14 de setembro de 2026
Publicado em • atualizado em 30/08/2026 às 11:38

“Desenrola” para os clubes: prêmio para quem gastou o que não tinha?

Presidente Lula (Foto - Ricardo Stuckert)
Presidente Lula (Foto - Ricardo Stuckert)

As eleições de 2026 estão chegando e, como sempre, o esporte entra pela porta dos fundos do debate político. Candidatos falam de economia, , saúde, educação, e emprego. Quando o assunto é esporte, normalmente aparece uma frase genérica perdida no plano de , quase como uma obrigação burocrática. Até agora, entre os principais personagens da disputa nacional, Luiz Inácio da Silva foi quem colocou o tema em evidência ao falar sobre a situação financeira dos clubes de futebol e defender uma espécie de “Desenrola” para ajudar as agremiações endividadas.

O diagnóstico de Lula está correto: muitos clubes brasileiros estão quebrados. O problema é que isso não aconteceu por acidente. Boa parte deles está quebrada porque durante décadas dirigentes gastaram dinheiro que não tinham, assumiram compromissos que sabiam que não poderiam cumprir, anteciparam receitas futuras e trataram gestão financeira como algo secundário. No futebol brasileiro, ainda existe uma perigosa segundo a qual gastar muito é sinal de ambição e responsabilidade fiscal é falta de ousadia. Quando dá certo, o dirigente posa para fotografia com a taça. Quando dá errado, a dívida fica para o clube.

E então aparece novamente o poder público para oferecer uma saída. Muda o governo, muda o nome do programa, muda a taxa de juros, muda o número de parcelas, mas o roteiro é praticamente o mesmo. Refis, Profut, renegociação, parcelamento, refinanciamento e agora a possibilidade de um “Desenrola” dos clubes. O futebol brasileiro parece ter descoberto uma fórmula bastante confortável: gastar além da conta, entrar em crise e esperar que, mais cedo ou mais tarde, alguém encontre uma maneira de alongar o boleto.

Não há problema em discutir mecanismos para impedir que clubes históricos desapareçam sufocados por dívidas. O problema começa quando o socorro não vem acompanhado de responsabilidade. Qual será a contrapartida? Quem aderir ao programa terá limite de gastos? Poderá aumentar a folha salarial? Poderá contratar jogador caro enquanto parcela dívida pública por décadas? O dirigente que provocar um novo rombo será responsabilizado? Porque oferecer mais prazo sem mudar a lógica administrativa é simplesmente empurrar a crise para a frente.

O futebol já recebe um tratamento que poucas modalidades esportivas conseguem imaginar. Clubes têm força política, exposição gigantesca, contratos milionários de televisão, patrocínios, receitas de transferências e influência no Congresso. Existe a chamada bancada da bola, formada por parlamentares com vínculos ou interesses próximos ao ambiente dos clubes e das entidades esportivas. Ao mesmo tempo, atletas de modalidades olímpicas e projetos esportivos de formação frequentemente precisam lutar por orçamento básico, estrutura e continuidade. É uma contradição difícil de ignorar: justamente o segmento esportivo que mais movimenta dinheiro é aquele que periodicamente aparece pedindo algum tipo de ajuda.

O mais preocupante é que estamos diante de um looping quase perfeito. O clube quebra, renegocia, ganha fôlego, volta a contratar, aumenta despesas, antecipa receitas e quebra novamente. Depois surge uma nova diretoria, que culpa a anterior e pede mais prazo para pagar. O dirigente passa. A dívida fica. E algum novo programa aparece. Se não houver fiscalização, responsabilidade individual dos gestores, transparência e regras que obriguem os clubes a gastar dentro daquilo que arrecadam, qualquer novo socorro será apenas um convite para a próxima crise.

Talvez a grande proposta para o futebol brasileiro não seja criar mais um programa para salvar clubes endividados. Talvez seja finalmente obrigá-los a aprender uma regra que qualquer trabalhador, família ou pequena empresa conhece muito bem: ninguém consegue gastar para sempre mais do que ganha. O futebol brasileiro não precisa apenas de outro “Desenrola”. Precisa, antes de tudo, parar de achar que sempre haverá alguém disposto a desenrolar a conta depois.