10 de agosto de 2022
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Violência política preocupa pré-candidatos de esquerda e partidos falam em intensificar segurança

Violência política: Filiado ao PT, Marcelo Arruda foi morto e o principal suspeito é um agente penitenciário bolsonarista (Foto: Reprodução)
Violência política: Filiado ao PT, Marcelo Arruda foi morto e o principal suspeito é um agente penitenciário bolsonarista (Foto: Reprodução)

Pré-candidatos para cargos em partidos de esquerda mostraram preocupação com a segurança e a violência política às vésperas das eleições. O temor foi acentuado com o assassinato do guarda civil de Foz do Iguaçu e tesoureiro do PT, Marcelo Arruda, no último sábado (09/07). O militante petista foi morto enquanto comemorava seu aniversário de 50 anos por um apoiador do presidente da República, Jair Bolsonaro.

A Polícia Civil apura o caso e entre outras teses trabalha com a linha de ‘conflito político’. De acordo com testemunhas, o agente penitenciário federal Jorge José da Rocha Guaranho chegou ao local gritando “Aqui é Bolsonaro”. Guaranho também se feriu no conflito e está intubado e em estado grave. O policial penal tem forte presença nas redes sociais em apoio ao presidente da República.

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O assunto preocupou políticos e militantes de partidos de esquerda rompendo as linhas petistas e foi debatido no Seminário Nacional do PSOL, realizado em São Paulo. A presidente estadual da legenda, Cíntia Dias, pontuou ao Diário de Goiás que a pauta é bem sensível aos socialistas, haja vista que até hoje o partido ainda sente a perda e o luto pela morte da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro que também ocorreu às vésperas da eleição de 2018.

“Foi uma pauta que a gente discutiu [no Seminário]. Da importância de redobrarmos a atenção para as ameaças e ataques que têm sido corriqueiros e muitas vezes a gente ignora porque acha que a capacidade humana não é de ser assassina. O que aconteceu com o Marcelo que era tesoureiro do PT e o que já aconteceu com a Marielle é um alerta que vem colocando viva a inconstância e o quanto esse governo é danoso”, explicou a presidente que também é pré-candidata ao Governo de Goiás. Dias destaca que um manual poderá ser feito para os candidatos e suas equipes utilizem ao longo das eleições em 2022, mas garantiu que é certo que nenhuma pré-candidatura irá recuar.

“Vamos reforçar a segurança, vamos pensar em um manual de organização e segurança para as candidaturas. A gente tem a certeza que a única forma de combater isso é a luta. Não vamos retirar nenhuma das nossas candidaturas. Vamos fortalecer as nossas candidaturas e fazer com que elas tenham condições de ir para a rua, de pedir voto, fazer a campanha, mas com segurança que vai ser uma pauta que vamos debater com os nossos candidatos em Goiás”, ponderou.

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Alerta para pré-candidatos e dirigentes de partidos

A pré-candidata a deputada federal pela sigla socialista, Mariana Lopes que também é tesoureira municipal do partido, avalia o homícidio do petista Marcelo Arruda como “triste, estarrecedor e absurdo”. “Uma história muito triste por qualquer motivo que fosse, mas por ter motivação política nos coloca em alerta principalmente nós que somos dirigentes dos partidos de esquerda. Isso nos coloca em alerta. Logo que soubemos das notícias fomos discutindo nos grupos”, explicou ao Diário de Goiás.

Lopes diz que o partido irá sentar para discutir o assunto ainda esta semana.  “Certamente, teremos reunião essa semana para debater não só esse caso, mas a gente sabe que de uns tempos para cá ou pelo menos de 2018 a gente vem vendo uma crescente de machismos, LGBTfobia, racismos, várias formas de preconceito”, explica.

Mariana pontua que as pré-candidaturas vão caminhar com os “devidos cuidados”. “Mas vamos continuar fazendo nossas pré-campanhas, e quando a partir do dia 16 de agosto, já começar a campanha efetivamente, a gente vai fazer da mesma maneira, tomando os devidos cuidados. Na verdade, a gente já tem tomados esses cuidados. Por exemplo: algumas coisas com relação a segurança da informação na pandemia, em que se a gente se reuniu por aplicativos. Segurança da informação já é uma preocupação que temos há dois anos. As campanhas vão seguir tendo esse alerta”, salientou.

A pré-candidata explica que apesar de ser desafiador as pré-candidaturas irão persistir em resposta ao bolsonarismo. “É sempre um desafio, dá medo mesmo, mas a gente vai continuar com certa preocupação tomando os cuidados que já tomamos. Talvez possamos ampliar os cuidados no sentido da segurança física. Seguimos com coragem porque, nós temos certeza que Bolsonaro não passa mas a gente vai ter que travar uma luta contínua contra o bolsonarismo e contra essas reações conservadoras e violentas que acontece na sociedade brasileira ou se a gente quiser ir mais a fundo, que acontecem na sociedade brasileira há muito tempo, de genocídio indígena a escravidão, além dos números altissimos de transfobia, lgbtfobia, feminicídios. A gente vai seguir justamente para derrotá-los”, completou.

Violência política preocupa pré-candidatos em Goiás (Foto: Divulgação)

“Preocupa, mas não vai nos intimidar”, destaca presidente do PT em Goiás

A presidente do PT em Goiás e pré-candidata a deputada estadual Katia Maria avalia que para a segurança dos correlegionários é necessário que as instituições possam funcionar, para enfim, garantir a construção das eleições “de forma democrática, sem violência política”, destacou ao Diário de Goiás.

Apesar da tensão, o assunto não vai impor medo aos pré-candidatos. “Preocupa, mas não vai nos intimidar. Graças a Deus ando Goiás inteiro e nunca tive um incidente”, pontuou. “Vamos continuar fazendo uma pré-campanha pautada no debate de projetos e propostas, respeitando os que pensam diferente. Nossa militância não deve cair em provocações daqueles que não tem compromisso com o Brasil, muito menos com a vida”, salientou.

Pré-candidato a deputado estadual pela sigla petista, o economista Fábio Júnior explica que o clima no momento é de “tristeza e preocupação”. “Porque a gente se coloca no lugar do Marcelo que foi assassinado e poderia ser qualquer um de nós”, explica. “Mas é algo que a gente não pode deixar atrapalhar a campanha. Não podemos ficar com medo e nem reduzir nosso ritmo porque é justamente isso que os bolsonaristas querem”, salienta.

Fábio Júnior é da tese que os adeptos ao bolsonarismo estão preocupados com uma hipotética derrota do presidente da República nas eleições em 2022. “Eles sabem que não ganham no voto e querem ganhar no grito e na força”, pondera. Mesmo assim, tem expectativa de dias melhores. “Eu acredito que o sentimento de ódio que o bolsonarismo prega ele tem de ser combatido com esperança de que as coisas vão melhorar e que o brasileiro vai conseguir se unir de novo e que vamos conseguir ter dias melhores novamente”, conclui.

O advogado criminalista e pré-candidato a deputado estadual Valério Luiz (PT) também avalia que não dá para prever atentados haja vista que as campanhas são feitas nas ruas. “Então, você fica completamente exposto”, salienta. “É uma coisa que gera preocupação, mas da minha parte só aumenta a disposição e a consciência de tirar esse governo daí. De reestabelecer uma normalidade no país onde as pessoas possam falar das suas posições políticas livremente, onde a gente possa ter situação e oposição sem um criminalizar o outro. Isso tem de ser retomado imediatamente”, comenta.

Valério Luiz adota a tese que a situação de violência política pode ser amplificada com a reeleição do presidente da República, Jair Bolsonaro. “Se esse projeto autoritário de governo continuar, nos próximos anos vai ser muito pior. Vai ter golpe, criminalização de oposição, censura. Se a eleição não for ganha agora, isso vai ser só o começo”, destaca.