19 de julho de 2026
MEIO AMBIENTE

Andréa Vulcanis detalha ações de Goiás para enfrentar queimadas e incêndios no período de seca

Secretária de Meio Ambiente fala sobre prevenção, brigadas comunitárias, monitoramento por satélite e os desafios do combate aos incêndios florestais durante a estiagem em Goiás
A secretária de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Andréa Vulcanis, durante entrevista ao editor-chefe do Diário de Goiás, Altair Tavares. Foto: Deivison Moura / Semad.
A secretária de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Andréa Vulcanis, durante entrevista ao editor-chefe do Diário de Goiás, Altair Tavares. Foto: Deivison Moura / Semad.

O período de estiagem em Goiás acende um alerta recorrente para o avanço das queimadas e dos incêndios florestais, especialmente entre os meses de julho e setembro, quando a vegetação seca, os ventos intensos e a baixa umidade do ar criam condições favoráveis para a propagação do fogo. O cenário preocupa autoridades ambientais, produtores rurais e moradores de áreas urbanas e rurais, já que os impactos vão desde prejuízos ambientais até perdas econômicas e riscos à saúde da população.

Nos últimos anos, o Estado tem ampliado as ações de prevenção e combate aos incêndios, com investimentos em tecnologia, monitoramento por satélite, brigadas especializadas e estrutura operacional para resposta rápida aos focos de calor. A estratégia busca reduzir os danos causados pelas queimadas, que em grande parte dos casos têm origem em ações humanas, seja por manejo irregular do fogo, queimadas ilegais ou descuidos cotidianos.

Em entrevista concedida ao editor-chefe do Diário de Goiás, Altair Tavares, a secretária de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Andréa Vulcanis, detalhou as medidas adotadas pelo Governo de Goiás para o enfrentamento do período seco, falou sobre o trabalho das brigadas comunitárias, o uso de tecnologia no monitoramento ambiental e esclareceu dúvidas sobre fiscalização ambiental e alertas de desmatamento. Confira na íntegra:

Entrevista Andréa Vulcanis:

Altair Tavares: Secretária, nós temos hoje muitas preocupações em relação ao período mais seco. Já estamos nele, com a probabilidade de que teremos um enfrentamento mais delicado. A senhora já passou por esses períodos e já enfrentou essas situações. Essa experiência traz que tipo de preocupação para este ano especificamente?

Andréa Vulcanis: Bom, o período seco sempre é um período delicado. A gente está falando, notadamente, dos incêndios florestais. E acho que a grande situação posta diante dos incêndios é que, em 95% dos casos, eles são sempre eventos provocados por uma ação humana.

Ou seja, nós temos pessoas manejando fogo na natureza em diversas condições. Às vezes é um lixo no quintal, às vezes a pessoa resolve fazer um churrasco. Especialmente na época do auge da seca, julho, agosto e setembro, a gente tem um processo de ventos e esses ventos acabam alastrando as faíscas, provocando danos bastante graves.

A gente fala de biodiversidade, fauna e flora, mas falamos também de danos econômicos. O que mais temos visto ao longo desses anos é a perda, às vezes, de fazendas inteiras, tanto de gado quanto de agricultura.

Perde-se, às vezes, 20 ou 30 anos de construção de solo a partir do plantio direto, que acaba queimado. Tivemos fazendas inteiras de cana-de-açúcar prejudicadas. Vinculada a isso, há ainda a emissão dos gases de efeito estufa. Ou seja, mais emissões significam mais débitos de carbono para o Brasil.

Quando queima, libera carbono na atmosfera e isso gera um ciclo muito perverso em todos os sentidos. Para o meio ambiente é ruim, para as pessoas é ruim, para a economia é ruim e para o clima também. Essa é a nossa grande preocupação.

Todos os anos o governo tem um programa, junto com o Corpo de Bombeiros, que está à frente do processo de combate. Seguimos incrementando essas frentes de combate e este ano temos uma novidade importante.

Esses ciclos de fogo acontecem assim: temos um ano de muito fogo, muito incêndio, depois passam dois ou três anos com menos ocorrências e depois aquilo volta.

Altair Tavares: Isso é um ciclo histórico. De muito fogo para pouco fogo.

Andréa Vulcanis: Exatamente. Tivemos 2024 com muito fogo, 2025 com menos e agora em 2026 não tem muito como prever se será muito ou pouco. Mas 2024 foi um ano bastante intenso, com notícias no Brasil inteiro.

E por que isso acontece? Porque a vegetação nativa, ou qualquer outra vegetação, vai aumentando a biomassa, que são as folhas secas, galhos e outros materiais orgânicos. Quando tem muita biomassa seca no período de estiagem, qualquer faísca coloca fogo e aquilo ganha muita força, queimando áreas muito extensas.

Essa é uma dinâmica do Cerrado e dos processos naturais que precisamos observar.

E onde esse fogo acontece? Em propriedades privadas e públicas. Quando falamos de áreas públicas, estamos falando das unidades de conservação, parques, reservas biológicas e áreas de proteção ambiental. Mas mais de 90% desse fogo acontece em terras privadas.

Nessas terras privadas há áreas de produção e também áreas de conservação, como reservas legais e áreas de preservação permanente.

Na Secretaria de Meio Ambiente temos uma atuação muito forte nas unidades de conservação, afinal são áreas sob nossa gestão. Ao longo desses anos reduzimos em quase 98% as áreas queimadas nessas unidades. Tivemos unidades de conservação que deixaram de queimar.

E qual foi o “milagre”? Antes queimava todo ano. Hoje temos brigadas, drones, equipamentos e prevenção. Neste período estamos fazendo ações preventivas em todas as unidades.

Altair Tavares: O que é fazer prevenção?

Andréa Vulcanis: Abrir aceiros, fazer aceiro negro. O aceiro negro é aquele em que a gente faz uma queima controlada da gramínea que fica ali. Quando o fogo chegar naquele ponto no período mais seco, ele não terá biomassa para consumir e morre ali.

Essa foi a ação do Estado de Goiás nas unidades de conservação. Então, nessa parte, estamos muito seguros.

No período seco, as brigadas ficam monitoradas eletronicamente. Temos um aplicativo que informa ao brigadista, e até para qualquer um de nós, quando um ponto de calor é detectado pelo satélite. Imediatamente isso cai no sistema e o brigadista já se desloca para o local.

Altair Tavares: Comparando com o início do governo Caiado, essa tecnologia não existia?

Andréa Vulcanis: Não existia nada disso. Não tinha brigada, prevenção, equipamento, EPI, nada. Então tudo queimava.

Altair Tavares: Só tinha fogo?

Andréa Vulcanis: Tinha fogo e nenhum investimento. Os nossos parques queimavam quase inteiros todos os anos.

Estruturamos um processo rigoroso e é importante dizer que o Cerrado tem uma dinâmica própria. Ele queima naturalmente por causa de raios e outros processos naturais. Há registros de animais carregando pequenas faíscas.

O Cerrado é um bioma que aprendeu a lidar com o fogo. Inclusive, boa parte das espécies do Cerrado só nasce depois que o fogo passa. O fogo quebra a dormência das sementes.

Mas o problema é o fogo provocado pelo ser humano no auge da seca. Esse é um fogo muito intenso, muito quente. Em vez de quebrar a dormência, ele mata as sementes e destrói a vegetação.

Os animais sofrem muito também. Os pequenos, principalmente, acabam morrendo porque não conseguem fugir rapidamente.

O nosso trabalho é minimizar os danos e evitar os incêndios criminosos, mas sabendo que existe um fogo natural que pode acontecer. No ano passado, por exemplo, houve um incêndio natural no Parque Estadual da Serra Dourada, provocado por raio.

Altair Tavares: Veadeiros sofre muito também.

Andréa Vulcanis: A Chapada dos Veadeiros sofre todos os anos porque há muita gente mexendo com fogo na região.

E o que fizemos neste ano? Estamos incrementando o esforço das brigadas. Antes fazíamos licitações para contratar brigadas para os parques. Isso é muito caro do ponto de vista financeiro.

Então buscamos uma novidade única no Brasil: um programa de pagamento por serviços ambientais para brigadas comunitárias.

Estamos falando de pessoas que se voluntariam para trabalhar no combate ao fogo. Já existem muitas no Estado, principalmente no Nordeste Goiano, onde há mais remanescentes de vegetação nativa.

Há anos essas brigadas vivem pedindo apoio, largando suas atividades para combater incêndios, por amor ao Cerrado.

Altair Tavares: Fazendo um favor...

Andréa Vulcanis: Exatamente. Prestando um serviço para o Estado, para o meio ambiente, para Goiás e para o Brasil.

Então pensamos: vamos capacitar essas pessoas e pagar pelo serviço ambiental que elas prestam.

Só que combater fogo é algo delicado. A pessoa precisa de preparo, treinamento e resistência física. Não é qualquer um que aguenta entrar em uma mata e passar horas combatendo incêndio. É uma atividade duríssima física, mental e emocionalmente.

Altair Tavares: Quantos brigadistas?

Andréa Vulcanis: Estão em capacitação agora 180 brigadistas. Fizemos uma pré-seleção em municípios do Nordeste Goiano, onde há maior incidência de fogo, como a região da Chapada.

Primeiro verificamos as condições físicas dos candidatos. Agora todos entram em capacitação junto ao Corpo de Bombeiros e à Semad.

Essas pessoas se voluntariaram para prestar o serviço. Muitas estavam sem emprego ou em ocupações subvalorizadas e viram nisso uma oportunidade de trabalho entre julho e novembro, ajudando na prevenção e no combate.

Altair Tavares: E com fogo ou sem fogo eles recebem?

Andréa Vulcanis: Nesse período crítico, sim. Todos os anos declaramos situação de emergência já prevendo o cenário.

Eles recebem por diária trabalhada e ficam de plantão. Se houver ocorrência, precisam estar prontos, vestidos, alimentados e preparados para sair imediatamente.

Além disso, estamos oferecendo alimentação e seguro de vida, porque é uma atividade de risco.

Altair Tavares: A senhora falou da informação digital. Como funciona essa conexão entre a área de controle e as brigadas?

Andréa Vulcanis: Vamos ter bases locais. Nessas bases existe toda uma estrutura de computação. Os alertas chegam pelo aplicativo que desenvolvemos e mostram até o caminho que o brigadista deve percorrer para chegar ao ponto de calor.

Altair Tavares: O aplicativo é só para o brigadista?

Andréa Vulcanis: Exatamente. Para pessoas selecionadas.

Altair Tavares: Mas em locais sem internet, como funciona?

Andréa Vulcanis: Nós temos Starlink.

Altair Tavares: Ou seja, a rede continua operando.

Andréa Vulcanis: Sim. O brigadista não pode ficar sem comunicação.

Altair Tavares: O tempo de resposta é crítico.

Andréa Vulcanis: Muito crítico. Quanto antes chegar, mais fácil controlar o incêndio antes que ele saia do controle.

Então há veículo, brigada e toda uma estrutura. Se houver foco de incêndio, alguém fica no plantão, alerta os demais e todos saem rapidamente para o combate.

Altair Tavares: E o enlace com o Corpo de Bombeiros também existe?

Andréa Vulcanis: Sim. Toda a coordenação é feita por um bombeiro militar, incluindo logística e operação.

Altair Tavares: O ano passado não tinha esse serviço?

Andréa Vulcanis: Não. Este é o primeiro ano desse modelo. Antes tínhamos apenas brigadas contratadas por licitação para as unidades de conservação.

Agora estamos ampliando o território de atuação porque temos mais pessoas trabalhando.

Altair Tavares: Esses 180 brigadistas estão apenas no Nordeste Goiano?

Andréa Vulcanis: Sim. Em municípios como Alto Paraíso, Cavalcante, Nova Roma e São Domingos, por causa de Terra Ronca.

Este é um projeto piloto. Vamos avaliar os resultados e, se der certo, ampliar o programa.

Altair Tavares: A educação e orientação das pessoas continuam sendo necessárias?

Andréa Vulcanis: Sim. Fazemos campanhas de mídia todos os anos, em rádio, outdoor e outros meios. O alerta precisa ser feito o tempo todo.

Altair Tavares: Aproveitando para esclarecer uma dúvida: muitos agropecuaristas divulgam vídeos dizendo que a fiscalização ambiental agora monitora tudo por satélite e que até se o boi for beber água na nascente o produtor será multado. Isso é verdade?

Andréa Vulcanis: Vamos entender isso.

Hoje temos controle eletrônico sobre todo o território por meio de alertas de desmatamento. Existem mais de 18 satélites fazendo esse monitoramento.

O satélite faz leituras da vegetação. Se em uma passagem havia vegetação e na seguinte aparece uma abertura, ele envia um alerta.

A tecnologia melhorou muito. Antes a acurácia era baixa. Hoje as imagens são muito detalhadas.

Quando o produtor fala do boi bebendo água, estamos falando das áreas de preservação permanente, as APPs. O Código Florestal determina que essas áreas não podem ter atividade produtiva.

O produtor pode levar a água até o gado ou fazer um corredor cercado para o animal acessar a água sem degradar a margem.

O problema é quando o gado entra livremente, pisa, abre clareiras e degrada a vegetação. O satélite detecta isso.

Mas há exageros e terrorismo em alguns discursos. A fiscalização ambiental não é uma inimiga.

Temos em Goiás um diálogo muito importante com o setor produtivo. A legislação ambiental precisa ser cumprida.

O alerta de desmatamento nem é produzido pelo Estado. Ele vem do INPE e de outros sistemas.

Altair Tavares: Essa informação se conecta com licenciamentos já existentes?

Andréa Vulcanis: Sim. O satélite detecta o desmatamento, mas não sabe se há autorização ou não.

Então o órgão ambiental verifica se existe licença para aquela área. Só depois de uma análise técnica é que pode haver embargo ou auto de infração.

O problema é que o Banco Central criou uma norma para os bancos que financiam produtores rurais dizendo que basta existir um alerta para bloquear financiamento.

Altair Tavares: Isso é injusto.

Andréa Vulcanis: É injusto e equivocado. Os Estados foram contra isso porque antes de gerar prejuízo ao produtor é preciso verificar se houve irregularidade ou não.

Mas hoje basta o alerta para o banco negar crédito. Depois o produtor precisa correr atrás para provar sua legalidade.

Altair Tavares: Fica então a orientação: retirada de vegetação e desmatamento só com autorização e licença.

Andréa Vulcanis: Exatamente. E existe também a questão da limpeza de pasto.

Muitas áreas foram abertas há décadas e depois abandonadas. Se a área ficou até cinco anos sem uso, ainda pode ser considerada passível de limpeza mediante autorização.

Passando de cinco anos, a legislação entende que houve regeneração da vegetação e aí é necessária licença de supressão vegetal.

Muitos produtores desconhecem isso e acabam cometendo irregularidades sem intenção. Às vezes recebem orientação errada até de responsáveis técnicos.

Altair Tavares: A limpeza de pasto é diferente disso?

Andréa Vulcanis: Sim. Pasto que continua sendo pasto, sem regeneração de vegetação nativa, pode ser manejado normalmente.

Mas se a área regenerou, precisa de autorização. Esse processo é rápido, leva cerca de 10 a 15 dias, mas é necessário para verificar a situação da área.


Leia mais sobre: / / / / Cidades / Notícias do Estado