14 de outubro de 2026
Cinema

Documentário “Dividindo as Contas” discute desigualdade econômica nas relações e estreia em Goiânia

Documentário dirigido por Patrícia Alves aborda dependência econômica, controle financeiro, sobrecarga doméstica e desigualdade nas relações
Documentário “Dividindo as Contas” reúne relatos de mulheres e especialistas para discutir desigualdade econômica e a divisão de responsabilidades dentro das relações. Foto: Michelly Matoss.
Documentário “Dividindo as Contas” reúne relatos de mulheres e especialistas para discutir desigualdade econômica e a divisão de responsabilidades dentro das relações. Foto: Michelly Matoss.

Mais da metade dos lares brasileiros tinha uma mulher como referência financeira no fim de 2024. O dado, que representa 51,7% das famílias, segundo levantamento da pesquisadora Janaína Feijó, do FGV IBRE, é um dos pontos de partida do documentário “Dividindo as Contas”, que terá sessão de lançamento nesta quinta-feira (20), às 20h, no Cine , em . A entrada é gratuita, sujeita à lotação da sala.

Dirigido por Patrícia Alves e produzido pela Roch Produções, de Rochelle Silva, o longa questiona como o trabalho, os cuidados, os sacrifícios financeiros e as responsabilidades assumidas por dentro de casa são reconhecidos, ou não, como contribuição econômica para uma família.

Idealizado em 2021, o documentário nasceu de situações observadas pela diretora envolvendo mulheres que abriram mão de bens para evitar conflitos, assumiram empréstimos em seus próprios nomes para auxiliar companheiros, sustentaram famílias por meio de trabalhos informais e acumularam tarefas domésticas e de cuidado.

A partir desses relatos, a produção aborda temas como dependência econômica, controle financeiro, renúncia patrimonial, endividamento e desigualdade dentro das relações afetivas.

Mulheres são maioria entre referências financeiras dos lares

Os dados que contextualizam o documentário mostram uma mudança na composição econômica das famílias brasileiras. Segundo levantamento da pesquisadora Janaína Feijó, do FGV IBRE, 51,7% dos lares brasileiros tinham uma mulher como referência financeira no final de 2024, o equivalente a aproximadamente 41,3 milhões de mulheres.

Apesar de serem maioria nessa posição, elas ainda recebiam, em média, menos do que os homens que também eram referência financeira de seus lares. O estudo aponta ainda diferenças relacionadas a raça, escolaridade e inserção no .

Para além da renda, o documentário amplia a discussão para atividades realizadas dentro de casa e que, muitas vezes, não aparecem nas estatísticas de rendimento.

Dados do IBGE mostram que, em 2022, as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas. A diferença evidencia a distribuição desigual das responsabilidades domésticas e de cuidado.

Relatos e especialistas

“Dividindo as Contas” combina os depoimentos das mulheres com a participação de especialistas que ajudam a contextualizar as experiências apresentadas ao longo do filme.

A pesquisadora e ativista Janira Sodré contribui para a análise histórica e social das relações de gênero. Já Renata Botelho, doutora em Psicologia, participa da produção com reflexões relacionadas a relações abusivas e ao chamado estelionato sentimental.

A obra também utiliza poéticos para abordar as experiências retratadas. Sara e Ester Linhares são responsáveis pela criação e realização de poemas incorporados à narrativa, estabelecendo uma relação entre memória, palavra, experiências pessoais e as dimensões econômicas e afetivas dos relacionamentos.

Trabalho doméstico também entra na discussão

Uma das questões centrais levantadas pelo documentário é justamente o que deve ser considerado contribuição econômica dentro de uma relação. A produção propõe uma reflexão sobre atividades que não necessariamente geram renda direta, mas sustentam o funcionamento da família, como cuidar dos filhos, administrar a casa e acompanhar familiares.

Nesse contexto, o filme coloca em discussão a distância entre a responsabilidade efetivamente assumida pelas mulheres e o reconhecimento financeiro ou patrimonial dessa contribuição.

A proposta não se limita, portanto, à análise de quem paga as contas. O documentário busca discutir como dinheiro, trabalho, cuidado, patrimônio e poder se relacionam dentro das relações afetivas.


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