A decisão do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, de trocar o União Brasil pelo Partido Social Democrático (PSD) para viabilizar uma candidatura à Presidência da República em 2026 não é um movimento inédito em sua trajetória política. Ao contrário: ela ecoa uma estratégia semelhante adotada há quase quatro décadas, quando Caiado buscou, pela primeira vez, o Palácio do Planalto, na eleição histórica de 1989.
Embora separadas por 37 anos, as duas passagens de Caiado pelo PSD entre o antigo e o atual, revelam permanências, rupturas e transformações profundas no sistema político brasileiro, no perfil do candidato e no papel do partido como plataforma eleitoral.
1989: o líder ruralista na primeira eleição pós-ditadura
A eleição presidencial de 1989 marcou a retomada do voto direto após 21 anos de ditadura militar. O ambiente era de fragmentação partidária, efervescência ideológica e experimentação política. Nada menos que 22 candidatos disputaram o primeiro turno.
Foi nesse contexto que Ronaldo Caiado, então presidente da União Democrática Ruralista (UDR), emergiu como candidato presidencial. Sua postulação foi oficializada em 21 de fevereiro de 1989, durante uma assembleia extraordinária da UDR em Brasília, com a presença de cerca de 300 dirigentes da entidade. A candidatura representava, sobretudo, os interesses do agronegócio e dos grandes proprietários rurais, fortemente mobilizados durante a Assembleia Constituinte de 1987–1988.
Sem partido viável no primeiro momento, Caiado iniciou uma peregrinação por legendas em busca de tempo de televisão e estrutura mínima de campanha, fator decisivo com a volta do horário eleitoral gratuito em cadeia nacional. As informações são de páginas do Jornal O Globo publicadas na época.
Da sigla improvisada ao PSD de 1989
Mesmo filiado ao PFL, Caiado não foi incluído na prévia interna da legenda, que escolheu Aureliano Chaves como candidato. A tentativa de criar uma legenda própria, o Partido Democrático Nacional (PDN) fracassou rapidamente.
A filiação ao PDC (Partido Democrata Cristão), em maio de 1989, também se mostrou inviável. O partido estava rachado entre apoiar Leonel Brizola, Guilherme Afif Domingos ou Fernando Collor. Isolado politicamente, Caiado deixou a legenda.
A virada ocorreu em julho daquele ano, quando, após a desistência de Jânio Quadros por motivos de saúde, o então presidente do Partido Social Democrático, Luís Pacces Filho, convidou Caiado para assumir a candidatura presidencial da sigla.
A filiação foi formalizada em 3 de julho de 1989, e a candidatura homologada poucos dias depois, em convenção marcada por um grande churrasco no Parque da Cidade, em Brasília. A coligação recebeu o nome simbólico de “União Campo Cidade” (PSD–PDN). Confira a campanha divulgada na época:
Um PSD muito diferente do atual
Apesar de compartilhar o nome, o PSD de 1989 não tem relação orgânica com o partido atual. Fundado em 1987, o antigo PSD reunia majoritariamente ex-integrantes do regime militar e chegou a cogitar o lançamento do general João Figueiredo, último presidente da ditadura.
A legenda existiu até 2003, quando foi incorporada pelo PTB (atual PRD). Era um partido médio, sem capilaridade nacional expressiva e com papel periférico na disputa presidencial.
Segundo informações do Estadão, com cerca de cinco minutos no horário eleitoral, Caiado encerrou a eleição em décimo lugar, com aproximadamente 488 mil votos, algo entre 0,68% e 0,72% do total, conforme a contagem oficial da época. No segundo turno, apoiou Fernando Collor, vencedor da disputa contra Lula.
O vice, o discurso e o pós-eleição
O vice da chapa foi Camilo Calazans de Magalhães, ex-presidente do Banco do Brasil, indicado originalmente por Tancredo Neves. A composição buscava dar densidade técnica e institucional à candidatura, que ainda assim permaneceu restrita a nichos específicos do eleitorado.
Apesar da derrota, a eleição de 1989 marcou a estreia de Caiado em disputas majoritárias nacionais. No ano seguinte, ele se elegeu deputado federal por Goiás, iniciando uma carreira parlamentar longeva, com cinco mandatos na Câmara, um no Senado e, mais tarde, dois mandatos como governador.
2026: o retorno ao PSD em outro patamar
A filiação de Caiado ao PSD de Gilberto Kassab, em 2025, ocorre em um cenário completamente distinto. Fundado em 2011, o novo PSD se consolidou como uma das maiores forças do país, participando dos governos Dilma Rousseff, Michel Temer e Lula.
Hoje, a sigla:
- lidera o número de governadores (seis);
- possui 886 prefeitos;
- detém a segunda maior bancada do Senado, com 13 parlamentares.
Diferentemente de 1989, Caiado chega ao PSD como governador reeleito, liderança nacional do campo conservador e figura central na reorganização da centro-direita fora da órbita direta do bolsonarismo.
Garantias, método e projeto nacional
A mudança de partido foi acompanhada de garantias claras. No acordo com Kassab, Caiado recebeu:
- acesso integral à estrutura de financiamento eleitoral;
- liberdade para montar sua chapa;
- autonomia para costurar alianças regionais.
A definição do candidato presidencial não será feita por prévias, mas por um colegiado restrito, formado por Kassab, Jorge Bornhausen, Guilherme Afif Domingos e Andrea Matarazzo, modelo que evita disputas públicas prolongadas e se alinha ao perfil pragmático da sigla.
Além de Caiado, o PSD abriga outros dois governadores presidenciáveis: Ratinho Júnior (PR) e Eduardo Leite (RS). Kassab garante que o partido terá candidatura própria em outubro, enfrentando Lula e Flávio Bolsonaro.
Paralelos e contrastes entre 1989 e 2026
Em 1989, Caiado buscava um partido para viabilizar uma candidatura. Em 2026, o partido o vê como ativo estratégico nacional. Antes, era um líder corporativo tentando romper a bolha do agronegócio; agora, é um gestor estadual com projeção nacional e discurso institucionalizado.
Se antes o PSD era uma legenda improvisada em meio ao caos partidário da redemocratização, hoje é uma engrenagem central do sistema político brasileiro.
Curiosidades:
- Caiado tinha 39 anos ao disputar a Presidência em 1989; completou 40 durante a campanha.
- O número eleitoral usado por Caiado foi o 51, herdado do PDN, número que hoje pertence a outro partido.
- A convenção do PSD em 1989 ficou marcada por um grande churrasco, símbolo da identidade ruralista do candidato.
- O vice de Caiado, Camilo Calazans, foi presidente do Banco do Brasil entre 1985 e 1988.
- Após a derrota presidencial, Caiado se tornou o deputado federal mais votado de Goiás em 1990.
- O PSD atual nunca lançou candidato próprio à Presidência e em 2026 pode ser a estreia.
- Embora tenham o mesmo nome, os dois PSDs pertencem a momentos históricos, ideológicos e estruturais completamente distintos.
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