14 de fevereiro de 2026
ANÁLISE POLÍTICA

O efeito “governo bem avaliado” garante vitória? Nem sempre

Avaliação positiva de governos não foi suficiente, em diferentes momentos, para assegurar sucessão, reeleição ou estabilidade política

A crença de que governos bem avaliados automaticamente elegem sucessores ou garantem continuidade no poder é recorrente no debate político brasileiro. No entanto, uma leitura histórica dos dados de avaliação presidencial e dos resultados eleitorais mostra que essa relação é menos linear do que parece. Em diferentes momentos da história recente, a popularidade do governo ajudou, mas não decidiu sozinha o desfecho das urnas.

Levantamentos do Instituto Datafolha, cruzados com resultados eleitorais oficiais e análises históricas, revelam que aprovação é fotografia e a eleição é filme. O contexto econômico, o desgaste político, o perfil do candidato e o ambiente de polarização frequentemente pesam mais do que os índices de “ótimo” ou “bom”.

FHC em 2002: governo avaliado como regular e derrota do sucessor

No último ano do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, a avaliação do governo apresentava estabilidade, mas em patamar inferior ao observado no encerramento do primeiro mandato. Segundo pesquisa Datafolha, em 2002 o governo FHC recebeu nota média 5,1, numa escala de 0 a 10, abaixo dos 6 pontos registrados em agosto de 1998, às vésperas da reeleição.

Na mesma pesquisa, 27% dos brasileiros avaliavam o governo como ótimo ou bom, enquanto a maioria o classificava como regular. Regionalmente, o Sudeste apresentava maior resistência (nota média 4,7), enquanto o Norte/Centro-Oeste demonstrava avaliação mais favorável (5,7).

Mesmo com avaliação considerada razoável, o candidato apoiado por FHC, José Serra, foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais. Os dados do Datafolha indicavam que apenas 52% dos eleitores de Serra avaliavam positivamente o governo, enquanto entre os eleitores de Lula, 43% classificavam a gestão como ruim ou péssima.

O caso de 2002 tornou-se um exemplo clássico de fadiga política e desgaste econômico, mostrando que a avaliação regular do governo não foi suficiente para sustentar a continuidade do projeto tucano após oito anos no poder.

Lula: da estabilidade inicial à aprovação recorde

No primeiro ano de mandato de Lula, em 2003, o cenário era de transição. Pesquisa Datafolha, realizada em dezembro daquele ano, apontava que 42% aprovavam o governo, 41% o avaliavam como regular e 15% como ruim ou péssimo, índices semelhantes aos registrados por FHC no mesmo período de governo.

A virada ocorre ao longo do segundo mandato. Em 2010, às vésperas da sucessão presidencial, Lula atingiu 82% de aprovação, o maior índice da série histórica do Datafolha até então. Apenas 3% avaliavam o governo como ruim ou péssimo, enquanto 14% o consideravam regular.

Nesse contexto, a popularidade de Lula foi decisiva para a eleição de Dilma Rousseff, uma candidata sem trajetória eleitoral própria até então. O caso de 2010 é frequentemente citado como exemplo de transferência bem-sucedida de capital político, mas ele se mostra excepcional, não a regra.

Dilma Rousseff: da alta aprovação ao colapso político

Dilma iniciou o primeiro mandato, em 2011, com os melhores índices de aprovação já registrados por um presidente em início de governo. Segundo o Datafolha, 47% avaliavam sua gestão como ótima ou boa, apenas 7% como ruim ou péssima, e 34% como regular.

Reeleita em 2014, Dilma enfrentou uma rápida deterioração do cenário político e econômico. No início do segundo mandato, em 2015, sua aprovação despencou para 23%, enquanto 44% passaram a avaliar o governo como ruim ou péssimo. Em dezembro de 2014, ainda eram 42% os que consideravam o governo ótimo ou bom, o que evidencia a velocidade da queda.

Mesmo com base parlamentar expressiva e tendo vencido duas eleições presidenciais, a ex-presidente acabou afastada por impeachment em 2016, em um processo que ela denunciou como golpe parlamentar.

Segundo a Fundação Perseu Abramo, a trajetória de Dilma ilustra como aprovação eleitoral não imuniza governos contra crises políticas profundas, especialmente quando há ruptura de alianças e perda de sustentação institucional.

Bolsonaro: baixa aprovação e derrota inédita

O governo de Jair Bolsonaro apresentou desde o início índices de popularidade inferiores aos de seus antecessores. Após três meses de mandato, em 2019, apenas 32% avaliavam o governo como ótimo ou bom, enquanto 30% o consideravam ruim ou péssimo, desempenho pior do que Collor, FHC, Lula e Dilma no mesmo período.

No final do mandato, a situação se agravou. Pesquisa Datafolha, divulgada em setembro, apontava que 53% avaliavam o governo Bolsonaro como ruim ou péssimo, e apenas 22% como ótimo ou bom. Em 2022, Bolsonaro foi derrotado por Lula no segundo turno, tornando-se o primeiro presidente a não conseguir a reeleição desde a instituição do instituto em 1997.

O caso reforça que reprovação elevada quase sempre inviabiliza a continuidade, mas também mostra que índices medianos ou regulares não garantem vitória automática.

Aprovação ajuda, mas não decide

A análise histórica dos dados mostra que a relação entre avaliação de governo e vitória eleitoral é condicional. Em alguns casos, como Lula em 2010, a popularidade foi determinante. Em outros, como FHC em 2002 ou Dilma no segundo mandato, não foi suficiente para assegurar continuidade ou estabilidade.

Especialistas costumam resumir essa dinâmica com uma fórmula simples: popularidade é ativo político, mas não é seguro eleitoral. Eleitores distinguem governo de candidato, avaliam contexto econômico, rejeições acumuladas, fadiga de poder e a capacidade do sucessor de se apresentar como liderança autônoma. Às vésperas de novas disputas eleitorais, os dados reforçam uma lição recorrente da política brasileira: governos bem avaliados largam na frente, mas não cruzam sozinhos a linha de chegada.

Fontes:
Instituto Datafolha (2002, 2003, 2010, 2011, 2015, 2019, 2022)
Fundação Perseu Abramo
Tribunal Superior Eleitoral (TSE)


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