24 de maio de 2022
Lênia Soares

Iris Rezende: o Líder que Marconi nunca será

Sem mandato, após consecutivas derrotas eleitorais, com duas vitórias recentes e retumbantes em Goiânia, já beirando os 80 anos de idade, o ex-governador peemedebista ainda é citado pela população em pesquisas e por políticos do Estado, para voltar ao Executivo goiano.

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Um líder vivo ainda pra contar a sua história e que se projeta para além de seu tempo. Ao contrário de um outro, o Tempo Novo. 

Quem se lembra do tempo novo? Prodígio do marketing nascido em 1998, foi o tempo áureo marconista que vingou como a embalagem a cobrir o governador Marconi Perillo por dois mandatos, mas que, neste terceiro, desapareceu trocado por outra, a que prenunciou o melhor governo da vida dos goianos.

O melhor governo da vida dos goianos, que se estabeleceu como o governo compartilhado no comando com Carlinhos Cachoeira e seus jogos de poder, nada mais é que o Tempo Novo renovado – se é que me entendem, chamar o que se vê aí como ‘renovação’. É, se lhe parece…

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Ao tema: eleição é eleição, liderança política é uma história à parte.

Para vencer um pleito é preciso dinheiro. Para manter um nome público é preciso respeito. Começa aqui a diferença entre Marconi Perillo e Iris Rezende.

Primeiro é necessário recordar o histórico político dos principais personagens desta análise. Em ordem crescente, começo por Marconi Perillo.

O atual governador entrou na vida pública como assessor do – este, sim! – líder Henrique Santillo. Uma grande oportunidade de aprendizado e de crescimento. Marconi optou pelo crescimento. 

Utilizou-se do apadrinhamento político de Santillo e se tornou deputado estadual e federal, consecutivamente. Marconi Perillo se destacava pela pouca idade e pelo apetite para a articulação. Aliás, foi articulando que Marconi, depois de se valer da oportunidade de ser candidato a governador e vencer a eleição, foi se mantendo no poder.

 

Como chegou ao governo de Goiás…

 

Em 1997, dezembro especificamente, Henrique Santillo assumiu o diretório regional do PSDB. Com sede de mudança e o momento propício à aglutinação, o ex-governador fez na sua posse um discurso empolgante, reanimando o então grupo de oposição.

Santillo lembrou as diversas derrotas que resultaram da desunião dos adversários. Falou com todo o magnetismo necessário para envolver os militantes que lotaram o auditório da Assembleia Legislativa e convencê-los de que era “a hora da mudança”.

 

Nascia ali o Tempo Novo.

 

Com a união de PSDB, PFL, PPB e PTB o coro de renovação ganhou corpo.

Faziam parte do novo diretório do PSDB, junto com Santillo, Marconi Perillo (1º vice), Olier Alves (2º vice), Jovair Arantes (secretário geral), José Lopes (1º secretário), Antônio Faleiros (tesoureiro geral) e Carlos Rosemberg (tesoureiro adjunto).

Os ‘subversivos’ investiram nas análises das pesquisas eleitorais e chegaram à conclusão de que, caso o candidato em 1998 fosse Maguito Vilela (PMDB), o perfil mais adequado, com grandes possibilidades de vitória, deveria ser o de alguém experiente. Com ar conservador, um candidato assim transmitiria segurança ao eleitorado.

Foi o que motivou o deputado federal pepebista (hoje PP) Roberto Balestra a brigar para ser o candidato. Ele não tinha dúvida de que o escolhido pelo PMDB seria Maguito Vilela, que era governador e certamente não abriria mão de tentar ser reeleito.

Maguito foi o principal cotado para a disputa até o último momento, até que… Até que Iris surgiu como o nome peemedebista, sob o argumento de que Maguito estava cansado do Executivo e não queria um novo mandato (o que era negado e rechaçado, nos bastidores, pelos maguitistas).

 

E o que aconteceu então?

 

Fato concreto: Balestra deixou de ser o melhor nome. Aliando-se a isso a falta de articulação do próprio para juntar os oposicionistas, eis que estava claro que o adversário de Iris teria de ser outro, mas não qualquer outro.

Sim, neste momento era necessário um candidato jovem, com a cara da renovação, para contrapor-se ao velho – o velho Iris e o velho PMDB com 16 anos no poder.

Neste momento, os velhos estavam no ápice da força política no Estado. Nacionalmente, eram aliados estratégicos do então presidente da República Fernando Henrique Cardoso (PSDB), de quem Iris inclusive tinha sido ministro.

Pois o sonho de consumo do tucano presidente era ver o seu PSDB em Goiás aliado de Iris. Uma articulação chegou a ser entabulada, para o jovem deputado federal Marconi Perillo sair na vice do irismo. Iris não quis. Iris não precisava. Ainda mais Marconi, ‘filho’ político de Santillo, de quem Iris ainda guardava a mágoa do apoio que não teve, quando Santillo era governador, ao seu projeto de ser candidato a presidente da República – oportunidade perdida para outro velho: Ulysses Guimarães. A grande oportunidade perdida. 

Marconi nunca foi o nome de preferência dos principais líderes da chamada oposição goiana – Ronaldo Caiado, Nion Albernaz, Roberto Balestra, Lúcia Vânia, Paulo Roberto Cunha etc. De alguns, antes do afunilamento, chegou a merecer ironia, quando citado como nome possível.

Quando chegou a hora da definição e potenciais candidatos, como Pedrinho Abrão – nome nacional, à época, líder do PTB – e Jalles Fontoura, titubearam em assumir a cabeça de chama, Marconi topou. Topou sob garantias: recursos federais – viabilizados pelo seu padrinho Sérgio Motta, poderoso articulador tucano de FHC, e pelo aceno de uma recompensa que se traduziria na nacional de Assistência Social.

Daí em diante o que houve foi campanha, panelinha, e comemoração pela virada histórica, com a derrota do PMDB e a vitória do jovem Marconi Perillo.

Assim Marconi conquistou o comando de Goiás. Assim chegou ao poder. Como se manteve lá é outra história.

 

O governo da propaganda…

 

Com a máquina pública nas mãos, Marconi Perillo nunca poupou recursos para publicidade. Fez um primeiro, um segundo e faz um terceiro governo marcados pela profusão de propaganda, propaganda e… propaganda.

Tanto fez Marconi, e tantas realizações comemorou, que chegou inaugurar um Metrô em Goiânia. Este mesmo metrô que não se vê na Capital.

Com o tempo, próximo aos 16 anos de poder – como o velho PMDB -, veio a falecer, de morte causada por duro e certeiro golpe de marketing, o Tempo Novo.

Fato: Marconi foi eleito em 1998 pelo discurso de mudança e reeleito, em 2002, com mais discurso de mais mudanças, e novamente eleito falando em mudança. Um governador retórico feito em custosas e nada de retóricas vitórias!

O fato novo – sempre ele – nesta terceira eleição é isto: ele venceu no segundo turno, por uma diferença de votos igual ou menor, vá lá, que o número de assessores especiais que carregou na campanha. Ao custo de Carlos Cachoeira e cia.

 

E Iris?

 

Durante seus mandatos, o tucano lançou mão de todos os recursos para desconstruir a imagem do principal rival. Colocou nas costas de Iris a venda de Cachoeira Dourada, negociada por Maguito em sua gestão, fez um escândalo com o caso Caixego, que envolvia Otoniel Machado, irmão de Iris, e levantou poeira com casos de improbidade administrativa e vários outros que não vingaram.

Marconi tentou, mas pesquisas revelam que não conseguiu desconstruir Iris. Pode-se dizer até que fez o contrário: construiu outro Iris, um Iris sem os defeitos humanos de 1998 e agora com aura de mito.

Todas as suspeitas contra Iris Rezende não tiveram a metade da repercussão do verdadeiro escândalo Cachoeira. Se a venda de Cachoeira Dourada provocou espanto, a ‘terceirização’ do governo do Estado provocou indignação e descrédito com a gestão tucana. E ponto.

 

Iris tem sua história.

 

Ele entrou na política em 1958. Um jovem, praticamente desconhecido, surgiu na disputa por uma vaga na Câmara Municipal de Goiânia. Foi eleito vereador e, posteriormente, presidente da Casa, em 1960.

Em 1963 elegeu-se deputado estadual a assumiu a liderança do governo Mauro Borges. Em 1964 virou presidente da Assembleia Legislativa, e em 1965 disputou e venceu as eleições municipais na Capital.

Tudo muito rápido, tudo muito popular.

Iris foi prefeito de Goiânia, pelo MDB, de 1966 à 1969, quando implantou o estilo mutirão de governo, com a prática dos próprios – lembrem-se das mil casas populares construídas em um dia, dando vida à Vila Mutirão, caso que ganhou repercussão mundial quando já era governador do Estado em 1983.

Em 17 de outubro de 1969, com base no AI-5, ele teve seu mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por 10 anos, pela Junta Militar que governava o país.

Em 1982, ele voltou. Voltou para disputar as primeiras eleições diretas no período de redemocratização. Venceu o pleito com facilidade e comandou o Estado de 1983 a 1986. Em 1991, voltou ao Governo, pelo PMDB, onde ficou até 1994, quando se candidatou ao Senado, sendo eleito com votação expressiva.

 

Iris buscou ir além de Goiás. E eis aí o pulo que não deu. Fora do Estado.

 

Em 1996, assumiu o Ministério da Agricultura do governo de José Sarney. Em 1997, tornou-se ministro da Justiça do governo de FHC.

Reassumiu o mandato de senador em 1998, quando disputou novamente as eleições para o governo de Goiás. E perdeu. Sua primeira derrota.

Derrota que acabou se traduzindo com o tempo em uma grande vitória pessoal e em novas vitórias eleitorais. Iris Rezende entrou para a categoria mítica da política goiana.

Sua cassação o transformou em símbolo de democracia em Goiás, assim como a derrota para Perillo amenizou sua imagem de “coronel”, que nunca sai do poder, e a transformou na marca da oposição. Oposição ao governo que tinha tudo para dar certo, mas não deu.

A derrota de 1998 contribuiu também para a concretização da maturidade política do peemedebista. Iris vinha de um processo doloroso no cenário nacional – quando o perdeu a disputa interna com Ulisses Guimarães, deixando de ser o candidato à presidência da República mesmo com maiores chances de vitória – para encarar o pleito que resultou em sua grande decepção. 

 

Parafraseando uma sábia senhora, Henia Soares, que por acaso é minha mãe: “Quem não cresce com o amor, cresce com a dor.

 

A vitória em 2004, que o trouxe de volta ao comando da Capital, consolidou sua Liderança e o impulso que tem dado à candidatura de Paulo Garcia (PT) o coroa como o grande nome da política goiana.

Na alegria e na tristeza, a partir daí Iris Rezende ficou conhecido como o governador que iniciou a “marcha para a industrialização”, com a criação do Fomentar, que implantou uma forte política agrícola, e que executou o maior programa de energia rural do país.

Para calar os questionamentos, Iris tem hoje o direito de se valer do discurso da transparência. Durante os processos de improbidade administrativa, o ex-governador abriu sua vida bancaria para o Ministério Público. Todos os processos foram arquivados por falta de provas contra o administrador.

Depois, como o prefeito que prometeu e asfaltou toda a Capital, que construiu o maior número de áreas de lazer, que transformou Goiânia na cidade com maior qualidade de vida do país e fez significativos investimentos na Saúde e Educação.

Falamos aqui do mesmo Iris que foi comparado pelo candidato da base marconista com Ayrton Senna, o mito! Que foi colocado em um lugar de respeito pelo próprio adversário que aparenta temer qualquer crítica contra o Líder peemedebista. O tal adversário que mal cita Marconi – quem deveria ser seu principal cabo eleitoral – em suas peças publicitárias.

 

Os resultados?

 

Segundo dados da pesquisa Ipem/Tribuna do Planalto, Iris Rezende é apontado como o principal cabo eleitoral do Estado e indicado por 42,87% dos entrevistados como principal nome para assumir o governo do Estado em janeiro de 2015, contra… Bem, contra 14,38% de Marconi Perillo.

Isso é Liderança que transcende os tempos – velho, novo, qualquer um. Que marca o tempo. Inexoravelmente 

Para alcançar este patamar, talvez Marconi precise também de uma derrota. Avassaladora. Com um grau de decepção proporcional ao de sua comemoração em 1998. 


*Colaboraram: Vassil Oliveira e Altair Tavares

Foto: Henrique Luiz

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