28 de maio de 2022
Opinião
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O golpe está aí, cai quem quer

Foto: Miguel Ângelo/CNI
Foto: Miguel Ângelo/CNI

São tantas as análises que colocam Bolsonaro como golpista, como alguém que pode vir a fazer alguma arruaça nas eleições, que ele mesmo deve estar já acreditando na sua própria capacidade, e preparando alguma coisa. Ele até faz apologia ao golpe de 1964, o que no plano retórico já é execrável. Mas chegou à Presidência da República por eleição, e aí permaneceu tentando emplacar seu anarcocapitalismo. Ficou 30 anos no Congresso, sendo eleito, parado, sem expressão. Bem nos relembrou Delegado Waldir, em entrevista que viralizou essa semana, que nem seu próprio filho compareceu à Câmara, certa vez, para votar no pai como Presidente quando totalizou apenas 4 votos.

Segundo o professor Paulo Ghiraldelli, um golpe precisa de uma classe dominante que não se vê representada no governo. Não é o caso da nossa democracia porque os dois candidatos que estão postos como liderando a corrida defendem variações do neoliberalismo facilmente aceitáveis pelas nossas classes dominantes.

Um golpe também precisaria de um descontentamento das forças armadas com salário e hierarquia. Nenhum dos dois candidatos representam ameaças aos privilégios militares.

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Em terceiro lugar, o golpista precisa ser um bom articulador, alguém capaz de manter o poder em um governo pós golpe. Além de uma certa ineficiência na administração pública, o que Bolsonaro mais faz é dizer que a culpa é de outros. Ele não chama a responsabilidade do governo para si, não “segura as pontas”, como se diz.

Mesmo que se interprete o “golpe” como sendo uma baderna pós eleições, do tipo Capitólio nos EUA, o que ele poderia fazer? A eleição americana tem um resultado demorado. Enquanto se vai contando os votos, o candidato que está perdendo tem a oportunidade de fomentar uma reação, criando uma certa tensão. No Brasil, as eleições são muito rápidas. O resultado sai, praticamente, no mesmo dia. Quem vai defender um golpe, tendo já o organizado previamente?

Nós não estamos em 1964. Não tem classes sociais disputando hegemonia fisicamente nas ruas. Brigas de internet também não fundamentam golpe, acredito. Com essas acusações, Bolsonaro, que muitas vezes não tem nada para apresentar, consegue ficar na mídia todos os dias. Mais ainda agora, que, segundo pesquisa recente, publicada no dia 06 de maio, Lula conta com 44% e Bolsonaro com 31% das intenções de votos. Percebe-se a mesma vantagem eleitoral de todos os outros que, tradicionalmente, já ganharam as eleições. Collor, Fernando Henrique, Lula, Dilma e Bolsonaro. As pesquisas para presidente mostram uma insatisfação com o governo vigente, que talvez, pelo tempo, não pode ser revertida.

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Mas a vida é uma caixinha de surpresas, e 4 meses pode ser muito tempo. A política é feita assim. Às vezes acontece algo miraculoso, alguma informação é revelada, e tudo pode se reverter. O que, acredito, não se reverterá, é a democracia brasileira. Bolsonaro vai fazer arruaça? Vai. Precisamos estar preparados? Sim. Essa gente teve sua chance de governar o Brasil, e não conseguiu. Amanhã será uma nova História.

Cristian de Paula Sales Moreira Junior é professor de História e mestre e doutorando em História Política pela UFG.

A opinião deste artigo não necessariamente reflete o pensamento do jornal.