14 de outubro de 2026
Publicado em • atualizado em 03/10/2026 às 14:29

O atual modelo de debates eleitorais morreu

Ilustração gerada por IA de Lula e Flávio Bolsonaro em outubro de 2026 ( Ilustração, crédito: Gerada por IA)
Ilustração gerada por IA de Lula e Flávio Bolsonaro em outubro de 2026 ( Ilustração, crédito: Gerada por IA)

Os debates eleitorais brasileiros precisam mudar. O modelo que conhecemos, com vários candidatos reunidos no mesmo estúdio, distribuindo perguntas, respostas, réplicas e tréplicas, pode até carregar uma aparência democrática. A eleição de 2026 mostrou, porém, que essa fórmula também produz distorções graves e que não correspondem às necessidades atuais.

O problema começa quando a disputa está claramente concentrada em dois nomes, mas o debate é organizado como se todos os candidatos tivessem o mesmo peso eleitoral.

Foi o que aconteceu na eleição presidencial de 2026 até agora. e Flávio Bolsonaro chegaram à reta final concentrando a enorme maioria das intenções de voto. Em uma das últimas pesquisas Datafolha, os dois somavam 85% dos votos válidos. Os demais aprecem uito distantes.

Em outras palavras, o eleitor já havia feito uma primeira seleção, antes do primeiro turno. Ainda não tinha escolhido necessariamente o presidente, porque eleição se decide na urna. Mas havia indicado claramente quais candidaturas queria colocar no centro da disputa. E o debate, inevitavelmente, deveria considerar essa realidade.

Há ainda uma distorção política relevante quando vários candidatos de um mesmo campo ideológico dividem o palco com apenas um representante do campo adversário. Mesmo sem qualquer combinação entre eles, a dinâmica pode produzir uma espécie de maioria artificial dentro do estúdio.

Imagine só: quatro candidatos com discursos próximos enfrentando um candidato do outro lado. Eis aqui quatro possibilidades de perguntar, provocar, insistir em determinados assuntos e produzir cenas contra um único adversário. O tempo formal pode até estar dividido corretamente, mas politicamente o jogo não é necessariamente equilibrado – e a eleição de 2026 expôs esse problema.

Existe, ainda, outra transformação que as regras atuais parecem ignorar: debate virou matéria-prima para rede social. Uma candidatura com 1% ou 2% pode chegar ao estúdio sem qualquer possibilidade concreta de vencer aquela eleição e, mesmo assim, sair de lá com o que realmente procurava. Uma provocação pode gerar um vídeo de milhões de visualizações. Uma frase bem calculada pode ser transformada em dezenas de cortes.

Nestes casos, exposição eleitoral pode servir para outra candidatura, para um projeto pessoal ou até para atividade comercial. , por exemplo, merece ser observado dentro desse debate. Empresário do mercado digital, coach e vendedor de , ele entendeu como poucos a lógica da atenção nas . Sua movimentação política mostrou que uma candidatura também pode funcionar como poderosa plataforma de visibilidade pessoal.

O fenômeno não pode ser tratado como detalhe, já que o objetivo de um debate presidencial não deveria ser oferecer palco para quem melhor domina a técnica do corte viral. O eleitor, protagonista do pleito, merece conhecer melhor quem tem possibilidade real de governar o país.

A própria legislação ajuda a criar confusão. Hoje, o direito de participação está relacionado à representação parlamentar do partido. Um candidato pode pertencer a uma legenda com bancada suficiente para assegurar sua presença mesmo apresentando intenção de voto quase irrelevante. Outro pode ter desempenho eleitoral muito superior e enfrentar situação diferente em razão da estrutura partidária.

Qual é a lógica? Se o debate existe para o eleitor, o eleitor deveria ser o principal critério. Por isso, a regra pode ser muito mais simples do que o emaranhado atual.

Nos debates para presidente da República e governador participariam os dois candidatos mais bem colocados na média das pesquisas eleitorais divulgadas nos 30 dias anteriores ao encontro. Ponto.

Não importa se o partido possui cinco, dez ou cinquenta deputados. Não importa se é uma legenda grande ou pequena. Não importa se determinado candidato tem enorme estrutura partidária. Importa a manifestação do eleitor naquele momento da .

As pesquisas, evidentemente, não substituem as urnas. Nunca substituirão. Elas apenas registram uma fotografia da disputa. Mas, quando diferentes levantamentos realizados durante semanas mostram dois candidatos muito à frente dos demais, fingir que todos possuem exatamente a mesma relevância também significa desconsiderar uma informação objetiva produzida pelo próprio eleitorado.

Os demais candidatos não perderiam nenhum direito político. Continuariam fazendo campanha, concedendo entrevistas, participando de sabatinas, produzindo conteúdo, ocupando redes sociais, apresentando seus programas e tentando crescer.

E existe aí uma vantagem adicional: se crescerem nas pesquisas, passam a participar dos debates seguintes. A regra criaria até um incentivo político legítimo, uma vez que, para chegar ao principal palco da campanha, seria necessário primeiro conquistar eleitor.

O que não faz mais sentido é transformar debate presidencial em encontro de sete, oito ou nove candidatos, alguns deles utilizando poucos minutos para tentar produzir a frase mais agressiva da noite enquanto os dois nomes que concentram a maior parte dos votos mal conseguem aprofundar um tema. Debate deveria ser debate.

Quem pretende governar precisa ser confrontado sobre economia, saúde, segurança, educação, política externa, contas públicas e sobre aquilo que fez ou deixou de fazer quando exerceu cargos públicos – o que exige tempo, pergunta, resposta e contestação. Com candidatos demais no palco, sobra espetáculo e falta debate.

A televisão também já não precisa cumprir o antigo papel de única grande vitrine para uma candidatura. A internet mudou completamente esse cenário: hoje existem podcasts, canais de vídeo, entrevistas longas, transmissões próprias e redes sociais capazes de alcançar milhões de pessoas.

Portanto, o argumento de que todos precisam estar no grande debate para serem conhecidos pelo eleitor perdeu boa parte da força, e talvez esteja na hora de abandonar uma regra criada para outro ambiente político e de comunicação.

Se as pesquisas mostram durante semanas que a disputa real está concentrada entre dois candidatos, são eles que o eleitor precisa ver frente a frente. O debate não deve escolher os protagonistas da eleição. O eleitor já fez essa escolha.

Altair Tavares

Editor e administrador do Diário de Goiás. Repórter e comentarista de política e vários outros assuntos. Pós-graduado em Administração Estratégica de Marketing e em Cinema. Professor da área de comunicação. Para contato: altairtavares@diariodegoias.com.br .