09 de fevereiro de 2026
RETÓRICA DO ÓDIO

Curso em Goiânia debate guerra cultural e alerta para riscos ao processo eleitoral de 2026

Aulas gratuitas com João Cezar de Castro Rocha analisam estratégias da extrema-direita e disputas de narrativa no Brasil
Curso oferecido por deputado Mauro Rubem é proferido por pesquisador João Cezar de Castro Rocha - Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil
Curso oferecido por deputado Mauro Rubem é proferido por pesquisador João Cezar de Castro Rocha - Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil

Um curso gratuito nesta sexta e sábado (16 e 17), vai abordar o processo de guerra cultural, disputa de narrativas e retórica do ódio, fenômenos centrais da política brasileira da atualidade que ameaçam interferir no processo eleitoral nacional de 2026. O curso é oferecido pelo deputado Mauro Rubem (PT) tendo à frente o estudioso do fenômeno, João Cezar de Castro Rocha.

João Cezar é professor de literatura comparada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisador e autor de várias publicações sobre o tema. Ele fará as palestras das 19h às 22h dessa sexta, e no sábado das 9h às 12h e das 14h30 às 17h30, na Faculdade de Enfermagem da UFG, na rua 227, viela Q, 68, setor Leste Universitário, em Goiânia.

Em entrevista ao editor-geral do Diário de Goiás, jornalista Altair Tavares, o pesquisador explicou que a proposta é “uma conversa direta, profunda e necessária sobre o Brasil de hoje, o papel da comunicação na política e os desafios colocados para quem defende a democracia e o interesse público”.

Segundo ele, a ideia fundamental é compreender as estratégias utilizadas pela extrema-direita em todo o mundo e, sobretudo, no Brasil, para chegar ao poder através das urnas. E um dos tópicos envolve estratégias já usadas pelo campo progressista ainda na segunda metade do século XX: “conquistar corações e mentes”. Mas, no caso da extrema-direita, aponta ele, uma conquista que segue pelo caminho não mais de “golpes e tanques de guerra nas ruas” e sim do voto conquistado por presença maciça em redes sociais, entre outros métodos.

Como exemplo, ele cita Donald Trump, “que voltou ao poder com uma vitória acachapante nas urnas”. Além dele, “em 2018, Jair Messias Bolsonaro obteve uma vitória impressionante em relação ao candidato do PT, Fernando Haddad. Em 2022, apesar de todos os desmandos e de todas as arbitrariedades dos quatro anos de governo, Bolsonaro obteve, de fato, 58 milhões de votos”, observou.

Entendendo as estratégias e a “pinochetização”

Segundo ele, o curso sobre guerra cultural visa tentar entender quais são as estratégias discursivas e retóricas empregadas pela extrema-direita para conquistar especialmente as gerações mais jovens.

O especialista confirma que a direita “engaja mais” do que a esquerda, e que a guerra cultural, “na verdade, é a ponta de lança de um projeto muito mais profundo, que eu proponho denominar de ‘pinochetização’ do planeta e, portanto, do Brasil. Era o projeto do Bolsonaro e do Paulo Guedes, que não foi levado adiante em boa medida pelo caráter errático do próprio presidente Bolsonaro, mas que possui agora uma linha de força muito mais assustadora para o futuro do Brasil, que é a linha de força Tarcísio de Freitas, Guilherme de Ritch e André Esteves”, analisa.

Ele explica que a “pinochetização” é vista como o primeiro laboratório mundial da implantação do neoliberalismo radical, que implica uma série de ações. “Ao descrever as ações, a audiência [do curso] de imediato pensará no Tarcísio de Freitas e no que está sendo feito em São Paulo”, afirma.

Ele continua, explicando o motivo: “Privatização de todos os recursos da União. Em São Paulo, são várias privatizações, entre elas, a privatização da água. Enquanto na Europa hoje se faz a reestatização dos serviços básicos, sobretudo da água, a Sabesp foi privatizada. Então, privatização dos ativos da União. Supressão progressiva e radical dos direitos do trabalho”.

A “voucherização” e o desmantelamento de serviços públicos

Segundo aponta, a retirada do Estado de todas as suas funções sociais atende a princípios que agradavam, por exemplo, à administração do ex-ministro da Fazenda de Bolsonaro, Paulo Guedes, em um processo que o professor chama de “voucherização”. 

“Para que SUS? Vouchers para Procurar Clínicas Particulares. Para que Escola Integral? Voucher para Procurar Escolas Particulares, e assim sempre. A privatização da Previdência Pública…., já falei da redução dos direitos do trabalho e uma precarização da vida como um todo. Isso, na década de 70, só era realizável a partir do autoritarismo e a partir da ação efetiva das forças de repressão”, continua.

“A guerra cultural não é um fenômeno em si, a guerra cultural é o que permite substituir os tanques pelas imagens, a força repressora pela servidão voluntária. A guerra cultural é a tentativa, é a ponta de lança do projeto de ‘pinochetização’ do Brasil”, reforça. O pesquisador defende o combate incisivo desse projeto. “Se ele triunfar, a chance de um dia termos uma nação fraterna e solidária acabou”, avalia.

Bolsonarização de igrejas evangélicas

Ele também cita uma proximidade comprometedora do pensamento alinhado com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), hoje condenado e preso por tentativa de golpe, no processo que classifica de “bolsonarização” de diversas correntes e igrejas evangélicas. 

“O que significa isso? Significa uma transferência radical, do ponto de vista teológico, do Novo Testamento, da mensagem do Cristo pelo Antigo Testamento. E o símbolo agora deixa de ser o Cristo, que é sempre uma mensagem de amor, de solidariedade”, observa. 

Narrativa abandona Cristo e foca no Velho Testamento

Segundo ele, essa tendência afasta o Cristo e sua mensagem muito clara no campo da política: “A César, o que é de César, ao Senhor, o que é do Senhor. Essa mensagem do Cristo não interessa à extrema-direita, não interessa à bolsonarização ou à radicalização política de certas correntes evangélicas, que, pelo contrário, abandonaram o Novo Testamento, abandonaram o Cristo e abraçaram Davi, o Senhor dos Exércitos, o Criador do Reino de Israel. Não se trata mais do Cristo como imagem, mas do Davi, porque é óbvio que não se pode nenhuma circunstância, mesmo no delírio mais atroz, não seria possível pensar em Jair Bolsonaro, Donald Trump e Jesus Cristo juntos”, afirma.

Por essa linha, do Velho Testamento, diz ele, “é possível pensar em Bolsonaro, Trump e no Rei Davi. Esse paralelo pode ser feito do Senhor dos Exércitos, do pecador, mas do pecador ungido porque pede perdão. Esse paralelo pode ser feito. Algumas denominações evangélicas escutaram o canto da sereia da radicalização política e, de fato, esse é um problema muito sério para o Brasil de hoje, porque boa parte dessas denominações evangélicas, o universo evangélico, que é muito plural, não pode ser reduzido a isto, mas uma parte considerável do universo evangélico brasileiro hoje, infelizmente, está atrelado a políticas da extrema-direita”, finalizou.


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