18 de fevereiro de 2026
AGRONEGÓCIO

Boi gordo: como o clima interfere diretamente nas cotações

Chuvas irregulares e períodos de seca alteram o ritmo de engorda, a oferta de animais e pressionam as cotações do boi gordo ao longo do ano.
Condições climáticas afetam diretamente a oferta de boi gordo no mercado. Foto: Lenito Abreu / Governo do Tocantins
Condições climáticas afetam diretamente a oferta de boi gordo no mercado. Foto: Lenito Abreu / Governo do Tocantins

O clima é um dos fatores mais determinantes para o comportamento das cotações do boi gordo no Brasil. Chuvas, seca, variações de temperatura e eventos extremos influenciam diretamente a formação das pastagens, o ganho de peso dos animais e o momento de venda, afetando a oferta de boi pronto para abate e, consequentemente, o preço da arroba.

De acordo com análises do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), oscilações climáticas explicam boa parte dos movimentos sazonais do mercado pecuário, especialmente em sistemas de produção a pasto, predominantes no país.

A relação direta entre clima e oferta de boi gordo

No Brasil, a produção de bovinos de corte ainda depende majoritariamente de pastagens naturais ou cultivadas, o que torna o setor altamente sensível às condições climáticas. Quando o regime de chuvas é regular, há maior disponibilidade de forragem, melhor ganho de peso e aumento da oferta de animais terminados.

Em períodos de seca prolongada, a situação se inverte. A qualidade e a quantidade do pasto caem, o ganho de peso diminui e muitos produtores optam por reter os animais, à espera de melhores condições, reduzindo a oferta imediata ao mercado. Esse movimento tende a pressionar os preços da arroba para cima.

Chuvas, pastagem e ritmo de engorda

Segundo a Embrapa Gado de Corte, a produtividade das pastagens está diretamente ligada à regularidade das chuvas. Pasto bem formado acelera o ciclo de engorda e antecipa o envio do boi ao frigorífico.

Em anos de chuvas irregulares ou mal distribuídas, mesmo durante o período considerado chuvoso, o ritmo de engorda se torna desigual. Isso gera descompasso na oferta, com impacto direto nas cotações do boi gordo, especialmente nos meses de transição entre safra e entressafra.

Seca e pressão sobre os preços

A entressafra do boi gordo, normalmente entre o outono e o inverno, coincide com a redução das chuvas em importantes regiões produtoras. Nesse período, a menor disponibilidade de pasto reduz o número de animais prontos para abate.

Relatórios do Cepea indicam que, historicamente, a entressafra é marcada por valorização da arroba, justamente pela combinação de menor oferta e manutenção da demanda por carne bovina. Quando a seca é mais severa que o normal, esse efeito tende a ser ainda mais intenso.

Clima e decisão de confinamento

O clima também influencia decisões estratégicas dos produtores, como a adoção do confinamento ou da semi-confinamento. Em anos de seca antecipada ou prolongada, cresce a procura por sistemas intensivos para manter o ganho de peso.

No entanto, o custo elevado da alimentação, especialmente do milho e do farelo de soja, pode limitar essa alternativa. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), oscilações climáticas afetam tanto a pecuária quanto a produção de grãos, ampliando o risco de custo elevado e reduzindo margens.

Eventos climáticos extremos e volatilidade

Fenômenos como El Niño e La Niña alteram o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do país. Estudos da Embrapa e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que esses eventos aumentam a imprevisibilidade do clima e elevam a volatilidade das cotações do boi gordo.

Chuvas excessivas podem dificultar o manejo e o transporte dos animais, enquanto secas intensas reduzem drasticamente a capacidade de suporte das pastagens, afetando o equilíbrio entre oferta e demanda.

Impacto regional nas cotações

O efeito do clima sobre o boi gordo não é homogêneo. Regiões como Centro-Oeste, Sudeste e parte do Norte respondem de forma diferente às variações climáticas, devido às características das pastagens, genética do rebanho e nível de intensificação da produção.

Esse cenário explica por que, em determinados momentos, as cotações do boi gordo variam significativamente entre estados, mesmo em um mercado nacional integrado.

Como o produtor pode se preparar

Especialistas em gestão pecuária recomendam estratégias para reduzir a dependência do clima, como:

  • planejamento forrageiro;
  • uso de suplementação estratégica;
  • diversificação de sistemas de terminação;
  • acompanhamento constante de previsões climáticas;
  • uso de ferramentas de mercado futuro para proteção de preços.

Essas práticas ajudam a reduzir a exposição aos efeitos climáticos e tornam a produção mais previsível.


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