25 de junho de 2022
Opinião
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Pré-candidatos ao governo de Goiás não fazem ideia de como furar bolhas na internet

Reflita sobre a seguinte situação se você é alguém que se preocupa pelo menos um pouco com a política do seu Estado: qual foi a última vez em que você soube de notícias de algum dos pré-candidatos ao governo de Goiás – Ronaldo Caiado, Major Vitor Hugo, Gustavo Mendanha, Marconi Perillo, Wolmir Amado, Edigar Diniz, Cintia Dias, Helga Martins – sem buscá-los nas redes sociais ou sem se informar pelos veículos de comunicação? A maioria esmagadora das pessoas vai, com certeza, dizer que não sabe. E isso não é culpa delas, não. É justamente esse um dos problemas.

Analisando as redes sociais mais importantes da atualidade – no quesito obtenção de informação – Instagram e Twitter, a maioria dos pré-candidatos ao governo de Goiás definitivamente não sabem usar a internet a seu favor, não conseguem furar as “bolhas” que basicamente seria chegar a outras pessoas que estão foram da sua realidade, pessoas que pensam diferente e que, de alguma forma, podem querer conhecer novas propostas políticas. Antes de explicar o porquê, vale lembrar que, não, a internet não é a principal ferramenta para conquistar votos, mas é extremamente importante e indispensável para se apresentar ao eleitor.

Com a internet e, consequentemente, com as redes sociais, é possível construir pontes de diálogo e apresentar pontos que se tornem discussões realmente relevantes para uma campanha eleitoral que bate à porta. Mas os pré-candidatos, aparentemente, não se importam muito com isso, de acordo com um diagnóstico feito observando seus perfis e suas postagens nas últimas semanas. Não é muito justo incluir Ronaldo Caiado (União Brasil), com 988 mil seguidores no Instagram e Twitter, nesta listagem, pois além de atual governador e que tem a máquina em sua mão, ele já era bem popular nas redes sociais antes mesmo de ser eleito, em 2018, quando era senador.

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O objetivo desta análise não é dizer quem dos políticos que querem governar Goiás é melhor ou pior quando se trata de tato na internet, mas Caiado certamente está um passo à frente quanto à rapidez em que se comunica nas redes, a linguagem que usa e a forma como tenta conquistar todos os públicos. Novamente, este tipo de investigação não determina quem é mais inteligente, ou quem seria um melhor governador ou governadora, mas sim quem melhor se apresenta usando a ferramenta online, que é um dos principais meios, se não o principal, para chegar ao cidadão hoje em dia.

Seguindo a lista de pré-candidatos pela ordem de seguidores em suas redes sociais, temos Major Vitor Hugo (PL), com 592 mil seguidores. Apoiador nato do presidente Jair Bolsonaro (PL), Vitor Hugo foi eleito em 2018, com 31.190 votos, graças ao sistema proporcional e ao quociente eleitoral. Na época, ainda pouco conhecido, o parlamentar conseguiu uma cadeira na Câmara dos Deputados puxada por Delegado Waldir, que foi o mais votado, com 274.406 votos. Na época, ambos eram do PSL.

Para se ter ideia, outros 10 candidatos foram mais votados que Major Vitor Hugo em 2018, mas é isso. De lá pra cá, Major Vitor Hugo teve muito destaque nacional e conseguiu seguidores do Brasil todo, porém, sua periodicidade nas redes sociais ainda é baixa e se baseia, principalmente, em atacar partidos de esquerda, criticar Ronaldo Caiado e repercutir coisas positivas em relação a Bolsonaro. Não há, em momento algum, ao menos nas últimas semanas, alguma ponte construída entre os internautas e ele, apenas o que ele acha que é a verdade e ponto.

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Considerando que Marconi vá se candidatar, pois não houve pronunciamento oficial sobre sua decisão se será candidato ao Senado, Câmara, ou governo, ele aparece como terceiro da lista entre os mais seguidos: pouco mais de 220 mil pessoas. Essa popularidade de Marconi foi conquistada por seu histórico como governador, senador nas últimas duas décadas, porém ainda é pouco para garantir algo.

Marconi, apesar de contar com essas centenas de milhares de pessoas que o seguem, porém, também não parece ter com quem contar quando o assunto é internet. Sua atividade nas redes sociais se baseia em promover os encontros políticos dos quais participa, postagens de datas comemorativas e críticas ao atual governo estadual. Não há intenção, em seu discurso, de conquista do público que ainda pode não o conhecer.

Um outro pré-candidato bem popular é Gustavo Mendanha (Patriota), com pouco mais de 190 mil seguidores nas redes. Mendanha, até pouco tempo, era prefeito de Aparecida de Goiânia e teve uma grande visibilidade ao ser um dos candidatos, em 2020, eleitos com maior porcentagem. Ele conseguiu quase 96% dos votos válidos, mas mesmo assim preferiu abrir mão de tantas pessoas que confiaram em seu trabalho para se arriscar como candidato a governador em 2022.

O ato de Mendanha seria algo bom, na teoria, mas na prática gerou uma série de crises. O pré-candidato fez uma peregrinação em busca de alianças e partidos e não teve muito sucesso, estando, agora, aparecendo como coadjuvante no cenário político. Em se tratando de sua atividade nas internet, se esperava mais: basicamente publicações de seus encontros enquanto pré-candidato, críticas ao governo atual e pouquíssima abertura para construir uma relação entre si e o internauta.

Mesmo sem muita popularidade e provavelmente sem possibilidade de grandes investimentos, Wolmir Amado (PT) – pouco mais de 10 mil seguidores – é um dos pré-candidatos que melhor tem conseguido trabalhar com as redes sociais de uma forma mais adequada. Diferente dos outros pré-candidatos, Wolmir concilia publicações de agenda com postagens de fácil leitura onde ele apresenta tanto a si mesmo, quanto questões que deseja discutir com o seguidor. Tal estratégia faz algo muito útil nas redes sociais: a replicação, ou “repostagem”. Quando alguém reposta algo produzido por você, a chance de chegar em outras pessoas é muito grande e isso ajuda o pré-candidato petista.

Outros dois pré-candidatos, Edigar Diniz (Novo) e Cíntia Dias (Psol), com respectivamente pouco mais de 2 mil e mil seguidores, são candidatos opostos, mas que trariam uma boa diversidade entre o eleitorado se soubessem trabalhar melhor as redes sociais. Provavelmente, para ambos, o maior desafio seja investimento, mas, como sabemos, na internet tudo é possível. Os dois fazem o comum: publicações de encontros políticos ou militantes e críticas aos atuais governos estadual e de Bolsonaro.

Por fim, a candidata menos seguida é Helga Martins (PCB), que, além de manter seu Instagram fechado e Twitter sem publicações, não se apresenta como pré-candidata nas redes sociais. As únicas formas de conhecê-la como possível candidata é lendo o pouco material jornalístico que sai sobre ela na imprensa local, o que, por si só, não é suficiente para destacar um nome que busca conquistar um cargo tão importante como o da chefia Executiva do Estado.

Furar bolha realmente não é uma tarefa fácil e, para o internauta comum, não é nem algo que se deva fazer. Mas para um pré-candidato, seja para qual cargo for, furar a bolha deveria ser um dos objetivos estratégicos. Pode parecer besteira, mas se uma técnica for planejada com bastante embasamento, um meme original, um vídeo engraçado, uma situação, uma live, uma frase que for, pode alcançar eleitores além do que se conhece e, a partir daí, construir a tal ponte que pode fazer a diferença entre o que se vê nas pesquisas hoje e o que vai acontecer em outubro.

Carlos Nathan é formado e, Comunicação Social - habilitação em jornalismo - pela Universidade Federal de Mato Grosso e possui mais de 10 anos de experiência na área.

A opinião deste artigo não necessariamente reflete o pensamento do jornal.