O ex-deputado federal Jovair Arantes, hoje no PSDB, concedeu uma entrevista contundente ao podcast do jornalista Domingos Ketelbey. Revisitou o impeachment de Dilma Rousseff (PT), passou pelos bastidores da gestão Rogério Cruz em Goiânia e terminou deixando poucas dúvidas sobre sua posição na eleição de 2026. Foi uma das poucas entrevistas em que o ex-parlamentar fala abertamente sobre o processo, sem filtros e também a primeira em que fala sobre sua passagem pelo Paço Municipal, desde que deixou a administração ao final de 2024.
A entrevista chama atenção porque Jovair não tentou reescrever a própria história. Dez anos depois do impeachment, mantém integralmente a decisão tomada quando relatou, na Câmara dos Deputados, o processo que recomendou o prosseguimento da deposição de Dilma. “Eu faria o mesmo relatório hoje, sem nenhuma dúvida”, afirmou.
Há, porém, uma novidade na maneira como ele olha para aquele episódio. Jovair reconhece explicitamente o preço que pagou. Estima ter perdido entre 15 mil e 20 mil votos de eleitores de esquerda que o acompanhavam em Goiás e atribui a essa perda sua derrota para deputado federal em 2018, por diferença de pouco mais de mil votos.
É uma admissão relevante. Durante décadas, Jovair transitou com facilidade por ambientes políticos bastante distintos. Foi vice-prefeito de Darci Accorsi, tinha interlocução com a esquerda e depois se tornou um dos principais personagens do processo que retirou uma presidente petista do cargo. O impeachment rompeu uma parte dessas pontes. Mesmo assim, não há arrependimento. Há, no máximo, uma frustração com o que veio depois.
Jovair considera que o Brasil não soube dar sequência política ao movimento de 2016. Essa talvez seja a parte mais reveladora de sua revisão histórica. Para ele, houve uma mobilização social capaz de produzir a saída de Dilma, mas o sistema político acabou retornando anos depois ao mesmo ponto de confronto que pretendia superar.
Curiosamente, essa leitura não o leva a uma adesão integral ao bolsonarismo.
Jovair fez uma avaliação dura de Jair Bolsonaro, especialmente sobre a pandemia. Disse que o ex-presidente “exagerou na dose” e relacionou sua derrota ao comportamento adotado durante a crise sanitária. Ao mesmo tempo, demonstrou respeito por Lula, a quem definiu como um líder nacional. É uma posição que ajuda a explicar o próprio Jovair: adversário político não precisa necessariamente ser inimigo pessoal.
Essa lógica aparece também quando a entrevista chega a 2026.
Jovair fez questão de corrigir a ideia de que tenha pertencido à base do ex-governador Ronaldo Caiado. Recordou que estava no Republicanos quando o partido apoiou Gustavo Mendanha contra Caiado em 2022 e revelou que tentou levar a legenda para uma composição com Marconi Perillo. Não conseguiu.
Foi procurar outra saída. Conversou com o Solidariedade, manteve diálogo com Dênis Pereira e Paulinho da Força, mas estabeleceu uma condição: só iria para a legenda se ela estivesse no campo de Marconi. Como o caminho do partido era outro, a negociação morreu. A conclusão foi o PSDB.
Não parece ter sido uma escolha apenas pragmática para abrigar a candidatura de Henrique Arantes a deputado federal. A entrevista mostra que Jovair voltou politicamente para Marconi antes de voltar partidariamente ao ambiente tucano.
Ele faz uma defesa quase integral do legado administrativo do ex-governador e contrapõe as gestões tucanas aos oito anos de Caiado. É, neste momento, um dos discursos mais duros dentro do grupo de Marconi contra o atual campo governista. Isso ficou ainda mais evidente no bate-bola. Convidado a definir Caiado, respondeu: “Não respeito”. Ao ouvir o nome de Daniel Vilela, repetiu: “Também não. Não respeito”.
Ao mesmo tempo, Jovair já olha para o segundo turno. Considera o PL mais próximo do PSDB do que o PT e afirmou que, se Marconi não avançar, defenderia numa mesa de negociação o apoio a Wilder Morais. Também revelou voto pessoal em Romeu Zema para presidente e disse que não teria problema em votar em Flávio Bolsonaro numa segunda rodada.
O capítulo Rogério Cruz
Outro trecho importante da conversa foi a passagem pela Prefeitura de Goiânia. Jovair esteve na Secretaria de Governo durante uma das fases mais turbulentas da administração Rogério Cruz. Foi chamado justamente para operar uma área que exigia aquilo que acumulou durante décadas no Congresso: articulação política. Sua avaliação do antigo chefe mistura defesa e diagnóstico.
Jovair considera Rogério Cruz um homem de boa índole e sustenta que a gestão realizou mais do que a votação recebida em 2024 poderia sugerir. Mas identifica um defeito que ajuda a explicar parte dos problemas daquele governo: Rogério tinha dificuldade em dizer não.
Ao ser questionado sobre a influência da Igreja Universal no governo, Jovair evitou responsabilizar diretamente a instituição. Disse não ter elementos internos para fazer essa acusação. Logo depois, no entanto, foi claro ao reconhecer que “grupos externos interferiram e atrapalharam bastante” a gestão.
Jovair também entende que Rogério concedeu liberdade excessiva à Câmara Municipal e relatou situações em que vereadores extrapolavam os limites normais da relação entre Executivo e Legislativo. A expressão dos “prefeitinhos” dentro da administração não é nova, mas ganha contexto quando colocada ao lado da admissão sobre as interferências externas. O quadro descrito por ele é de um prefeito pressionado por vários centros de poder ao mesmo tempo.
Ainda assim, Jovair faz uma defesa enfática de Romário Policarpo. Mesmo reconhecendo os embates entre Câmara e Paço, sustenta que o presidente do Legislativo foi correto e que, em determinados momentos, os confrontos acabaram ajudando o próprio Rogério. É a visão de quem esteve dentro daquela engrenagem.
Mabel e o futuro
A avaliação de Sandro Mabel também chama atenção. Jovair deu ao atual prefeito uma nota entre 7 e 8 e disse enxergar a possibilidade de Mabel se tornar até “o melhor prefeito da história” caso consiga resolver problemas estruturais da cidade. Mas descartou fazer parte do governo.
A explicação é política: depois de ter sido secretário de Rogério Cruz e adversário de Mabel na eleição de 2024, considera incoerente assumir agora uma secretaria no Paço. Pode não querer cargo. Não significa que tenha deixado de observar o poder. Ao final de quase uma hora de entrevista, essa talvez seja a síntese mais adequada para Jovair Arantes.
Ele afirma que não pretende mais disputar eleição, mas continua organizando candidatura, discutindo alianças, negociando partidos, projetando segundos turnos e estabelecendo quem respeita e quem não respeita.
Altair Tavares
Editor e administrador do Diário de Goiás. Repórter e comentarista de política e vários outros assuntos. Pós-graduado em Administração Estratégica de Marketing e em Cinema. Professor da área de comunicação. Para contato: altairtavares@diariodegoias.com.br .

