09 de outubro de 2026
Publicado em • atualizado em 09/09/2026 às 09:20

A conta da incompetência: Goiás recorre a R$ 45 milhões em empréstimos em 9 meses

Estádio Hailé PInheiro - Serrinha (Foto - Rosiron Rodrigues)
Estádio Hailé PInheiro - Serrinha (Foto - Rosiron Rodrigues)

Em dezembro do ano passado, o Goiás Esporte Clube recorreu ao mercado financeiro e contraiu um empréstimo na casa dos R$ 25 milhões. Agora, em setembro, apenas nove meses depois, o clube volta a buscar dinheiro em bancos e alinha uma nova operação, desta vez de aproximadamente R$ 20 milhões. São R$ 45 milhões em empréstimos em um espaço curtíssimo de tempo, com receitas futuras e patrimônio entrando na equação como garantias. Não é um detalhe. É o retrato de um clube que, financeiramente, perdeu o controle.

A realidade da é dura, evidentemente. As receitas diminuem, os contratos de televisão valem menos, a exposição cai e, consequentemente, a camisa também se desvaloriza comercialmente. Não existe comparação entre enfrentar Flamengo, , , Vasco, Santos e Grêmio na elite e viver uma temporada na segunda divisão. Só que essa diferença de arrecadação deveria obrigar o Goiás a gastar menos, e não justificar sucessivos rombos. O problema é exatamente este: há tempos o clube gasta mais do que consegue arrecadar.

Nos últimos meses, boa parte da responsabilidade tem sido direcionada a Aroldo Guidão, anteriormente presidente do Conselho de Administração e hoje presidente executivo após a mudança estatutária. Ele tem culpa? Tem. E muita. Estava em posição de comando e participou diretamente das decisões que trouxeram o Goiás até aqui. Mas transformar uma dessa dimensão em responsabilidade exclusiva de uma pessoa é simplificar demais um problema que envolve toda uma estrutura. Onde estavam o Conselho Deliberativo, o Conselho Fiscal, o Conselho de Administração, Colegiado e tantos dirigentes que acompanharam, aprovaram, avalizaram ou simplesmente se omitiram diante do que acontecia?

O novo empréstimo pode permitir que o Goiás termine 2026 com salários, premiações e compromissos imediatos regularizados. Mas dinheiro emprestado não significa financeira. Apenas empurra a conta para frente. O clube entrará em 2027, consiga ou não o acesso à Série A, carregando uma pesada adversidade financeira e comprometendo receitas que ainda nem chegaram. É uma situação extremamente preocupante para uma instituição que sempre carregou a imagem de organização e estabilidade fora de campo.

E qual será a saída? Vender Lucas Rodrigues, hoje um dos maiores ativos das categorias de base? Pode ser uma alternativa, mas também existe um problema evidente. Um clube pressionado financeiramente negocia em posição de fragilidade. E disputando a Série B, dificilmente conseguirá estabelecer sozinho um valor extraordinário por uma promessa, por maior que seja o seu talento e potencial.

Quem dita o preço é o mercado. Quando o vendedor precisa urgentemente do dinheiro, a paciência desaparece e o poder de negociação diminui. É assim que patrimônios esportivos podem acabar vendidos antes da hora e por valores abaixo daquilo que poderiam representar no futuro.

O Goiás vive, na minha avaliação, o pior momento administrativo e financeiro de sua história. E o mais assustador talvez nem seja olhar para a dívida atual, mas olhar para frente e não enxergar uma solução clara. Afinal, boa parte das pessoas que agora terão a responsabilidade de corrigir o problema são as mesmas que estavam dentro do clube enquanto ele era construído.

Dirigentes que não fiscalizaram suficientemente, não controlaram gastos, aceitaram decisões e permitiram que o Goiás chegasse a setembro de 2026 precisando levantar R$ 45 milhões em empréstimos em apenas nove meses. Mudar cargos, nomenclaturas ou estatutos não basta. Sem mudança de postura, responsabilidade e gestão, muda-se apenas quem ocupa a cadeira. A conta continua sendo do Goiás.

O dinheiro que está entrando agora, será suficiente para as despesas até o final da temporada. Ao que tudo indica, no início do próximo ano, o Goiás vai estar com ‘pires na mão’ e batendo na porta de um banco na busca por um novo empréstimo.