19 de maio de 2022
Lênia Soares

Brincando com fogo, com rabo de palha

Apesar de fazer parte de uma minoria na Câmara Federal, a que se recusou assinar o requerimento para instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigará o relacionamento entre políticos brasileiros e o contraventor Carlinhos Cachoeira, o deputado federal goiano Armando Vergílio (PSD) foi um dos últimos indicados para compor o grupo de investigações.

O PSD fez acordo com os partidos e resolveu apresentar os nomes do deputado goiano e do deputado José Carlos Araújo (BA). Também foram indicados os suplentes Roberto Santiago (SP) e César Halum (TO). A polêmica ficou por conta do goiano, que não apoiou instalação da Comissão e que pertencente ao Estado das cachoeiras.

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Uma das menores contradições no histórico político do deputado, no entanto, é a ausência da assinatura na CPMI que participará. Ao menos a mais fácil de explicar. Difícil será encontrar justificativa para seu envolvimento pessoal com o contraventor e com o senador Demóstenes Torres, evidenciados pelas doações vultosas que recebeu de empresas pertencentes aos sócios dos investigados em sua campanha eleitoral de 2010.

Um pequeno recorte de sua odisséia pode ser feito em 2009 quando era superintendente da Susep, autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda que atua no controle e fiscalização do mercado de seguros privados. Armando Vergílio ocupava o cargo quando o órgão leiloou o Hotel Nacional do Rio de Janeiro por duas vezes, baixando seu preço de R$ 118 milhões para R$ 84 milhões com a justificativa de falta de compradores

Quem arrematou o lance do hotel projetado por Oscar Niemeyer e desativado desde 1995, foi o empresário Marcelo Limírio, principal acionista individual do grupo Hypermarcas. O empresário é sócio direto de Cachoeira na empresa ICF, responsável por testes de laboratórios, e do senador Demóstenes em uma universidade no interior de Minas Gerais.

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A venda, com desconto de R$ 33 milhões, foi realizada meses antes da saída de Vergílio do órgão para o lançamento de sua candidatura à Câmara Federal. O deputado teve sorte, recebeu quantias generosas de empresários, inclusive do comprador do Hotel Nacional, que acreditavam em seu potencial político. Quem não acredita muito nesta história é o cidadão, mas isso… deixa pra lá.

A empresa SS Comércio de Cosméticos contribuiu com R$ 100 mil por meio de uma doação eletrônica. A SS pertence ao grupo Hypermarcas, o do empresário Limírio. As doações não pararam por aí, também compartilharam da maré de generosidade as empresas Porto Seguro (R$300 mil), Banco Pottencial (R$ 200 mil), Itaú Unibanco (R$ 100 mil), Liderança Capitalização (R$ 100 mil) e GPS Corretora de Seguros (R$ 100 mil), todas alvos de operações de fiscalização comandadas pela Susep no ano de 2009.

PREFEITURA

Outro projeto político apresentado pelo deputado Armando Vergílio era disputa pelo pleito do Executivo municipal. Era, pois tudo indica que são águas passadas. Ao ser indicado à CPI do Cachoeira o deputado se deparou com a inviabilização de sua articulação política neste momento de pré-campanha eleitoral.

O segundo nome mais cotado dentro do partido, ao menos oficialmente, já que Armando é presidente metropolitano da sigla, é o do deputado Francisco Júnior. O ex-peemedebista tem ganhado destaque na mídia regional e entre os próprios companheiros de partido, que acreditam no seu carisma como fator decisivo.

Francisco Júnior conta com um forte eleitorado religioso, além da simpatia entre os membros da legenda. Armando conta com o respaldo financeiro e com a hierarquia pessedista.  O favoritismo, porém, pode pender para o lado da igreja, já que até o momento esta instituição não foi citada pelo grupo da contravenção.

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