Em entrevista ao programa Microfone Aberto, da Rádio Difusora de Goiânia, nesta quarta-feira (7), o presidente da Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo (CMTC), Murilo Ulhoa, detalhou a situação das dívidas acumuladas por municípios da Região Metropolitana com o subsídio do transporte coletivo e alertou para o risco de retirada do desconto na tarifa para cidades inadimplentes.
Atualmente, a passagem do transporte coletivo na Grande Goiânia é mantida em R$ 4,30 graças ao subsídio financeiro bancado pelo Governo de Goiás e pelas prefeituras que integram o sistema metropolitano. No entanto, o não pagamento da parte que cabe a alguns municípios tem gerado um impasse que pode impactar diretamente os usuários.
Segundo Ulhoa, a Prefeitura de Trindade acumula uma dívida de aproximadamente R$ 28 milhões, considerando os valores atualizados até dezembro de 2025. Já Goiânia deve cerca de R$ 17 milhões. Os débitos são referentes ao repasse do subsídio que garante a manutenção da tarifa congelada.
“A tarifa de R$ 4,30 só é possível porque existe o subsídio. Se não houver avanço nas negociações, o que passa a ser cobrado é o valor real do custeio da passagem”, explicou.
Risco de fim do subsídio
O presidente da CMTC confirmou que, caso o subsídio deixe de ser pago por municípios inadimplentes, o usuário pode passar a arcar com o custo integral do transporte coletivo. Em Trindade, por exemplo, a tarifa poderia ultrapassar R$ 8,00.
Ao Diário de Goiás, a prefeitura de Trindade afirmou que o município já realiza, desde outubro de 2025, o pagamento da contrapartida destinada ao subsídio do transporte coletivo. “Até o momento, foram quitadas três parcelas, cada uma no valor de R$ 500 mil, o que totaliza R$ 1,5 milhão em recursos aplicados na política de mobilidade urbana”. Confira nota na íntegra ao final.
Isso não é aumento de tarifa. É a retirada do subsídio. Não é justo que municípios que pagam em dia arquem com investimentos em cidades que não cumprem sua parte. Murilo Ulhoa
Ulhoa ressaltou ainda que, sem os repasses, investimentos em infraestrutura como construção de terminais, instalação de abrigos e melhorias operacionais podem ser paralisados justamente nas cidades inadimplentes, prejudicando a população local. Confira nota da prefeitura de Trindade na íntegra:
NOTA À IMPRENSA
A Prefeitura de Trindade informa que o município já realiza, desde outubro de 2025, o pagamento da contrapartida destinada ao subsídio do transporte coletivo. Até o momento, foram quitadas três parcelas, cada uma no valor de R$ 500 mil, o que totaliza R$ 1,5 milhão em recursos aplicados na política de mobilidade urbana.
Os repasses são realizados em conformidade com a capacidade operacional e financeira do município.
A Prefeitura destaca que mantém tratativas permanentes com a Secretaria-Geral da Governadoria (SGG) de Goiás e a diretoria da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC), com o objetivo de avançar em soluções técnicas e viáveis para o custeio do transporte coletivo na Região Metropolitana de Goiânia.
O Município negocia e busca alternativas para melhorar o valor do repasse mensal referente à contribuição no rateio metropolitano e considera, entre outras fontes, a possível utilização de receitas provenientes da Área Azul e a destinação de emendas parlamentares. A previsão é de que o reforço no repasse ocorra a partir do mês de março, de forma compatível com a capacidade orçamentária local.
Neste sentido, o deputado estadual Cristiano Galindo anunciou, em reunião realizada na terça-feira (06/01), a destinação de emenda parlamentar no valor de R$ 2 milhões para o município de Trindade. Os recursos serão utilizados para subsidiar o transporte coletivo urbano.
As medidas são adotadas de forma responsável, com atenção aos princípios da responsabilidade fiscal e da gestão transparente.
Além da contribuição financeira ao modelo de custeio, Trindade reafirma sua participação estrutural no fortalecimento do sistema, com investimentos diretos em infraestrutura urbana. Como exemplo, destaca-se a reconstrução integral do terminal rodoviário da cidade, com recursos municipais da ordem de R$ 3 milhões, tendo em vista oferecer melhores condições de acesso, conforto e dignidade à população usuária.
A administração municipal reforça que está comprometida com a continuidade do transporte coletivo metropolitano, sem nenhum prejuízo à população, e permanece aberta ao diálogo institucional com todos os entes envolvidos, em busca de soluções equilibradas, sustentáveis e socialmente responsáveis.
Prefeitura Municipal de Trindade
Confira a entrevista na íntegra:
Entrevista | Murilo Ulhoa, presidente da CMTC – Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo
Jordevá Rosa:
Caminhando para um bom ano de 2026. Feliz ano novo para o senhor e toda a equipe.
Presidente, vamos esclarecer os números. Hoje, a Prefeitura de Trindade deve quanto em repasses não feitos?
Murilo Ulhoa:
Jordevá, atualizando os valores até dezembro – porque ontem o deputado Jorge e a deputada Flávia informaram os números sem considerar esse mês –, Trindade deve hoje R$ 28 milhões.
Já Goiânia, com o mês de dezembro incluído, deve cerca de R$ 17 milhões.
Jordevá Rosa:
E o que está sendo feito para que esses valores sejam pagos?
Murilo Ulhoa:
Nós já tivemos algumas tratativas, principalmente com Trindade, ainda no ano passado. A partir de setembro, Trindade conseguiu fazer aportes e pagar setembro, outubro e novembro, no valor de R$ 500 mil por mês – bem abaixo da parcela mensal ideal, mas que demonstrou disposição e interesse.
Isso mostra que o município valoriza o transporte público e o trabalho que vem sendo feito.
Goiânia ainda não teve essa participação financeira, mas iniciamos tratativas nos últimos dias. Em 2024 houve um pequeno avanço com Trindade. Estamos confiantes de que vamos chegar a um denominador comum entre as partes e resolver esse problema.
Jordevá Rosa:
Se isso não for resolvido, circulou a informação de que a tarifa em Trindade poderia ultrapassar R$ 8,00, chegando a R$ 8,23. Isso procede?
Murilo Ulhoa:
Isso não significa aumento de tarifa. O que acontece é o seguinte: o valor de R$ 4,30 só é possível por causa do subsídio. Caso não haja avanço nas negociações, especialmente com Trindade e Goiânia, o que seria cobrado é o valor real de custeio da passagem.
Não é justo que Goiânia, Aparecida ou Senador Canedo arquem com investimentos que beneficiam municípios que não contribuem.
Se não houver acordo, investimentos previstos nessas cidades serão paralisados e o usuário acabaria pagando esse valor de R$ 8,00 e alguns centavos.
Vassil Oliveira:
Presidente, não seria possível prever alternativas para que esses municípios quitem as dívidas sem prejudicar o usuário? Porque, de qualquer forma, quem mora em Goiânia e Trindade pode sair prejudicado.
Murilo Ulhoa:
O que tenho dito, especialmente nos últimos dias, é que precisamos de diálogo. Recebemos na CMTC o deputado Jorge Moraes, a deputada Flávia Moraes, o presidente da Assembleia Legislativa, Bruno Peixoto, acompanhado do deputado Tatau Galindo e do ex-prefeito de Goiânia, Carlão da Fox.
O presidente Bruno, inclusive, anunciou ontem a destinação de R$ 3 milhões em emendas impositivas para amortizar parte das dívidas de Trindade e Goiânia. É pouco diante do total, mas já é um avanço.
Conversei pessoalmente ontem à noite com o prefeito de Trindade, que demonstrou interesse em continuar as tratativas. O que eu sinto é que agora os chefes do Executivo estão levando o transporte público a sério.
Sabemos que a realidade dos municípios é diferente da do Estado, mas precisamos sentar, ouvir as dificuldades e buscar soluções conjuntas. O transporte tem custo, e precisamos enfrentar esse problema com responsabilidade.
Jordevá Rosa:
Recebi agora a informação de que o presidente da Assembleia e o deputado estadual Cristiano Galindo destinaram R$ 2 milhões para Trindade e R$ 1 milhão para Goiânia. Isso ajuda?
Murilo Ulhoa:
Ajuda, sim. Como eu disse, isso foi anunciado na ida do presidente da Assembleia à CMTC. Esse recurso vai servir para amortizar parte do déficit de 2024 e 2025 e ajuda muito no início das negociações.
Mas o mais importante é o interesse da classe política e dos poderes em enfrentar esse problema.
Jordevá Rosa:
Existe um prazo para essa definição?
Murilo Ulhoa:
Nos próximos dias, vamos publicar as deliberações. A partir da publicação, as prefeituras de Goiânia e Trindade serão notificadas oficialmente.
Com isso, passa a correr um prazo de 30 dias. Ainda faltam algumas assinaturas, mas acredito que isso aconteça ao longo desta semana.
Mesmo assim, as negociações já começaram. Não precisamos esperar a publicação para dialogar.
Vassil Oliveira:
Então agora haverá um canal oficial e prazo definido para resolver isso?
Murilo Ulhoa:
Exatamente. A responsabilidade é nossa. Não estamos jogando isso no colo de ninguém. A partir da publicação, o prazo começa a correr, mas as conversas já estão acontecendo.
Jordevá Rosa:
As prefeituras alegam que não conseguem bancar o subsídio. Como fica daqui para frente?
Murilo Ulhoa:
Precisamos resolver o passado, que são as dívidas de 2024 e 2025. A partir de janeiro, os municípios precisam iniciar o pagamento mensal.
Esse valor terá redução agora em janeiro, porque o Estado assumiu uma parcela maior do subsídio, reduzindo a parte de Goiânia e Trindade.
Estamos finalizando os cálculos e, nos próximos dias, teremos os valores exatos. Os prefeitos têm a obrigação de iniciar os pagamentos.
Jordevá Rosa:
Ou seja, normalizar o pagamento a partir de janeiro e negociar as dívidas passadas.
Murilo Ulhoa:
Exatamente. Começar a pagar agora, mesmo que a negociação das dívidas anteriores leve um pouco mais de tempo. O objetivo é chegar a um resultado positivo para todos, especialmente para o usuário.
Jordevá Rosa:
Presidente da CMTC, muito obrigado pela entrevista. Quando houver novidades, volte a conversar com a gente.
Murilo Ulhoa:
Com certeza. Estou sempre à disposição.
O que temos feito nos últimos anos, com o governador Ronaldo Caiado à frente, é olhar para o usuário. A tarifa está congelada em R$ 4,30 desde 2019.
Agora, precisamos que todos os poderes encarem o transporte coletivo como um direito social, como ele é no Brasil. Um grande abraço.
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