A ação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, que teria resultado na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, deve ser interpretada muito além das acusações formais de tráfico de drogas e violações democráticas, segundo avaliação do economista José Kobori, que analisa o episódio como parte de uma disputa geopolítica mais ampla pela hegemonia mundial e pela redefinição da ordem internacional.
Kobori questiona os pretextos apresentados por Washington, especialmente as acusações de narcotráfico contra Maduro. Ele aponta o que classifica como seletividade dos EUA, ao citar aliados históricos envolvidos com o tráfico internacional de drogas que não sofreram sanções equivalentes. Entre os exemplos mencionados estão o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe e o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado nos EUA, mas posteriormente perdoado por alinhamento político.
Kobori também destaca que dados internacionais não colocam a Venezuela entre os grandes produtores de cocaína, papel ocupado principalmente por Colômbia, Peru e Bolívia, enquanto os próprios Estados Unidos figuram como maior mercado consumidor. Segundo ele, parte da imprensa norte-americana já questionou a existência do chamado “Cartel de Los Soles”, frequentemente atribuído ao governo venezuelano.
No campo político, o economista aponta contradições no discurso de defesa da democracia e dos direitos humanos, citando o apoio dos EUA a regimes e lideranças acusadas de violações graves, desde que alinhadas aos interesses estratégicos de Washington. Para Kobori, esses episódios enfraquecem a legitimidade do argumento humanitário usado para justificar a ofensiva contra Caracas.
Disputa por influência e petróleo
De acordo com a análise, a ofensiva contra a Venezuela se insere no que Kobori chama de uma atualização da Doutrina Monroe, que historicamente sustenta o direito dos EUA de intervir na América Latina. Nesse contexto, a ação representaria uma tentativa de reafirmar a região como área de influência direta, em meio ao avanço econômico e político da China e da Rússia.
A Venezuela é apontada como peça-chave nesse tabuleiro por sua parceria estratégica com Moscou e pela crescente aproximação comercial com Pequim. Kobori ressalta que, nas últimas décadas, a China superou os EUA como principal parceiro comercial da maior parte da América do Sul.
Outro ponto central é o desafio ao sistema do petrodólar. Segundo o economista, a venda de petróleo venezuelano à China em yuan, intensificada após sanções econômicas, representa uma ameaça direta à hegemonia do dólar no comércio internacional de energia.
Impactos globais e papel do Brasil
Para José Kobori, a operação dos EUA estabelece um precedente perigoso, ao relativizar o direito internacional e reforçar a lógica da “lei do mais forte”. Ele avalia que o episódio pode elevar o risco de escalada global e funcionar como um teste decisivo da atual ordem mundial: um retorno a um sistema unipolar liderado por Washington ou a consolidação de um cenário multipolar, com China e Rússia.
Nesse contexto, o economista atribui papel estratégico ao Brasil, afirmando que a posição adotada pelo país pode influenciar o grau de integração da América do Sul e sua autonomia frente às grandes potências.
Kobori conclui que a ação contra a Venezuela deve ser vista como um movimento defensivo de um império em declínio, em uma disputa que tende a redefinir os rumos da política internacional nos próximos anos.
Veja a análise, em sua íntegra:
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