13 de agosto de 2026
Opinião
Publicado em • atualizado em 20/02/2026 às 16:21

Ana Paula Rezende: Valores e coerência

Iris Rezende entrou para a história como um dos grandes defensores da democracia em Goiás e no Brasil. Perseguido pela ditadura militar, teve seus direitos políticos cassados e sentiu na própria pele o peso de um regime que calava vozes dos seus adversários com prisões, tortura, cassações, mortes, ocultação de corpos e outras barbáries, que afetaram uma geração inteira de brasileiros.

Hoje, no entanto, o cenário político brasileiro vê emergirem candidaturas que reúnem aqueles que relativizam e até enaltecem o golpe de 1964 e suas práticas abomináveis. E é justamente nesse contexto que causa estranheza — e uma dor silenciosa — ver que sua filha, Ana Paula Rezende, se alia politicamente a setores da extrema direita, os mesmos grupos que historicamente deram sustentação ao regime que perseguiu seu pai e tantos outros brasileiros.

A história, às vezes, impõe ironias difíceis de assimilar. O legado de uma vida inteira dedicada à defesa da democracia confrontado por escolhas que vão na direção oposta.

Não se trata apenas de divergência partidária — algo natural e legítimo no jogo democrático. Trata-se de memória, valores e coerência.

É inevitável que eu e muitos se sintam perplexos. A democracia, que um dia foi defendida com coragem e sacrifício pelo Iris não pode ser tratada como detalhe ou conveniência circunstancial. A memória de quem enfrentou o autoritarismo merece respeito — sobretudo por parte daqueles que carregam seu sobrenome e herdam sua história.
Há algo de profundamente simbólico nisso tudo. E talvez seja isso que mais entristece: ver a história dar voltas tão contraditórias, como se o passado pudesse ser esquecido — quando ele foi feito de luta, resistência e coragem.

Célio Rezende

Célio Rezende é publicitário, consultor em marketing político e neuromarketing.

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