12 de julho de 2026
ENERGIA

Leilão de energia pode fazer conta de luz subir até 10% para residências, diz estudo da Fieg

Com custo que pode chegar a R$ 1 trilhão em cenário de crise hídrica, entidade aponta consequências no Custo Brasil e prejuízo no setor produtivo goiano, reduzindo a competitividade frente ao mercado externo e atrasando a transição energética
Conta de luz em Goiás pode ficar mais cara com novo leilão, diz Fieg
Conta de luz em Goiás pode ficar mais cara com novo leilão, diz Fieg

Um estudo técnico divulgado nesta segunda-feira (25) pela Federação das Indústrias de Goiás (Fieg) aponta que a conta de luz pode subir até 10% a partir da contratação de 19,5 gigawatts (GW) por parte da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A Fieg aponta ainda que as tarifas industriais cresceriam 20%.

De acordo com Fieg, o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP 2026) contrata um volume de energia mais de seis vezes superior à demanda atual de até 3 GW. O estudo foi conduzido pela Gerência de Desenvolvimento Industrial (Gedin-Fieg), que ressalta que o contrato tem custo inicial de R$ 517 bilhões, que pode chegar a R$ 1 trilhão em cenário de crise hídrica, e o valor será repassado para o consumidor. O Ministério Público Federal (MPF) aponta que a taxa cobrada na conta de luz para manter usinas de reserva pode passar de R$ 8/MWh para R$ 75/MWh.

A entidade cita ainda supostas irregularidades – a demanda atual aponta para um prazo máximo de três anos, mas o certame apoia um acordo rígido com 15 anos de duração. Além de valores e prazos injustificáveis, a preferência por fontes como diesel e gás coloca o fornecimento de energia e a economia nacional à mercê de conflitos e oscilações de preço na geopolítica internacional.

O formato de custos gerado pelo leilão tem relação direta como desestímulo de cadeias de produção, impactando diretamente em uma forte pressão inflacionária, conforme aponta o estudo.

Para o presidente do Conselho Temático de Infraestrutura (Coinfra) da Fieg e presidente do Sindicato das Indústrias de Construção, Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica do Estado de Goiás (Sindienergias), Célio Eustáquio de Moura, o contrato deveria buscar o equilíbrio, a modicidade tarifária e a transição energética para fontes limpas e baratas.

“Uma conta que pode chegar a R$1 trilhão em nome de uma reserva que excede em muito a necessidade real. No Brasil, em especial em Goiás, temos alternativas mais baratas, rápidas e limpas, e investir na transição que já está acontecendo é a melhor forma de manter uma cadeia energética em desenvolvimento e desenvolver uma economia verde.” ressaltou o dirigente.

O LRCAP de 2026 é o maior leilão de energia já realizado pelo governo federal, mas apresenta violações a quatro normativas, diz a Fieg. A entidade aponta favorecimento de grupos seletos e consequente descumprimento da Lei de Liberdade Econômica, que impõe ao poder público o dever de evitar a criação de reserva de mercado ao favorecer grupos econômicos em prejuízo aos demais concorrentes.

O estudo aponta isso em dois momentos: no aumento repentino nos preços-teto dos leilões, que em menos de 72 horas subiram para entre 73% e 100%; e no valor do deságio, correspondente a 5,5%, o que evidencia a baixa concorrência. Para comparação, o último LRCAP (2021) teve um deságio médio de 15,34%.

A ausência da Análise de Impacto Regulatório (AIR) também acende o sinal de alerta. A medida exige que atos com impacto expressivo na economia e em consumidores tenham uma avaliação formal de alternativas de execução do certame e os custos regulatórios associados.

O documento destaca que não há justificativa técnica proporcional e avaliação ambiental adequada não cumpre com a Nova Lei de Licitações, que exige um planejamento com foco no desenvolvimento nacional sustentável como princípios centrais nas contratações públicas.

A Fieg alega que LRCAP 2026 contradiz a Política Nacional sobre Mudança do Clima. “Com consequências que se estendem à incoerência do discurso interno e externo do Brasil, o certame estimula a exploração de fontes intensivas em emissões, no caso de combustíveis fósseis, comprometendo a sustentabilidade nacional e a credibilidade global do país na liderança da transição energética mundial”, afirma.

Dessa forma, prossegue a Fieg, a economia é revertida para fontes de alto carbono e se distancia da integração da agenda climática às políticas energética. O estudo aponta ainda que a medida caminha em sentindo oposto às diretrizes da Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial do governo que tem o propósito de impulsionar a neoindustrialização, reduzir custos produtivos e elevar a competitividade nacional.

O presidente do Coinfra-Fieg ressalta que a indústria goiana tem feito o ‘dever de casa’, investindo pesado em eficiência e em reduzir sua pegada de carbono para competir globalmente. “Esse leilão vai na contramão disso. Ao privilegiar fontes fósseis, o certame isola o Brasil das cadeias de baixo carbono e diminui nossa competitividade. Suspender esse processo é proteger o setor produtivo de custos altos e desnecessários que serão travados por 15 anos, garantindo que o desenvolvimento econômico não seja sacrificado por falta de planejamento técnico.”

O estudo da Fieg alerta que o certame desconsidera o potencial de expansão das soluções limpas e impõe um custo que penaliza a produção industrial e compromete os objetivos de sustentabilidade e desenvolvimento do País.

Outro ponto destacado no documento é a perda de viabilidade de inserção de tecnologias modernas, limpas e de rápida resposta no mercado brasileiro, com a consequência de atrasar a modernização do parque gerador nacional. A longo prazo, o estudo analisa que o certame pode provocar a retração do crescimento e inibir novos investimentos industriais.

Impactos para Goiás

O valor também é refletido no Custo Brasil: com o crescimento de tarifas nas contas de luz, o custo de produção industrial fica cada vez mais caro, diminuindo a competitividade do produto nacional no mercado local e externo e desestimulando o desenvolvimento de uma indústria goiana.

Célio Eustáquio destacou os efeitos tanto para a cadeia produtora quanto a consumidora. “Goiás conta com uma base agroindustrial e mineral forte, setores que dependem de energia estável a preço justo. Se a tarifa sobe 20%, o Custo Brasil dentro do setor produtivo explode. Isso desestimula novos investimentos, encarece o produto goiano no exterior e, no fim do dia, gera inflação para o consumidor local”, pontuou.

Até o momento, apesar da recomendação do MPF de que a homologação seja suspensa, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) optou por ratificar e homologar os resultados do leilão.


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