03 de março de 2024
Holofotação • atualizado em 26/11/2023 às 11:28

Dinâmica do algoritmo: como políticos, até então desconhecidos, têm conseguido tanto holofote

Javier Milei, Bolsonaro e Nikolas Ferreira são alguns exemplos de como surfar na onda das polêmicas e movimentar campanhas eleitorais através do hate e da polarização política
À esquerda, o ex-presidente do Brasil Jair Messias Bolsonaro e, à direita, Javier Milei, presidente eleito da Argentina no último domingo. (Fotos: reprodução/Instagram)
À esquerda, o ex-presidente do Brasil Jair Messias Bolsonaro e, à direita, Javier Milei, presidente eleito da Argentina no último domingo. (Fotos: reprodução/Instagram)

A velha máxima do “falem bem, falem mal, mas falem de mim” nunca valeu tanto quanto na atual dinâmica das redes sociais. Trazer o holofote para si tem movimentado o marketing de carreiras, com destaque entre políticos que se tornaram conhecidos por meio da propagação de ideias polêmicas nas redes sociais, principalmente com ajuda do algoritmo. Gerar engajamento, seja por identificação, ou até mesmo por repulsa, é o novo método de se destacar. 

De olho nesse mecanismo, o youtuber Senhorita Bira, que acumula 228 mil inscritos em seu canal “O Algoritmo da Imagem”, e 177 mil no Instagram, criou o termo holofotação para explicar aos seguidores como funciona o processo. “Cunhei esse termo, holofotação, porque é criar holofote em algo. Vi isso nas minhas observações do mundo, das pessoas colocando em evidência pessoas que elas não gostam”, destaca Bira. 

O youtuber explica que a primeira vez que percebeu a dinâmica foi ao observar o funcionamento dos algoritmos das redes sociais. Quando um amigo comentava em algum post com conteúdo considerado absurdo por ele, automaticamente, aquele conteúdo se destacava em seu feed, mesmo sendo algo que não consumia. “Hoje em dia, você comentar sobre uma pessoa já causa engajamento para ela. E as redes sociais são engajamento”, ressalta.

Holofotização de ideias

O professor associado da Universidade Federal de Goiás (UFG) e especialista na área de marketing e análise de dados, Marcos Severo, explica que isso acontece porque a estrutura da comunicação mudou. O engajamento nas redes por meio do algoritmo, seja ele positivo ou negativo, faz com o que conteúdo seja impulsionado, o destaque que muitos procuram. “Se essa pessoa tiver milhões de seguidores ou viralizar, ela acaba conseguindo pautar a mídia tradicional”, pontua Marcos. 

O especialista acrescenta que a prática se tornou recorrente por ter se tornado uma forma de reverberar fatos e adquirir destaque, principalmente no meio político, onde a visibilidade pode resultar em popularidade e votos. “Eles perceberam que se gerarem pauta recorrente, sem servir assessor de imprensa, no próprio perfil dele, ele acaba pautando a mídia tradicional que vai reverberar determinados fatos. No contexto do político, gera mais interesse e mais intenção de voto”, pontua Severo. 

Bira ressalta que essa conduta nas redes sociais é o que tem levado figuras, até então desconhecidas ou consideradas até mesmo fracas no meio político, a posições de destaque. “Você divulgar o que ele acredita ser certo é o melhor trabalho que você pode fazer por ele, porque ele quer é que as ideias dele sejam escutadas, porque é o que faz a campanha eleitoral dele, e é por isso que ele ganha. A holofotação é exatamente isso, você vai colocar na luz uma pessoa que talvez não tivesse essa força toda”, explica o youtuber. 

É nessa dinâmica que políticos como Javier Milei, presidente eleito na Argentina, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o deputado federal Nikolas Ferreira fizeram nome. “Quando você ouve Nikolas Ferreira falando contra a homossexualidade ou contra a transsexualidade, você de esquerda, que é uma pessoa progressista, que se sente ofendida, vai propagar essa mensagem. Mas essa mensagem tem apoio da população. Não à toa, ele foi o deputado mais votado de Minas Gerais”, exemplifica Bira. 

De onde vem?

O professor e especialista em marketing atribui esse fenômeno à própria natureza humana. “O ser humano gosta de fofoca, ele gosta de saber das coisas. É um espaço aberto, as pessoas vão procurar saber o que está acontecendo”, diz Marcos. Para Bira, isso está associado ao que ele chama de “emoções fortes”. “Emoções fortes fazem você engajar com o conteúdo. Se eu faço conteúdo que não te causa emoção forte, você não engaja. Se eu faço conteúdo com ódio, eu faço com que você engaje muito esse conteúdo, você fica com ódio, com raiva”, explica, associando o tema ao conteúdo do livro “Contágio – Por que as coisas pegam”, do autor Jonah Berger, que trata sobre a influência digital baseado nas emoções humanas. 

Tanto Severo quanto Bira acreditam que o grande impacto negativo disso na sociedade atual é a polarização de ideias. “Uma consequência negativa é você polarizar grupos, que foi o que aconteceu nos últimos tempos. É o que acontece em todas as eleições, acabou de acontecer na Argentina, aconteceu no Brasil, e vai acontecer ano que vem dos Estados Unidos”, afirma Marcos. “Os impactos disso na sociedade é uma sociedade que não vai se curar. Uma sociedade que vai continuar polarizada, onde o pai não fala com o filho mais”, acrescenta Senhorita Bira. 

Por fim, o professor destaca que acredita que futuramente as redes sociais vão caminhar para a utilização de mecanismos de validação de conteúdos, de modo a diminuir a propagação de notícias falsas e publicações que sejam equivocadas e firam os direitos humanos. “Acho que as ferramentas das mídias sociais vão ter alguns mecanismos de validação da confiabilidade daquele conteúdo antes de divulgar”, opina. 

Já Bira traz uma reflexão sobre um princípio básico da sociologia, que pode auxiliar na diminuição dessa dinâmica de destacar falas e situações polêmicas e até problemáticas. O youtuber cita o sociólogo francês Émile Durkheim para explicar o raciocínio ligado ao algoritmo. “Nós devemos lembrar da solidariedade orgânica à luz de Durkheim. Ele fala sobre a diferença ser a base da coesão da sociedade que nós vivemos, na sociedade moderna. Essa coesão está sendo desfeita por causa dessas narrativas em disputa da pós-modernidade. O que acontece no futuro é que se nós continuarmos holofotando pessoas que nós não gostamos, elas vão ter mais notoriedade”, pontua.


Leia mais sobre: Política

Luana Cardoso

Luana

Estagiária de Jornalismo do convênio entre a UFG e o Diário de Goiás.