27 de fevereiro de 2024
Opinião
Publicado em • atualizado em 26/01/2024 às 12:21

Betinho e a emoção de fazer o bem

Posso descrever como uma viagem no tempo as sensações que vivi na frente da telinha assistindo à minissérie “Betinho, no Fio da Navalha” há poucos dias. Revisitei grandes momentos do passado.

Relembrei de como a gente se faz forte diante da navalha: doenças, agruras políticas, sociais, climáticas, enfim. A gente se ergue frente à fome, mesmo a fome dos desconhecidos. Foi o que ele fez. É o que devemos fazer.

Cada lembrança, cada canção, cada fato trágico ou feliz da fase de Hebert José de Souza, o irmão do Henfil, o sociólogo que falava com os Chicos, o Buarque e o Mendes, com homens da direita e com Elis Regina, ou com Padre Júlio Lancelotti e José Saramago, me trouxe alegria e melancolia.

Mas uma melancolia boa. Daquelas que também transporta a gente à realidade presente. O que estamos fazendo a respeito do que ocorre com o Brasil?

Uma hora fui na estante do escritório pegar dois troféus que recebi, um deles em 2011, concedido pelo Ibase, fundado pelo querido Betinho. Fui só pra ter certeza de que estava ali, guardado, preservando as digitais do meu próprio passado, que se mistura com o meu presente.

Com carinho reli a mensagem gravada no troféu que tem a imagem do perfil de Betinho: Prêmio Betinho Atitude Cidadã – Destaque Região Centro-Oeste. É, tenho feito algumas coisas, conclui naquela hora. Ri sozinho ali, abraçado naquela memória que só me estimulou a nunca mais desviar do caminho do bem porque as necessidades continuam gigantes.

Em pleno século XXI, o Brasil possui 10 milhões de pessoas passando fome. Em julho do ano passado, o jornal Folha de São Paulo registrava a marca, dando eco à estimativa da Organização das Nações Unidas, a ONU.

Já na insegurança alimentar, o número era ainda mais assustador. Enquanto a luta pela democracia e sua saúde frágil eram o fio da navalha, eram o desafio cotidiano de Betinho, a insegurança alimentar é o fio da navalha de milhares de pais e mães brasileiros, até hoje.

Ela saltou de 1,9% prevalentes entre 2014 e 2016, para terríveis 9,9% de 2020 a 2022. Dois dos quatro anos da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Um presidente que caçoava dos programas de distribuição de renda. Caçoava até de uma pandemia, imitando quem estava morrendo sem oxigênio.

E que, maldosamente, chegou a extinguir o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional pouco depois de assumir. O Consea só foi reativado pelo presidente Lula logo após tomar posse no ano passado. 

Nesse ínterim, a insegurança alimentar virou um limbo onde passaram a viver 21 milhões de famílias no Brasil segundo a ONU. Sim, somados aos 9,9% com fome, temos 31 milhões brasileiros sem garantia de um item essencial para a vida, a comida.

E o sarcasmo horroroso de Goiás ser um dos maiores produtores de grãos do Brasil, e ter 858 mil pessoas fazendo só uma refeição por dia por falta de dinheiro?

Pois é, a fome dessa população, da nossa população, foi apontada no 2º Inquérito Nacional sobre Segurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 no Brasil (Vigisan), divulgado em 2023. Além disso, ele apontou 901 mil goianos em insegurança alimentar.

Quando nós, do Grupo AJA com Jesus, decidimos instalar um programa de prevenção primária ao uso de drogas em uma das regiões mais críticas da grande Goiânia, nos deparamos com uma situação ainda mais emergente, justamente a fome.  É nessas pessoas com fome, ou no fio da navalha da insegurança alimentar que só conseguem bancar um prato feito por dia, que estamos focados.

Então, decidimos ir frequentemente à Ceasa em busca de doações de verduras e frutas. E passamos a montar com carinho dezenas de cestas também com outros gêneros de primeira necessidade. Era a construção de um programa de complementação alimentar.

Nessa linha, decidimos por preparar aproximadamente 300 refeições aos sábados, para garantir uma refeição decente a cada participante do projeto. É neles que estamos pensando, e e assim fazemos há mais de 25 anos.

Somos formigas diante da imensidão do que fez Betinho. Mas, como dizem nossos irmãos indígenas, “quem não pode com a formiga, não atiça o formigueiro”. Juntos, assim como outras iniciativas sinceras que ainda existem pelas cidades brasileiras, sem intenções doutrinadoras, podemos ajudar quem tem fome ou quem está no limite para ter.

Mas a responsabilidade institucional, governamental, tem que se sobressair. Programas contra a fome e a miséria, como o Bolsa Família, jamais podem ser menosprezados. Organismos como o Consea nunca podem ser extintos num país com as características no nosso.

É como perguntava Betinho aos seus alunos: Como tornar a sociedade mais justa e que todos os indivíduos tenham o básico para sobreviver? Quando um aluno responde que é essencial garantir trabalho para todos, ele alerta que isso é importante, mas não determinante.

Aí o sociólogo lembra: o trabalho não garante acesso à riqueza que o trabalhador produz. Depois, tasca para o estudante com cara pensativa: “É necessário que o Estado funcione como protetor dos direitos fundamentais”.

Esse era o Betinho. Sabia desde lá o problema e a solução. Que viva sempre em nossas memórias como um grande exemplo.

Advogado, economiário aposentado, ativista político e sindical, integrante do Grupo AJA há 25 anos

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