No último domingo (05/07), o Brasil foi eliminado da Copa. Mais do que o resultado, a partida deixou uma impressão incômoda: a de um time preocupado em proteger sua história, em vez de determinado a escrever uma nova.
Existe uma diferença profunda entre entrar em campo para conquistar e entrar apenas para evitar a derrota. Quando o medo de perder se torna maior do que o desejo de vencer, o adversário mais difícil já não está do outro lado. Está dentro de nós.
Essa dinâmica ultrapassa o futebol. Ela influencia nossas carreiras, nossas decisões e o rumo de nossa vida. Por isso, a eliminação brasileira nos convida a uma pergunta: estamos jogando para conquistar ou apenas para preservar o que já temos?
Sob pressão intensa, o cérebro tende a priorizar a detecção de ameaças e a proteção. Quando o estresse aumenta, funções importantes para o bom desempenho — como criatividade, flexibilidade cognitiva e capacidade de avaliar alternativas — podem ser prejudicadas.
Nesse estado, recorremos com mais facilidade a respostas conhecidas e decisões que reduzam nossa exposição ao erro. Deixamos de buscar a melhor jogada e passamos a escolher aquela que parece menos arriscada.
É assim no esporte, nas organizações e na vida. Pouco a pouco, a proteção se transforma em paralisia.
O executivo deixa de propor porque teme comprometer a reputação construída. O profissional evita uma mudança para não abrir mão da posição conquistada. O líder silencia diante de uma decisão difícil para não desagradar. A empresa repete fórmulas antigas porque um dia elas funcionaram.
Você provavelmente conhece alguém que começou com poucos recursos, mas carregava a certeza de que a vida poderia oferecer mais. Essa pessoa não esperou que todas as condições fossem favoráveis. Ela avançou porque tinha sede. Sede de aprender, de construir e de transformar a própria realidade.
Essa sede também se relaciona aos sistemas cerebrais de motivação. A dopamina, muitas vezes apresentada apenas como o “neurotransmissor do prazer”, participa de processos ligados à antecipação de recompensas, ao aprendizado e à disposição para agir em direção a um objetivo.
Isso não significa que pessoas ambiciosas simplesmente “tenham mais dopamina”. A motivação humana é mais complexa. Significa, porém, que nosso cérebro responde a objetivos relevantes, desafios possíveis e recompensas que façam sentido.
Precisamos de algo que nos mobilize.
À medida que conquistamos segurança, reconhecimento e conforto, corremos o risco de deixar de estabelecer desafios que despertem novamente essa mobilização. Passamos a organizar a vida mais em torno da manutenção do que da descoberta.
É nesse momento que o sucesso pode se transformar em armadilha.
Quando nos definimos exclusivamente pela reputação, ficamos presos ao que já fizemos. Criamos uma identidade que precisa ser defendida. Errar deixa de ser parte do processo e passa a ser interpretado como ameaça à nossa imagem. Mudar de direção parece incoerência. Pedir ajuda parece fraqueza. Começar algo novo parece arriscado demais.
A reputação, que deveria ser consequência de uma trajetória, transforma-se em prisão.
Quando nos definimos também pelo que ainda desejamos aprender, construir e transformar, desenvolvemos uma identidade mais dinâmica. O erro deixa de ser uma sentença e passa a fornecer informação. A derrota não apaga a trajetória; revela o que precisa ser revisto.
É o princípio da mentalidade de crescimento: compreender que habilidades podem ser desenvolvidas e que resultados não são definições permanentes de quem somos. Essa postura não garante sucesso nem substitui competência e estratégia, mas amplia nossa disposição para aprender e corrigir rotas.
A pergunta que permanece, portanto, ecoa muito além do futebol: Você ainda tem sede?
Não falo de ambição desmedida ou insatisfação permanente. Falo de vitalidade. Da disposição de continuar colocando-se em jogo mesmo depois de alcançar posições importantes. Da coragem de admitir que ainda existem territórios desconhecidos e versões de nós mesmos que não foram construídas.
Em minha prática como mentora em autoliderança estratégica, observo que essa é uma das fronteiras mais delicadas enfrentadas por profissionais bem-sucedidos.
No início da carreira, eles jogam para conquistar. Estudam, arriscam, criam oportunidades e enfrentam desconfortos. Quando o sucesso chega e a reputação se consolida, surge uma escolha silenciosa: continuar jogando para vencer ou passar a jogar apenas para não perder.
Muitos fazem a segunda escolha sem perceber. Continuam trabalhando e entregando resultados, mas já não experimentam o mesmo senso de movimento. Tornam-se mais cautelosos, menos criativos e excessivamente preocupados em preservar o que construíram. Sentem uma estagnação difícil de nomear porque, aparentemente, tudo continua funcionando.
Mas funcionar não é o mesmo que avançar. A energia de construir é diferente da energia de preservar. Ambas são necessárias. O problema começa quando a preservação deixa de ser uma estratégia circunstancial e se transforma no modo dominante de viver.
Se sua trajetória parece estagnada ou suas escolhas se tornaram excessivamente defensivas, talvez seja hora de perguntar: onde foi parar a minha sede?
Não se trata de abandonar tudo e começar do zero. Trata-se de resgatar a energia que existia antes de a reputação se transformar em âncora. De voltar a aprender, experimentar, questionar e assumir riscos calculados.
A vida não foi feita para ser administrada apenas com medo de perdê-la. Foi feita para ser jogada: com presença, estratégia e coragem.
A reputação registra aquilo que já fomos capazes de fazer. Mas é a sede que determina até onde ainda podemos chegar. E você: ainda tem sede?
Rafaela Veronezi – Neurocientista, doutora pela UNICAMP/SP. Palestrante e pesquisadora na área de Comportamento e Desenvolvimento Humano. Mentora em Autoliderança Estratégica. Instagram: @rafaelaveronezi
Rafaela Veronezi
Neurocientista, doutora pela UNICAMP/SP. Palestrante e pesquisadora na área de Comportamento e Desenvolvimento Humano. Mentora em Autoliderança Estratégica.

