23 de junho de 2024
Destaque 2 • atualizado em 29/03/2021 às 15:05

“Mais algumas horas eu seria intubado”, diz jornalista de 31 anos que teve 50% dos pulmões comprometidos pela Covid-19

Cássio Naves internado no Hospital em Goiânia: Por pouco ele não precisou ser intubado (Foto: Acervo Pessoal)
Cássio Naves internado no Hospital em Goiânia: Por pouco ele não precisou ser intubado (Foto: Acervo Pessoal)

Quando o jornalista Cássio Neves chegou na manhã de sexta-feira (26 de fevereiro) para trabalhar, estava diante de uma pauta que dava indícios de um futuro melhor para Goiânia: era a ampliação da vacinação para idosos acima dos 80 anos que seriam imunizados contra a Covid-19. Matéria feita, o trabalho não parou. Ele apresentaria o telejornal local o que acontecia algumas vezes na falta do apresentador-titular. 

Neves foi um dos mais de 474 mil contaminados pelo novo coronavírus em Goiás, desde que a pandemia chegou à região e crava: “Eu tenho quase certeza que foi neste dia que fui contaminado”, relata. “Nesse dia, eu fui fazer a maquiagem. Foi o único momento que eu tirei a máscara, foi o único que eu tive contato com uma pessoa que já estava contaminada. E foi quando eu peguei porque foi único relato que de fato eu fiquei sabendo que tive contato”, ponderou.

Acontece que Cássio sequer fez a associação inicial à Covid-19, já que num primeiro sintoma sentiu apenas sua garganta arranhar. Como havia pegado chuva no dia em que fez a pauta da vacinação, achou que estava tudo bem e que seria apenas um “resfriadinho” de leve. Aquele costumeiro que você pega quando passa por uma chuvinha nessas tardes de Goiânia. 

No sábado seguinte, Cássio não sentia mais o ‘arranhado’ na garganta, mas sentia seu nariz escorrer. Como havia a possibilidade de continuar por mais duas semanas fazendo o freela na emissora, o jornalista decidiu fazer o PCR, o “teste do cotonete”, que é considerado “padrão ouro” para quem está com sintomas de covid-19. O PCR serve para detectar a presença do vírus no organismo do paciente. Analisando o material coletado do nariz o exame consegue identificar a presença do RNA do vírus.

O susto do teste positivo

Cássio foi fazer o exame de forma despretensiosa e saiu para um isolamento em sua casa. Deu positivo. O protocolo para quem não tem mais que sintomas gripais como o caso de Cássio é aguardar que os sintomas passem.  No caso do jornalista, não havia nada que indicasse que seu caso agravaria para um quadro grave. Mas ainda sim, há o medo. “Sabe quando você assusta? Porque você vai fazer o exame mas é um sintoma gripal e dá positivo. A minha preocupação maior é por eu ter morado com outras pessoas… Moro com minha avó que tem 81 anos, com uma tia que é especial, com minha mãe e meu irmão. A gente se preocupa nesse momento.”

A preocupação em não passar para a família era maior que o próprio quadro. Houve a dispensa na continuidade do freela e Cássio seguiu sua vida tentando se recuperar. O que ele não esperava é que viveria dias de desespero num leito de hospital, ao contrário. “Eu até achava que eu era um privilegiado porque eu não sentia nenhum sintoma grave. Era praticamente assintomático. Eu só sentia essa arranhadura na garganta e um nariz escorrendo e depois que positivou menos ainda.” 

No sétimo dia no entanto, sua tia que também é enfermeira o entregou um oxímetro. “Eu comecei a controlar a saturação e ela ia baixando, baixando…”. O aparelho que Cassio usou pode detectar rapidamente pequenas mudanças na eficiência com que o oxigênio está sendo transportado no organismo. O resultado não era bom. Cássio decidiu ir num postinho de saúde pública e voltou para a casa sem um diagnóstico conclusivo. Não havia nada que pudessem fazer.

Dois dias depois, decidiu voltar ao postinho. Não apresentou melhoras e estava preocupado. Bateu o pé e com muito esforço, conseguiu um exame para medir como iam os pulmões na rede privada: estava com metade dos seus pulmões comprometidos. “Quando eu fiz a tomografia detectou 50% de comprometimento e a saturação já estava muito baixa. O mínimo é 90% e a minha já estava variando entre 85% e 81%. Aí eu entrei em contato com minha tia que é enfermeira e logo se prontificou e a gente já foi direto pro meu plano e eu internei.”

A um passo da intubação

Quando Cássio foi internado no Hospital Jardim América, sua situação já era complicada. Não lhe falaram nada, mas se não tivesse batido o pé, o próximo passo seria a intubação. “Eu já estava numa situação muito grave. E aí já na sala de espera já me colocaram medicação e oxigênio também. Mas minha tia fala pra mim que quando a médica chamou ela fora do quarto foi justamente para falar que da maneira que eu estava ali, se eu não tivesse uma evolução daquele horário que eu entrei para o dia seria intubação”, revelou.

Submetido à ventilação não invasiva, Cássio ficaria os próximos dias em um leito de hospital convivendo com os profissionais que atuam na linha de frente. “O equipamento de ventilação não invasiva pode salvar uma intubação e o agravamento do caso”, diz um médico que está diariamente no grupo de enfrentamento à Covid-19. O jornalista, por sorte, fé, coincidência ou acaso, conseguiu o tratamento certo na hora certa. “Eu danço, não tenho sobrepeso, sou jovem, me alimento super bem. Não é dizer que é uma condição de idade ou cormobidade… A transmissibilidade do vírus com certeza está mais alta em Goiânia, então, a gente tem que se cuidar muito mais”, pontua. 

De acordo com a Secretária Municipal de Saúde, a variante de Manaus já está em circulação em Goiânia. Uma amostra realizada pela Prefeitura de Goiânia em conjunto com a Universidade Federal de Goiás (UFG) constatou a presença da variante manauara P1 em 28 exames de 30. Estudos mostram que ela é mais transmissível e mais mortal que todas as outras já identificadas. Todo o cuidado é pouco. “A gente sabe o quão perigoso é. Nas coberturas sempre utilizamos álcool em gel, a máscara bem ajustada no rosto. São pequenas coisas mais que fazem toda a diferença. No meu caso, um simples descuido acabou me custando alguns dias de internação”, destacou. 

No hospital viu de perto a rotina dos trabalhadores que estão na linha de frente contra a Covid-19. “Eu tive a oportunidade de estar em um Hospital Privado”, pontua. “Mas mesmo assim, faltavam insumos básicos. “As vezes falta o papel toalha para higienizar um leito e colocar uma nova pessoa. Perceber que as pessoas estão se movimentando para salvarem as outras e perceber essa humanidade e busca pela retirada do outro do buraco…”, pontuou.

Mesmo estando internado na rede privada, Cássio relata que profissionais se desdobram como podem para conseguir ajudar quem precisa. “Está faltando medicamento até mesmo na rede particular. Graças as minhas condições eu tenho plano de saude, pude ser atendido dessa maneira. Mas falta medicamento, tem hora que você precisa tomar o remédio às 2 e meia e o remédio chega às 3. É de uma enfermeira falar que demorou a trazer o remédio porque estava tratando de muito mais pessoas que eram acostumadas tratar”, pontuou.

Mas além disso, viu o fantasma da morte à sua frente, levando pessoas jovens, que até ontem, não eram tidas como parte de um grupo de risco. “Pessoas de 33, 35 anos. Pessoas que os médicos tentando reanimar e puff.. Acabou! O médico e a médica tiram a touca, dão um suspiro e fala: ‘quem é a amiga de fulano de tal? tentamos de todas as maneiras mas não foi possível’. E ver a família debruçar em cima do parente sem ter a possibilidade de tê-lo de volta. No outro dia sou eu que estou sem esse ar, sou eu que não tenho condições de respirar sozinho e preciso de um mecanismo de oxigênio para poder sobreviver”, destacou.

Pós-Covid: E agora?

O jornalista vislumbra futuros melhores após se recuperar da Covid-19 mas a mudança em ver o mundo aconteceu durante a internação. Cássio é muito ativo nas redes sociais. Fã de BBB, costuma “cobrir” tudo que acontece na casa mais vigiada do Brasil. Mas acabou ficando ausente das redes sociais por um tempo.

Os dias sem compartilhar o que acontecia no reality show ligaram o sinal de alerta em quem vos escreve. Mas não apenas nele. Naves conta que uma das coisas que levará para o resto da vida é o carinho dos amigos. “Desde o começo quando as pessoas começaram a saber do meu estado de saúde, elas começaram a aparecer com suas mensagens, orações, palavras de fé. De todos os cantos do Brasil, de gente que eu não tinha contato há muito tempo. Foi incrível receber tantas palavras bacanas de gente que eu nem esperava.”, destacou. 

A procura era tanta que Cássio teve de arranjar uma porta-voz para passar as informações sobre o seu estado de Saúde. “As pessoas próximas a mim me ajudaram muito nisso. Eu tive que falar para a minha tia que acabou se tornando a porta voz do meu quadro de saúde para informar. Porque eu tô muito nas redes sociais e esse sumiço repentino, deixou muita preocupação. ‘Cadê o Cássio’? Isso fez com que as pessoas me procurassem e eu já não tinha mais fôlego para responder. E eu não tinha fôlego mesmo!”, daí um grupo no WhatsApp foi aberto, onde diariamente, sua tia que também é enfermeira, passava as informações numa espécie de “Boletim de Saúde do Cássio”.

O jornalista ao lado da sua tia e enfermeira Simone Neves: ela cuidou do sobrinho durante a internação

“Isso foi fenomenal. Saber que a gente é querido e tem torcida em torno da nossa recuperação. ‘Sobreviva! Reaja! A gente precisa de você!’ Ajudou bastante! Isso me emocionava muito e nem chorar eu podia. Porque se começasse a chorar entrava em sufocamento… Foi bem punk”, relata..

E a vida, Cássio? O célebre ator e apresentador Antônio Abujamra terminava seu Provocações com essa pergunta… E o que o jornalista trás para a vida após a Covid-19? “A vida para mim é ser alegre, é ter a alegria de viver, mesmo diante das dificuldades, você encarar que é possível você continuar vivendo. Que é bonito e ainda existe beleza nisso tudo. O meu objetivo de vida e isso eu acabo fortalecendo ainda mais neste momento é de perceber que eu busco a felicidade mínima. Não é de conquistar grandes coisas e alcançar objetivos mirabolantes. É de perceber que no caminho se faz a alegria e foi justamente percebendo isso: ter os meus amigos, família para me apoiar e um ar para respirar. A vida para mim é isso: ter alegria em cada momento e vivenciando isso com doses diárias de felicidade. A vida acontece e é nesse acontecimento que vamos nos refazendo”, conclui.


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Domingos Ketelbey

Jornalista e editor do Diário de Goiás. Escreve sobre tudo e também sobre mobilidade urbana, cultura e política. Apaixonado por jornalismo literário, cafés e conversas de botequim.