Ao passo em que ocorre o avanço acelerado das ferramentas de inteligência artificial (IA), os riscos de fraudes digitais aumentam simultaneamente. E a tecnologia não se limita apenas a isso, servindo também como um território de maldades e manipulações durante o período de campanha eleitoral. Com conteúdos cada vez mais realistas, identificar o que é verdadeiro ou manipulado em meio a imagens, vídeos e áudios na internet se tornou um desafio para empresas, autoridades e até para a imprensa. Nesse cenário, surge uma nova área de atuação: a perícia em inteligência artificial.
Em entrevista ao Diário de Goiás, o perito e criador de IA Forense, Willard S. Ribeiro, detalhou quais são os principais métodos de detecção de manipulações digitais e quais cuidados precisam ser adotados por empresas, jornalistas e pela sociedade diante da disseminação de conteúdos falsos. Segundo o especialista, a tecnologia tem sido utilizada para criar fraudes sofisticadas, muitas vezes difíceis de identificar a olho nu.
Avanço da perícia digital
A perícia voltada para conteúdos gerados por inteligência artificial é uma área relativamente recente, impulsionada pelo avanço das tecnologias generativas. Segundo Willard, a necessidade de desenvolver métodos de investigação mais sofisticados surgiu justamente com o aumento das fraudes digitais. “Existem hoje diversos sites que prometem dizer se uma imagem foi gerada por inteligência artificial. O problema é que esses portais apenas classificam o conteúdo como verdadeiro ou falso”, explica, completando:
Para empresas ou para o Judiciário, isso não é suficiente. É necessário apresentar uma explicação técnica, um laudo que mostre por que aquela imagem foi considerada falsa.
Segundo o perito, esse processo de explicação técnica é conhecido como explicabilidade, uma vertente da própria inteligência artificial que busca entender como os sistemas chegam a determinadas conclusões. “Os modelos usados por muitos detectores são verdadeiras caixas-pretas. Eles recebem a imagem, fazem a análise e devolvem um resultado. Mas não conseguem explicar o caminho que levou àquela conclusão”, afirma.
Essa limitação, segundo ele, impede que as ferramentas sejam utilizadas como prova em processos judiciais ou em decisões corporativas importantes, como a negativa de indenizações em seguros ou a contestação de fraudes bancárias.
Como funciona a detecção de imagens falsas? Em sua rede social (@willardsribeiro.ia), o especialista realiza uma análise de casos reais de conteúdos suspeitos, realizando uma combinação de métodos matemáticos e físicos. Segundo Willard, o processo vai muito além da simples observação visual da imagem. “Basicamente, trabalhamos com três pilares principais: análise estatística, análise do domínio de frequência e análise física da imagem”, explica.
Conforme explicado, a análise estatística examina os dados contidos no arquivo digital da imagem, identificando padrões e inconsistências. Já o domínio de frequência analisa características matemáticas da imagem que não são perceptíveis ao olho humano. “É uma análise ligada à física da imagem. Mesmo quando uma foto perde qualidade após ser enviada por aplicativos como o WhatsApp, por exemplo, algumas características da frequência permanecem intactas”, afirma.
Essas informações permitem identificar alterações invisíveis ao usuário comum. Segundo o especialista, essa abordagem também possibilita diferenciar diferentes tipos de manipulação. “A IA forense consegue identificar se uma imagem foi totalmente gerada por inteligência artificial ou se apenas uma parte foi alterada”, explica.
Em alguns casos, por exemplo, uma foto real pode ser modificada digitalmente para esconder danos em um veículo ou alterar algum detalhe importante. Confira um exemplo:
Fraudes atingem bancos e seguradoras
O uso de inteligência artificial para cometer fraudes financeiras já é uma realidade. Segundo Willard, criminosos têm utilizado ferramentas generativas para manipular imagens e obter vantagens indevidas. Entre os casos relatados estão fraudes envolvendo seguros, empréstimos bancários e até solicitações falsas de reembolso. “Hoje existem pessoas que conseguem gerar imagens falsas para tentar comprovar danos em veículos ou justificar pedidos de indenização”, relata.
O especialista afirma que existem registros de fraudes em que criminosos utilizaram fotos retiradas de redes sociais para criar identidades falsas e solicitar empréstimos bancários. “O fraudador pega uma foto da vítima em uma rede social, faz ajustes com inteligência artificial e utiliza essa imagem para validar um cadastro ou um processo de verificação”, explica.
Outro tipo de fraude comum envolve solicitações de reembolso com base em imagens falsas de produtos danificados ou alimentos estragados. “Tem casos de pessoas que enviam fotos geradas por IA alegando que um produto veio quebrado ou que um lanche estava estragado. Muitas vezes, o sistema aceita o pedido e faz o reembolso automaticamente”, diz.
Deepfakes e golpes cada vez mais sofisticados
Outro fenômeno que preocupa especialistas são as chamadas deepfakes, que é uma tecnologia que permite criar vídeos ou áudios falsos extremamente realistas que se passam por pessoas do mundo real. Com essas ferramentas, criminosos conseguem simular a voz e a imagem de uma pessoa para enganar familiares, amigos ou colegas de trabalho.
“Antigamente o golpe era por mensagem de texto. Hoje o criminoso envia vídeo com a imagem da pessoa e até com a voz dela”, afirma Willard. Segundo ele, o nível de realismo dessas tecnologias tende a aumentar nos próximos anos:
As ferramentas de inteligência artificial estão cada vez mais sofisticadas. Hoje elas conseguem simular até erros naturais das imagens, o chamado ruído sintético.
Esse recurso reproduz pequenas imperfeições típicas do mundo real, tornando o conteúdo artificial mais convincente. “Antes a IA tentava ser perfeita demais, e isso entregava que a imagem era falsa. Agora ela simula até os defeitos”, afirma.
O impacto nas eleições e na informação
A divulgação de imagens e vídeos manipulados preocupa especialmente em períodos eleitorais e em situações de conflito internacional. Segundo o especialista, conteúdos falsos podem influenciar narrativas políticas ou gerar desinformação em grande escala. “Estamos entrando em um momento em que não dá mais para confiar 100% em qualquer imagem que circula na internet”, alerta.
Ele cita como exemplo a circulação de imagens falsas em coberturas de conflitos internacionais que podem ser compartilhados milhares de vezes antes mesmo de serem verificados. “Durante guerras ou crises políticas, aparecem muitas imagens geradas por inteligência artificial que tentam reforçar determinada narrativa”, afirma.
Uma nova profissão em ascensão
Com o crescimento das fraudes digitais, a perícia em inteligência artificial deve se tornar cada vez mais necessária. Segundo Willard, muitas empresas já começam a buscar especialistas capazes de avaliar tecnicamente conteúdos suspeitos. “Seguradoras, bancos e empresas que trabalham com análise de imagens precisam cada vez mais de profissionais especializados”, afirma.
Ele destaca que a área ainda conta com poucos especialistas, o que aumenta a demanda por formação profissional. “A IA forense é uma profissão nova. Até pouco tempo atrás quase ninguém falava nisso”, diz. Hoje, o pesquisador também atua na formação de novos profissionais, oferecendo treinamentos voltados para peritos, advogados e especialistas em tecnologia. “A ideia é formar pessoas capazes de produzir laudos técnicos que tenham validade jurídica”, explica.
Os interessados em especialização na área ou que desejam a solicitação de análise profissional de algum laudo de fotos, vídeos, áudios e texto, basta entrar em contato pelo Instagram: (@willardsribeiro.ia). Segundo o perito, que também é engenheiro, a tendência é que essa área cresça rapidamente nos próximos anos, acompanhando a evolução das tecnologias de inteligência artificial.
“Estamos vivendo um momento em que, mais do que nunca, será necessário provar tecnicamente o que é verdade e o que é mentira”, conclui.
Conheça Willard Ribeiro:
Willard S. Ribeiro é engenheiro eletricista, mestre e doutorando em Engenharia de Produção e Sistemas. Além de pesquisador, atua como desenvolvedor na área de IA Forense, com foco na análise técnica de mídias digitais para identificação de possíveis fraudes ou conteúdos gerados por inteligência artificial.
Atualmente trabalha com bancos, seguradoras, associações de proteção veicular e outras organizações que utilizam imagens, vídeos ou áudios como base para tomada de decisão em operações sensíveis. Também atua como instrutor em IA Forense, capacitando peritos judiciais, assistentes técnicos, profissionais ligados às forças policiais e especialistas da área de prevenção a fraudes.
Instagram: @willardsribeiro.ia
WhatsApp: (62) 99301-4354
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