O presidente Luís Inácio Lula Lula não participar do primeiro debate presidencial da TV Band é uma decisão criticável do ponto de vista democrático, mas compreensível eleitoralmente. Flávio Bolsonaro fazer a mesma coisa também pode ser explicado pela lógica de campanha. Mas, Romeu Zema, não.
É justamente por isso que a ausência do ex-governador de Minas Gerais no debate deste domingo (23) merece atenção especial.
Lula lidera a disputa. Flávio Bolsonaro ocupa o segundo lugar. Os dois concentram a maior parte das intenções de voto e, por isso, podem calcular os riscos de entrar num estúdio para enfrentar adversários que precisam atacá-los para crescer.
Lula é presidente da República, tem exposição diária, estrutura política, agenda pública e um eleitorado consolidado. Não precisa de um debate na televisão para ser conhecido.
Flávio Bolsonaro também parte de uma situação privilegiada. Carrega o sobrenome Bolsonaro, herda uma parcela importante do eleitorado do pai e já está instalado no centro da polarização nacional. Se Lula não comparece, a equipe de Flávio certamente avaliou que a presença dele transformaria o candidato no principal alvo dos demais. E, seria mesmo. Os candidatos do PSD Ronaldo Caiado e Renan Santos não poupariam.
Pode-se discordar dessa estratégia. Debates são importantes e candidatos à Presidência deveriam se submeter ao confronto público. Mas existe racionalidade política nas duas ausências.
Com Romeu Zema, a conta muito diferente.
Zema aparece com cerca de 3% das intenções de voto nas pesquisas mais recentes. Seu problema não é administrar uma liderança. É construir uma candidatura competitiva e ser conhecido pelo Brasil. E quem está com 3% não deveria se comportar como quem tem 30%.
Zema é conhecido em Minas Gerais, onde foi eleito e reeleito governador. Nacionalmente, porém, ainda precisa transformar sua biografia administrativa e seu discurso liberal em conhecimento, identificação e voto.
Para isso, precisa de exposição.
A ausência de Lula e Flávio, na verdade, poderia ter transformado o debate da Band em uma excelente oportunidade para os candidatos do segundo pelotão. Sem os dois protagonistas da polarização, haveria mais espaço para apresentar propostas, confrontar adversários e produzir fatos políticos.
Ronaldo Caiado percebeu isso. Zema abriu mão.
O problema não é apenas perder algumas horas de televisão. Campanhas presidenciais são construídas também por momentos capazes de mudar a percepção do eleitor. Um bom desempenho num debate pode produzir vídeos, manchetes, cortes para redes sociais e repercussão durante vários dias.
Para um candidato pequeno, isso vale muito. A propaganda do desempenho vai muito além do debate.
Para um candidato líder, o cálculo pode ser exatamente o contrário: quanto menos acontecimentos inesperados, melhor.
Essa é a diferença central.
Lula e Flávio podem querer preservar a eleição como ela está. Zema precisa mudar a eleição. Ele precisa produzir acontecimentos, criar contraste, mostrar personalidade e explicar por que deveria ser considerado uma alternativa real à polarização.
Há ainda uma disputa particular dentro da direita. Durante muito tempo, Zema foi apontado como possível representante de uma direita liberal e conservadora menos vinculada diretamente ao bolsonarismo. Governador de um dos maiores estados do país, empresário e defensor de uma agenda econômica liberal, acumulou ativos suficientes para tentar uma candidatura nacional.
Mas eleição presidencial não se faz apenas com currículo. É preciso ocupar espaço. E o espaço abandonado por um candidato imediatamente pode ser ocupado por outro.
Caiado compareceu ao debate justamente no momento em que Lula e Flávio deixaram o palco livre. Independentemente da avaliação sobre seu desempenho, o governador de Goiás esteve diante das câmeras tentando se apresentar como alternativa.
Zema, não.
Isso torna sua decisão ainda mais difícil de compreender. Há argumentos em sua defesa. O Novo afirma que a candidatura continua normalmente. Zema terá outras entrevistas e oportunidades de exposição. Uma ausência isolada não significa desistência nem permite decretar o fracasso definitivo de uma campanha.
Zema, com poucos pontos nas pesquisas, deveria estar preocupado exatamente com o contrário. Deveria querer exposição. É cedo para enterrar Romeu Zema. Mas campanhas também são feitas de sinais. E o sinal emitido pela ausência no primeiro debate não foi dos melhores.
Porque a pergunta permanece: Se Lula tem uma liderança para proteger e Flávio Bolsonaro tem uma polarização para preservar, o que exatamente Romeu Zema, com 3%, tinha a ganhar ficando em casa?
A ausência virou um ponto crítico: E, se ninguém sentir falta dele? “Mineiro não tem medo”, disse o candiato Zema ao jornalista Fernando Mitre. Não tem medo, mas não foi ao debate.
Altair Tavares
Editor e administrador do Diário de Goiás. Repórter e comentarista de política e vários outros assuntos. Pós-graduado em Administração Estratégica de Marketing e em Cinema. Professor da área de comunicação. Para contato: altairtavares@diariodegoias.com.br .

