Blog do Altair Tavares
Altair Tavares
Editor e administrador do Diário de Goiás. Repórter e comentarista de política e vários outros assuntos. Pós-graduado em Administração Estratégica de Marketing e em Cinema. Professor da área de comunicação. Para contato: [email protected] .
Lula: comparecer ou não a debates?
Lula deve comparecer aos debates eleitorais de 2026? Há indicadores já vazados pela campanha dele de que não vai a todos os encontros com os outros candidatos a presidente como em 2022. Para quem está atrás nas pesquisas, o debate é uma oportunidade. Para quem lidera, pode ser uma ameaça. Cada campanha mede os riscos.
O candidato oposicionista que precisa crescer entra no estúdio para provocar, criar uma frase de efeito, produzir um corte para as redes sociais e, quem sabe, sair do anonimato. O candidato que ocupa a Presidência entra para responder pelo governo, pela economia, pelas alianças, pelas promessas não cumpridas e por tudo aquilo que deu errado durante o mandato.
Lula seria o alvo de todos.
Os candidatos menores não precisariam derrotá-lo politicamente. Bastaria produzir uma imagem de fragilidade, uma resposta mal formulada ou um momento de irritação. No ambiente atual, o debate não termina quando as câmeras são desligadas. Ele continua no TikTok, no Instagram, no YouTube e, principalmente, nos grupos de WhatsApp. Lembre-se da “pergunta para o candidato padre”, da senadora Sorya Thronicke, em 2022.
Uma resposta de dois minutos pode ser reduzida a um vídeo de dez segundos. Um gesto pode valer mais do que uma proposta. Uma hesitação pode ser apresentada como incapacidade. A política eleitoral passou a ser disputada também pela edição.
Por isso, existe uma lógica razoável na possibilidade de Lula evitar alguns debates. Quem lidera não tem a mesma necessidade de movimentar a eleição de quem está atrás. A campanha governista pode concluir que o melhor caminho é preservar a vantagem, controlar a agenda e evitar confrontos construídos para beneficiar os adversários.
Essa é a tese da ausência que, inclusive, esvazia o debate.
Mas faltar também produz um custo. E não é pequeno.
A cadeira vazia comunica. Mesmo que a decisão seja estratégica, os adversários dirão que Lula fugiu, que tem medo de responder, que não quer prestar contas ou que considera a eleição já decidida. Na política, a explicação técnica raramente vence a imagem simples.
O presidente ausente seria atacado sem direito à resposta imediata. Os adversários disputariam quem faria a acusação mais dura, enquanto a campanha de Lula teria de reagir depois, por meio de entrevistas, notas oficiais e postagens nas redes sociais.
Lula, por outro lado, tem experiência. Participou de campanhas presidenciais, debates históricos e confrontos políticos de alta pressão. Sabe contar histórias, simplificar temas complexos e estabelecer uma comunicação direta com o eleitor. Em um debate bem preparado, pode transformar a cobrança sobre o governo em comparação entre projetos.
Esse talvez seja o maior benefício de comparecer.
Lula não precisaria convencer ao seu eleitor de que seu governo tem realizações e entregas e não há como convencer os bolsonaristas delas. Precisaria mostrar que a alternativa da direita representa um risco maior para o país. Em uma disputa contra um candidato ligado ao bolsonarismo, o debate poderia ser utilizado para reforçar a polarização que lhe foi eleitoralmente favorável em 2022.
A estratégia seria clara: não debater apenas o presente, mas obrigar o eleitor a comparar futuros.
O problema é que Lula também gosta do improviso. Fala longamente, reage a provocações, abandona respostas previamente preparadas e, muitas vezes, transforma uma pergunta objetiva em discurso político. Essa característica pode produzir grandes momentos, mas também pode gerar erros evitáveis.
O debate exige disciplina. Não basta experiência.
A pergunta correta, portanto, não é se Lula deve participar ou não dos debates. A pergunta é: de quais debates ele deve participar, em que momento da campanha e com qual objetivo?
Faltar a todos seria um erro. Passaria a impressão de medo, arrogância ou incapacidade de defender o próprio governo. Comparecer a todos também pode ser um equívoco, especialmente em encontros fragmentados, com muitos candidatos e formatos que favorecem ataques sucessivos.
A saída mais racional é a participação seletiva.
Lula poderia escolher os debates de maior audiência, os formatos mais equilibrados e os momentos mais decisivos da campanha. Não precisa aceitar qualquer convite, mas também não pode tratar o confronto democrático como um incômodo dispensável.
O primeiro debate tem importância simbólica. É quando a eleição começa a ganhar rosto, voz e confronto. Faltar pode proteger Lula de ataques, mas pode também permitir que os adversários definam a narrativa inicial da campanha.
No segundo turno, a ausência seria ainda mais difícil de justificar. Com apenas dois candidatos, não comparecer significa deixar o adversário sozinho diante do eleitor. Significa abrir mão da comparação direta, da possibilidade de responder e da chance de demonstrar preparo, firmeza e capacidade de reação.
Debates raramente decidem eleições sozinhos. Mas podem mudar o ambiente político. Podem criar dúvidas, consolidar rejeições, mobilizar militâncias e transformar um erro em símbolo.
Para Lula, comparecer oferece risco. Não comparecer também.
A presença pode ampliar uma vantagem. A ausência pode preservá-la. Mas, se for mal explicada ou repetida em excesso, a estratégia defensiva pode produzir o efeito contrário.
Quem lidera não precisa jogar todas as partidas. Mas precisa provar que não está fugindo do campeonato.
