiências difíceis pelas quais passaram com seus filhos e, sem conseguir boas oportunidades, acabaram voltando. Assista:

No próximo texto, porém, que devo publicar em fevereiro, volto a trazer informações boas e positivas sobre Portugal. Pois, apesar de muitas dificuldades, qualquer pessoa pode e consegue ser feliz onde e como decidir ser. E, como esta é minha realidade atualmente, eu consigo enxergar tranquilamente os lados bons e ruins de estar neste país. Até lá, caso você, leitor, tenha uma dúvida e queira ela respondida em um dos meus textos, pode enviar para o e-mail [email protected] que eu busco a informação com algum entrevistado

Carlos Nathan é comunicador, formado pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e escreve periodicamente para o portal Diário de Goiás

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