O que começou como uma alternativa criativa aos tradicionais trotes universitários se transformou em uma das mais longevas manifestações culturais de Goiás. Nesta quinta-feira (25), às 18h30, o Teatro Goiânia recebe a 64ª edição do Show do Esqueleto, espetáculo realizado por estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) e reconhecido como o teatro em atividade contínua mais antigo do Brasil.
A montagem deste ano reúne mais de 90 estudantes da Turma 73 do curso de Medicina da UFG em uma produção inédita que combina teatro, música, dança, humor e reflexão social. O evento conta com patrocínio da Belcar e do Leve Supermercados, por meio do Programa Goyazes, da Secretaria de Estado da Cultura de Goiás (Secult Goiás).
Criado em 1962 por alunos da Faculdade de Medicina, o Show do Esqueleto surgiu com o objetivo de substituir os trotes violentos por uma forma mais humana, artística e acolhedora de recepção aos calouros. Ao longo das décadas, a iniciativa ganhou novos significados, incorporando temas ligados à cidadania, política, comportamento, filosofia e crítica social, sem perder sua principal marca: o humor.
Espetáculo construído coletivamente
A edição de 2026 conta com dramaturgia inédita assinada por Rodrigo Cunha e Valéria Braga, que também respondem pela direção teatral, direção de cena e preparação do elenco. Há 12 anos à frente do projeto, a dupla conduz um processo criativo construído em parceria com os estudantes.
Muito antes da estreia, os participantes passam por meses de preparação artística, com treinamentos corporais, vocais, oficinas de teatro e laboratórios criativos. As ideias surgem dos próprios alunos, que ajudam a construir personagens, cenas e esquetes que compõem o espetáculo.
Além de atuar no palco, os estudantes participam da criação de cenários, figurinos, objetos de cena e elementos visuais, assumindo diferentes funções dentro da produção.
Segundo o coordenador-geral do 64º Show do Esqueleto, Vinícius Augusto, o espetáculo se mantém vivo justamente pela capacidade de se renovar a cada geração:
Cada edição nasce do encontro entre tradição e renovação. O Show do Esqueleto carrega uma história muito forte, mas é o olhar dos estudantes que o mantém vivo. Ver mais de 90 jovens dedicando quase um ano de suas vidas para construir um espetáculo coletivo é algo emocionante.
Tradição que atravessa gerações
A longevidade do espetáculo também está ligada à constante renovação do elenco. Para o diretor Rodrigo Cunha, cada turma imprime sua própria identidade à montagem. “Como todos os anos o elenco se renova, não é possível refazer nada que foi feito. São novos estudantes com anseios, perspectivas e desejos de contar suas próprias histórias. Isso faz com que o espetáculo esteja sempre renovado, com vigor e falando sobre a atualidade”, destaca.
Já Valéria Braga ressalta que o processo criativo é marcado pela leveza, criatividade e troca de experiências. “São ensaios, ideias aprovadas, outras que passam por uma curadoria. Mas o material que vai para o palco é garantia de muita emoção, reflexão e, claro, diversão para todos que forem conferir”, afirma.
Patrimônio cultural e símbolo de resistência
Ao longo de mais de seis décadas, o Show do Esqueleto consolidou-se como uma referência cultural em Goiás. Durante o período da ditadura militar, mesmo após o fechamento do Centro Acadêmico XXI de Abril, em 1964, o espetáculo continuou sendo realizado e se tornou um espaço de resistência cultural e crítica social.
Em 2006, a iniciativa foi oficialmente tombada como patrimônio cultural da Faculdade de Medicina da UFG, reconhecimento que reforça sua importância histórica para a instituição e para a cultura goiana. Entre os personagens mais emblemáticos estão as tradicionais Baleiras, figuras cômicas interpretadas por estudantes travestidos e o próprio Esqueleto, personagem que conduz a narrativa e provoca reflexões ao longo do espetáculo.
Inclusão e compromisso social
A edição deste ano também reforça ações de inclusão e acessibilidade. O especialista PcD Brazil Nunes ministrará um curso voltado às boas práticas de atendimento ao público e acessibilidade para a equipe organizadora.
O espetáculo mantém ainda seu caráter beneficente. Parte da arrecadação será destinada a ações sociais por meio da doação de alimentos para instituições e projetos comunitários, ampliando o alcance social da iniciativa.
Com milhares de estudantes já tendo passado pelos bastidores e palcos ao longo de 64 anos, o Show do Esqueleto segue fortalecendo a ligação entre universidade, arte e sociedade, demonstrando que a formação médica também pode caminhar ao lado da criatividade, da sensibilidade e do compromisso social.
Elysia Cardoso
Jornalista formada pela UniAraguaia (2019). Repórter e editora de redes sociais, com atuação em produção de conteúdo jornalístico, cobertura de política, cidades, cultura e temas de interesse público. Experiência em redação, apuração, entrevistas e gestão de conteúdo digital.

