O pré-candidato à Presidência e senador Flávio Bolsonaro (PL) leu no sábado (11), durante uma live, uma carta do ex-presidente Jair Bolsonaro falando em pacificação dos apoiadores, mas que chama a atenção também pelo que não cita: nomes envolvidos nas crises recentes que abalam ainda mais as pretensões da família Bolsonaro.
Na mensagem, Jair pede que aliados deixem de lado as diferenças internas e se empenhem em favor do filho, tratado no texto como seu “porta-voz”.
Com isso, ele atinge em cheio a esposa, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Ela recentemente gravou vídeos em casa, portanto, com o provável conhecimento dele que cumpre pena domiciliar, criticando Flávio, os irmãos e outros envolvidos no que chamou de campanha de desmoralização. Depois, vários aliados também questionaram a família, por diferentes motivos, entre eles o envolvimento no tarifaço dos Estados Unidos. Até mesmo o deputado federal Zé Trovão, atacou o próprio ex-presidente. Nenhum dos episódios, entretanto, figuram na missiva, nem os nomes dos protagonistas.
Antes de ler a carta, Flávio afirmou que havia visitado o pai pela manhã e relatado a ele os acontecimentos da semana. Disse ainda que Jair Bolsonaro está acompanhando o cenário político “na medida do possível” e que a carta seria divulgada nas redes sociais com a letra original e também transcrita (veja cópia ao final).
Flávio fala em “boicotes” internos
Flávio afirmou que a carta representa um pedido de unidade e que o texto ajuda a evitar “falas conflituosas” e “direções diferentes” dentro do grupo político. O senador afirmou que há movimentos para boicotar sua candidatura e que o pai o colocou como porta-voz para orientar a pré-campanha.
Analista diz que carta é para desviar foco de novos escândalos
Ouvido pela BBC Brasil, o cientista político Creomar de Souza, sócio-fundador da Dharma Political Risk and Strategy, classificou a carta como uma tentativa de desviar a atenção pública para novos escândalos previstos.
Um deles já começou a explodir, com a operação na sexta-feira (10) contra o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, sobre supostos desvios de milhões de reais de emendas parlamentares. A outra é a provável divulgação de um vídeo mostrando a participação de Flávio Bolsonaro em vídeos de orgias promovidas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Vários jornais informaram nos últimos dias que a campanha de Flávio já preparou uma “versão-resposta” para o vídeo, indicando, portanto, que ele existe.
“Por que a carta agora? Porque a carta precisa esvaziar o noticiário de ontem [sexta, 10], que era o noticiário hiper negativo sobre o Valdemar da Costa Neto e o burburinho em torno da possibilidade de vazamento de um vídeo de Flávio Bolsonaro em uma das festas do [ex-banqueiro Daniel] Vorcaro”, analisou.
Souza avalia ainda que “a carta tem um componente explícito de enquadramento e um componente implícito de controle da economia da atenção.”
Espólio é só da família Bolsonaro
Creomar de Souza afirma que o gesto de sábado é uma desautorização por parte de Bolsonaro a Michelle e outros participantes do campo da direita que reivindicam o espólio bolsonarista. “A carta é um jeito de dizer: ‘olha, o bolsonarismo sou eu e na minha ausência são os meus filhos, e dos meus filhos, aquele que é candidato”, diz ele. Essa é a linha já adotada pelos aliados mais próximos de Flávio que sequer usam o sobrenome da família quando citam a ex-primeira-dama, chamando-a de Michelle Firmo, sobrenome anterior dela.
“Ao não citar a Michelle, ao não citar Valdemar [Costa Neto, presidente nacional do partido de Bolsonaro], ao não citar qualquer outro nome da direita que não seja do núcleo familiar [na carta], ele diz ‘o bolsonarismo é a família Bolsonaro e, se precisar, em algum momento muda-se de partido”, reforçou à BBC.
Repercussão na campanha petista
Souza avalia que, para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a carta é mais um elemento da pré-campanha de Flávio que tem beneficiado o petista, que cresce nas intenções de voto “jogando parado”.
“Me parece que Lula, Sidônio [Palmeira, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação do governo] e Edinho [Silva, presidente do PT] entenderam que ‘olha, a gente está tendo dificuldade de construir a agenda, então vamos ficar nesse momento quietinhos, vamos tomar cuidado com o defeso eleitoral para não criar problemas com o Kássio Nunes e o André Mendonça [atuais presidente e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral], e vamos deixar eles se arrebentarem”, aponta.

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