25 de maio de 2024
Brasil

Novos diálogos revelam que Dallagnol usou “laranjas” para pressionar o STF

Dallagnol usou "laranjas" para pressionar o STF, diz Intercept.
Dallagnol usou "laranjas" para pressionar o STF, diz Intercept.

A reportagem desta segunda-feira (12) publicada pelo The Intercept Brasil  mostra como o procurador Deltan Dallagnol usou dois grupos políticos como porta-vozes de causas políticas pessoais dele e da operação. Novos diálogos das mensagens secretas da Lava Jato revelam que Dallagnol pauta atos públicos, publicações em redes sociais e manifestações dos movimentos de forma oculta, tomando cuidado para não ser vinculado publicamente a eles.

Segundo a reportagem, os chats apontam que Dallagnol começou a se movimentar para influenciar a escolha do novo relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal apenas um dia após a morte do ministro Teori Zavascki, antigo responsável pelos processos da operação no STF.

O grupo Vem Pra Rua, é alinhado a partidos e políticos de direita. Dono de uma página de Facebook com mais de 2 milhões de seguidores, foi um dos principais organizadores de marchas pelo impeachment de Dilma Rousseff. A sua principal figura é Rogerio Chequer, que aproveitou a fama para lançar-se candidato a governador de São Paulo pelo Novo  depois virou cabo eleitoral de Bolsonaro. (As informações são do The Intercept).

A procuradora Thaméa Danelon, ex-integrante do braço paulista da Lava Jato, que chegou a coordenar por menos de dois meses no fim de 2018, quando de repente pediu para sair do grupo, várias vezes funcionou como ponte com o Vem pra Rua, como mostra as mensagens recebidas pelo site The Intercept.

O Instituto Mude – Chega de Corrupção,  criado como meio inicial de coletar assinaturas a favor das dez medidas contra a corrupção. De acordo com o Intercept, embora o Mude não informe isso em seu site, o coordenador da Lava Jato no Paraná atuou como um diretor informal do movimento, que chegou a organizar encontros numa igreja frequentada pelo Dallagnol e em que ele é pregador eventual.

Com a derrota na votação das dez medidas na Câmara, o procurador passou a usar o Mude e o Vem Pra Rua para outras tarefas, entre elas influenciar a escolha do relator da Lava Jato no Supremo após a morte de Zavascki. Diz o Intercept.

Dallagnol agiu segundo a reportagem nos bastidores, estimulou a rejeição dos nomes de Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e do atual presidente da Corte, Dias Toffoli, para a relatoria das ações da operação. Os diálogos mostram ainda que o procurador articulou ações para constranger ou pressionar ministros nos julgamentos que discutiram a prisão em segunda instância.

Dallagnol encomendou aos movimentos uma campanha para forçar Michel Temer a indicar o primeiro nome da lista tríplice encaminhada pela Associação Nacional dos Procuradores da República, a ANPR, ao cargo de procurador-geral da República, isso em 2017. O escolhido substituiria Rodrigo Janot, que comandou o órgão durante o surgimento e a ascensão da Lava Jato. Revela o The Intercept.

Diálogos

Em março de 2018, o STF concedeu ao ex-presidente Lula um salvo-conduto para que ele, já condenado em segunda instância no caso do triplex do Guarujá, não fosse preso até o julgamento de seu habeas corpus preventivo, marcado para 4 de abril. Grupos contrários e favoráveis ao petista mobilizaram-se para pressionar o Supremo. Diz o Intercept.

Após oito dias, Dallagnol anunciou no grupo de Telegram Parceiros MPF,  10 medidas que ele e a equipe da Lava Jato no Paraná haviam aderido a um abaixo-assinado restito a juízes e procuradores  a favor da prisão em segunda instância. Horas mais tarde, o procurador discutiu com Thaméa Danelon a possibilidade de que também houvesse abaixo-assinados apresentados pela sociedade, e não apenas por autoridades. (As informações são do The Intercept).

Ainda segundo a reportagem, Dallagnol fez uma proposta à procuradora. “Se Vc topar, vou te pedir pra ser laranja em outra coisa que estou articulando kkkk”. Danelon assentiu, animada, e o chefe da Lava Jato continuou. “Um abaixo assinado da população, mas isso tb nao pode sair de nós… o Observatório vai fazer. Mas não comenta com ng, mesmo depois. Tenho que ficar na sombra e aderir lá pelo segundo dia. No primeiro, ia pedir pra Vc divulgar nos grupos. Daí o pessoal automaticamente vai postar etc”. 

O Intercept aponta que, satisfeito com a repercussão, Dallagnol escreveu a Danelon: “Temos que cuidar pra não parecer pressão. Se não estivéssemos na LJ, o tom seria outro kkkkk. Ia chutar o pau da barraca rs. Depois chutava a barraca e eles todos tb kkk”. A procuradora subiu vários tons. “Eu colocava todos na barraca e metralhava kkkk”.

Veja quem também jé esteve na mira de Dallagnol: The Intercept: Dias Toffoli esteve na mira de Dallagnol

Segundo o site, a assessoria de imprensa do Ministério Público Federal do Paraná informou que “é lícito aos procuradores da República interagir com entidades e movimentos da sociedade civil e estimular a causa de combate à corrupção”.

 “O procurador Deltan Dallagnol não lidera nem integra o Mude, mas apoia o instituto que é apartidário; conhece seus integrantes e seu compromisso com a causa pública e fez doações, que permitiram o desenvolvimento de um curso online de cidadania”, informou o MPF. “O procurador jamais recebeu recursos do Mude. O procurador sugeriu a algumas pessoas interessadas no trabalho anticorrupção que conhecessem o Mude.”

O MPF afirmou que “a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba não reconhece as mensagens que têm sido atribuídas a seus integrantes nas últimas semanas”, e disse que “o site prejudica o direito de resposta ao não fornecer o material que diz usar na reportagem”.

Procurado, o Instituto Mude disse ao Intercept que “o contato com o coordenador da maior operação de combate à corrupção já realizada no Brasil é natural” e que ele “iniciou-se a partir do conhecimento da proposta das dez medidas contra a corrupção”.

O Vem Pra Rua informou ao Intercept  que “na campanha a favor das 10 Medidas Contra a Corrupção buscou parcerias de outros movimentos, entidades e pessoas alinhadas com seus ideais, mantendo sempre sua autonomia”. Apesar disso, recusou-se a comentar o conteúdo das mensagens trocadas com procuradores da República.

                                                                       


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