Após 62 anos de atividade, pela primeira vez o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) vai ser presidido por uma mulher negra – e ela é de Goiás. A jornalista Ivana Leal, que também foi a primeira mulher negra no telejornalismo goiano, tomou posse como presidente do CNDH na quinta-feira (12). Nesta sexta (13), ela falou rapidamente ao Diário de Goiás, minutos antes da sua primeira agenda oficial em Brasília.
A ligação de Ivana Leal com as pautas de direitos humanos, lembra ela, tem raiz no Movimento Negro Unificado (MNU) de Goiás em 1986. “O Movimento Negro Unificado foi fundado em 1978. É uma entidade nacional, a mais importante entidade nacional da época contemporânea, que nasceu pela ditadura militar em São Paulo, como uma manifestação contra o racismo, em busca da cidadania da população negra”, frisa.
“Comecei minha militância em Goiás, no Movimento Negro Unificado, e também faço parte do Movimento de Mulheres Negras. No Movimento Negro Unificado, nessa articulação, compreendendo a importância do controle social, nós fomos eleitas, para o Conselho Nacional de Direitos Humano”, detalha Ivana.
1º mulher negra a presidir o CNDH
“A gente entra [na presidência do CNDH] como a primeira mulher negra de movimento social da sociedade civil, no Conselho, que tem 62 anos. Isso é algo muito representativo, porque nós sabemos que o espaço para mulheres negras na sociedade como a nossa, extremamente racista, é significativo e fundamental para a gente romper essa barreira imposta pelo racismo e que privilegia em postos, em ocupação de postos públicos, ou qualquer espaço da sociedade, a branquitude”, pontuou ainda.
Ivana Leal é servidora do Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás. Ela também integra a Coalizão Negra por Direitos. Indicada pelo MNU, entidade eleita como titular no último pleito do CNDH, ela exercerá a presidência do Conselho durante o ano de 2026.
Posse prestigiada
A posse foi prestigiada pela ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, integrantes dos conselhos estaduais de Direitos Humanos, representantes dos direitos humanos de órgãos como o Ministério Público Federal, integrantes de organizações do movimento negro, do Movimento Nacional de Direitos Humanos, Comissão Pastoral da Terra e da Central Única dos Trabalhadores, além de familiares de Ivana, como a mãe, Maria Leal Gomes de Souza.
Ivana Leal disse que vai ocupar a presidência do conselho não como uma técnica, ou conselheira, “mas como uma mulher negra que traz em sua trajetória, a memória e a resistência dos seus ancestrais para essa presidência. Minha presença na presidência do Conselho Nacional de Direitos Humanos é um ato político”, afirmou.
Feminicídios nas pautas do CNDH
Ela destacou ainda que o Conselho vai dar espaço para que “quem sempre esteve à margem da pirâmide social – comunidades de matriz africana, quilombolas, mulheres guardiãs – , sejam agora a voz que articula a pauta do Conselho”.
A nova presidente enfatizou a urgência de “proteger corpos que simbolizam essa resistência” e anunciou de imediato a criação de um grupo de trabalho para enfrentar os feminicídios. “Não há justiça sem a garantia da vida das mulheres”, disse ela, citando as maiores vítimas: “mulheres negras, indígenas e rurais, as mesmas que estão na linha de frente, defendendo o território”.
Além da defesa das mulheres, Ivana apontou que o conselho estará vigilante nas pautas relacionadas à população LGBTQIA+, povos indígenas, comunidades de matriz africana e populações em situação de rua, entre outras. Além disso, para enfrentar “as discriminações sociais e o discurso de ódio, dando visibilidade jurídica ao racismo ambiental”, e defender também os próprios defensores dos direitos humanos.
Um dos desafios que ela já deixou claro ao assumir, é a defesa da estruturação de um Sistema Nacional de Direitos Humanos, além de garantir autonomia administrativa e orçamentária ao CNDH e pela acreditação do conselho junto à Aliança Global. “Vamos transformar o silêncio em direito e a invisibilidade em soberania”, completou durante a posse.
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