Minha posição sobre as bets é clara e não nasceu agora, às vésperas de eleição: sou contra. Sou favorável a restrições duras à publicidade, ao patrocínio e à expansão de um mercado que transformou o celular em um cassino aberto 24 horas por dia. Para mim, há atividades econômicas cujo impacto social precisa pesar mais do que sua capacidade de gerar arrecadação, publicidade ou contratos milionários. E as apostas on-line estão nesse grupo.
Os números ajudam a explicar essa preocupação. Pesquisa do DataSenado mostrou que mais de 22 milhões de brasileiros haviam apostado em plataformas esportivas em um período de apenas 30 dias, e 52% dos apostadores tinham renda de até dois salários mínimos. Em outro levantamento, feito pelo Banco Central, cerca de 5 milhões de integrantes de famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões via Pix para empresas de apostas apenas em agosto de 2024.
O problema, porém, não termina na conta bancária. O próprio Ministério da Saúde passou a tratar o uso problemático das apostas como questão de saúde pública. O transtorno do jogo é reconhecido como transtorno de comportamento aditivo e pode estar associado a alterações de humor e sono, prejuízo financeiro, deterioração da rotina e conflitos familiares e sociais. Em 2026, o SUS chegou a lançar uma campanha nacional específica para prevenção dos danos das apostas e atendimento de apostadores e familiares. Não estamos falando, portanto, apenas de alguém que perdeu cinquenta ou cem reais em um palpite. Em casos graves, falamos de endividamento, perda patrimonial, relacionamentos destruídos e sofrimento psicológico.
Também acho importante retirar esse assunto da guerra simplista entre Lula, Bolsonaro ou qualquer outro personagem político. O problema atravessa governos. As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas em 2018, no governo Michel Temer, pela Lei 13.756. Durante o governo Jair Bolsonaro, o setor continuou crescendo enquanto a regulamentação prevista em lei não foi concluída. Em 2023, já no governo Lula, uma nova legislação ampliou e disciplinou o mercado, incluindo os jogos on-line, e o sistema regulado passou a funcionar efetivamente a partir de janeiro de 2025. Portanto, ninguém deveria vender a ideia de que esse fenômeno nasceu ontem ou pertence exclusivamente a um governo.
É evidente que existe uma circunstância política. Estamos às vésperas da eleição de 4 de outubro, e o presidente Lula, candidato à reeleição, colocou o combate às bets no centro do discurso político. Nesse ponto específico, consigo compreender a crítica feita por Hugo Jorge Bravo, vice-presidente do Vila Nova, que classificou a movimentação como “eleitoreira”. A proximidade da eleição naturalmente permite essa interpretação. Mas o eventual uso eleitoral do tema não elimina o problema.
É aqui que me distancio completamente da defesa feita por boa parte do futebol brasileiro. Clubes e federações reagiram à possibilidade de novas restrições argumentando que o investimento das empresas autorizadas se tornou uma das principais fontes de receita do esporte. E é verdade que existe muito dinheiro envolvido: estimativas citadas no debate falam em cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios, além de impactos sobre publicidade, mídia e outras receitas. Os clubes assinaram contratos dentro de um mercado legal e regulamentado e organizaram seus orçamentos contando com esses valores. Esse fato não pode simplesmente ser ignorado.
Por isso, sou favorável a uma transição responsável. Se o poder público decidir proibir determinadas modalidades, reduzir drasticamente a publicidade ou impedir patrocínios esportivos, deve estabelecer prazo de adaptação. Os clubes precisam ter condições de renegociar contratos, reorganizar seus orçamentos e procurar novas fontes de receita. Mudar a regra de um dia para o outro pode criar insegurança jurídica e desequilíbrio financeiro para instituições que atuaram dentro da legislação vigente.
Mas também não aceito a inversão dessa discussão. O argumento econômico dos clubes não pode se transformar numa espécie de salvo-conduto moral para o setor. O futebol ganhou uma fonte gigantesca de receita, mas parte desse dinheiro nasce justamente de um modelo de negócio que lucra quando o apostador perde. E quando esse apostador compromete o salário, se endivida ou prejudica a própria família, o custo deixa de ser privado. Ele chega ao sistema de saúde, às relações familiares e à economia doméstica. O Ministério da Fazenda, inclusive, endureceu em 2026 as regras de publicidade e passou a exigir advertências explícitas como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”.
Minha posição, portanto, permanece a mesma independentemente de quem esteja no governo. Sou extremamente contrário às bets. Assim como considero absurdo o uso de dinheiro público para sustentar futebol profissional, considero igualmente distorcido normalizar uma indústria que provoca danos sociais relevantes apenas porque ela passou a financiar camisas, estádios, transmissões e folhas salariais. Futebol profissional precisa aprender a sobreviver com receitas sustentáveis.
O futebol é importante. Emprega milhares de pessoas, movimenta bilhões e faz parte da cultura brasileira. Mas nenhuma folha salarial, contratação milionária ou contrato de patrocínio pode ser mais importante do que a estabilidade financeira e emocional de milhões de famílias. Se for necessário escolher qual dos dois interesses deve receber maior proteção, para mim essa escolha não é difícil: o futebol precisa se adaptar. A sociedade não pode continuar pagando essa conta.

