24 de junho de 2024
Lênia Soares

Ecos da primeira batalha: por que fazer oposição em Goiás é algo ruim?

Fim da primeira Caravana da Oposição e início da guerra contra as perspectivas.

Em pleno século XXI, em uma República Democrática de Direitos, ainda é preciso vencer a ideia de que fazer oposição é ato de insanidade política ou demonstração de raiva pessoal. Lamentável.

 Oposição é oposição. Contraditório. Recurso primordial de uma das mais fantásticas teorias descobertas até então: a dialética.

Pasmem! Quem inventou o contraponto não foi Dona Iris, a deputada federal do PMDB (2013 d.C.). Heráclito de Éfeso (535 a.C. – 475 a.C.), filósofo pré-socrático, por exemplo, defendia a “guerra entre os opostos”. É a alternância entre os contrários que viabiliza a realidade.

É preciso demonstrar alternativas dentro de um mesmo contexto, ou não há movimento. Sem movimento, não há o progresso. E estagnação, meus caros, já é retrocesso.

O problema é que em Goiás…

Bem, em Goiás fazer oposição virou loucura. Motivo de piada em redes sociais.

Sem julgamentos sobre o mérito ou eficiência da Caravana da Oposição, o que desanima é o cenário que estimula a pobreza intelectual. A alienação política.

Virou senso comum a ideia de que contrariar é rebeldia. Inconsequência. Coisa de jovens irresponsáveis ou políticos – e aqui nem cabem muitos – subversivos (no pior sentido possível, claro!).

O consenso não é saudável. E ainda mais insalubre é a noção de que algo está errado, mas não pode ser mudado. Ou melhor, a falta de noção. A propagação de críticas maldosas e gratuitas que escancaram uma grande e generalizada falta de coragem.

Eis que se tem, então: a maior praga criada no governo de Marconi Perillo (PSDB) não é a falta de Segurança Pública, educação de má qualidade ou mesmo estradas esburacadas.

O grande mal da gestão tucana é o silêncio.

A cooptação em todas as esferas. A arte – muito bem desempenhada pelo governador, diga-se de passagem – de exigir a unanimidade.

Mas se “toda unanimidade é burra”, segundo Nelson Rodrigues…

O intuito de Dona Iris, com a Caravana, é claro: mostrar que há um contraponto e que Marconi não é unânime. Que ainda existe uma oposição. Isso é projeto.

Atirar contra a iniciativa da deputada é fácil. Difícil é fazer melhor. Fazer diferente. Ser ousado ao ponto de criticar um projeto correndo o risco de nunca conseguir um ‘tão sonhado’ cargo comissionado. E se ele se reeleger? Como viver mais quatro anos sem um cargo no governo?

Mais difícil ainda: jogar pedras tendo o telhado de vidro. Estando sempre nas mãos do governo. De uma forma, ou de outra. E se ele contar? 

É… Quem tem rabo de palha – entendo! – não brinca com fogo.

Só que…

Só que… Tem uma coisa: é dialético o bastante criticar apenas, sem mostrar alternativas?

Heim, oposição que se quer o oposto do que há?

Se Marconi impõe silêncio – e medo! -, não é por isso que as vozes que ousam se levantar devem se ater apenas ao grito surdo, como bala de canhão.

Além de gritar por liberdade, e de lutar para ser e se estabelecer, é preciso dizer o que quer, o que defende, o que propõe.

CaravanaOposicoes1MarceloLinsA Caravana da Oposição é o início de um novo tempo para PMDB/PT, e aliados, contra o tempo novo de Marconi Perillo que venceu o velho tempo do PMDB em 1998. Porém, este tempo só será mesmo novo se, além do grito, apresentar um discurso.

Eis a questão: contra muitos, inclusive supostos aliados – o deputado federal petista Rubens Otoni, que teria liderado boicote à ação da colega peemedebista, que o diga -, Dona Iris puxou a Caravana.

Fez o que ninguém teve coragem ou iniciativa de fazer.

Com Dona Iris à frente, a oposição diz que ‘veio’. Agora, é preciso dizer ‘a que veio’. Mas isso não cabe apenas a ela. Cadê a coragem?

Com políticos covardes, guiados por picuinhas, sem ideias e de parca iniciativa, Goiás não vai a lugar nenhum.

Aliás, vai. Vai aonde Marconi Perillo continuar levando.


(Fotos: Luiz B. Roriz e Marcelo Mesquita)


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