19 de janeiro de 2026
LOGENVIDADE

O que a ciência descobriu sobre brasileiros que vivem além dos 110 anos

Diversidade genética e resistência biológica ajudam a explicar por que alguns brasileiros ultrapassam os 110 anos com saúde.
Pesquisa científica analisa supercentenários brasileiros e aponta fatores genéticos ligados à longevidade extrema. Foto: Pixabay
Pesquisa científica analisa supercentenários brasileiros e aponta fatores genéticos ligados à longevidade extrema. Foto: Pixabay

Viver mais de 110 anos ainda é uma exceção extrema no mundo. Pessoas que alcançam essa idade são chamadas de supercentenárias e representam menos de uma em vários milhões da população global. 

No Brasil, no entanto, esse grupo raro passou a ocupar um lugar de destaque na ciência, que busca entender por que alguns brasileiros conseguem ultrapassar o século de vida mantendo lucidez, autonomia e resistência a doenças comuns do envelhecimento.

Essa investigação ganhou novo fôlego com um estudo liderado pela geneticista Mayana Zatz, professora da Universidade de São Paulo, publicado em janeiro de 2026 na revista científica Genomic Psychiatry. 

A pesquisa analisou dados genéticos, celulares e imunológicos de supercentenários brasileiros e trouxe pistas relevantes sobre os limites da longevidade humana.

Por que o Brasil é estratégico para estudos sobre longevidade extrema

Um dos principais achados do estudo é que o Brasil oferece condições únicas para pesquisas desse tipo. Diferentemente de países onde a maioria dos estudos genéticos se baseia em populações mais homogêneas, a população brasileira é marcada por uma grande diversidade genética, resultado da combinação de ancestralidades indígenas, africanas, europeias e asiáticas ao longo de séculos.

Segundo os pesquisadores, essa diversidade aumenta a chance de identificar variantes genéticas raras, que podem atuar como fatores de proteção contra doenças associadas ao envelhecimento, como câncer, problemas cardiovasculares e demências. 

Pesquisas anteriores do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP já haviam identificado milhões de variantes genéticas em brasileiros que não aparecem em grandes bancos de dados internacionais, reforçando o potencial científico ainda pouco explorado do país.

Quem são os supercentenários brasileiros analisados

O estudo reuniu uma coorte com mais de 160 centenários, entre eles 20 supercentenários validados, de diferentes regiões do Brasil. Um dos casos mais conhecidos é o de Inah Canabarro Lucas, freira que viveu em Porto Alegre e foi reconhecida como a pessoa mais velha do mundo até sua morte, em 2025, aos 116 anos.

A pesquisa também inclui os dois homens mais longevos já registrados globalmente, um que morreu aos 112 anos e outro que, à época da publicação, seguia vivo aos 113 anos. Um ponto que chamou a atenção da equipe foi o fato de muitos desses idosos apresentarem boa capacidade funcional, independência e preservação cognitiva, algo incomum em idades tão avançadas.

O que o corpo desses brasileiros tem de diferente

Ao analisar células e sistemas do organismo desses supercentenários, os cientistas encontraram sinais claros de resistência biológica ao envelhecimento. Um dos achados mais relevantes foi a capacidade das células de eliminar proteínas danificadas de forma eficiente, evitando o acúmulo de resíduos celulares que normalmente aceleram o envelhecimento.

Outro destaque foi o comportamento do sistema imunológico, que se mostrou mais organizado e funcional do que o esperado para a idade. Alguns dos supercentenários brasileiros estudados chegaram a contrair Covid-19 antes da disponibilidade de vacinas e, mesmo assim, desenvolveram níveis elevados de anticorpos, indicando uma resposta imune surpreendentemente robusta.

A longevidade que se repete dentro das famílias

O estudo também observou que a longevidade extrema tende a se concentrar em algumas famílias. Um dos casos citados envolve uma mulher de 110 anos que tinha três sobrinhas com idades entre 100 e 106 anos. Uma delas chegou a competir em campeonatos de natação aos 100 anos, o que reforça a hipótese de um componente genético forte associado à longevidade.

Os pesquisadores ressaltam que a genética não atua sozinha. Estilo de vida, acesso a cuidados de saúde, alimentação e fatores ambientais também influenciam o envelhecimento. Ainda assim, os dados indicam que, para atingir idades extremas, a herança genética exerce um peso considerável.

O que a ciência aprende ao estudar quem passa dos 110 anos

Para os autores do estudo publicado na Genomic Psychiatry, compreender como esses brasileiros envelhecem permite que a ciência avance além da simples busca por longevidade e passe a focar em envelhecimento saudável. O objetivo não é apenas viver mais, mas preservar qualidade de vida, autonomia e função cognitiva por mais tempo.

Os pesquisadores defendem que populações geneticamente diversas, como a brasileira, precisam ser incluídas de forma mais consistente em grandes pesquisas internacionais sobre envelhecimento. Os supercentenários do país são descritos como um tesouro genético, capaz de oferecer pistas valiosas sobre os mecanismos biológicos que protegem o corpo humano contra o desgaste do tempo.


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