14 de junho de 2024
Lênia Soares

Afinal, Deus está do lado de quem?

A campanha eleitoral dos pré-candidatos ao governo de Goiás segue, antecipadamente, na contramão das manifestações e protestos contra a submissão das decisões políticas às bancadas religiosas.

Reivindicações por um Estado laico à parte, os principais representantes das três vias neste pleito pelo Executivo goiano se apegam a um mesmo cabo eleitoral de peso: Deus.

O ex-prefeito de Senador Canedo Vanderlan Cardoso (PSB) constrói sua pré-candidatura baseada, principalmente, em visitas a igrejas, em especial evangélicas. Foi ele mesmo que, na eleição passada, chegou a comentar com aliados que tinha tido uma revelação Divina de que seria governador de Goiás. Como não foi eleito, ponderou que o vaticínio continuava válido, mas com perspectivas futuras.

        

 

Iris Rezende (PMDB), em 2010, anunciou sua candidatura de forma apoteótica. Numa coletiva de imprensa, disse que disputaria o cargo em resposta a um chamado de Deus. Agora, em 2013, voltou a invocar a proximidade e a iluminação Divina para indicar que vai novamente para o embate.

O governador do Estado, Marconi Perillo (PSDB), também ajoelhou-se. Recorrentemente o tucano usou fotos suas em igrejas e em comunhão com Deus, como na Festa do Divino, para demonstrar sua sintonia com o Pai. Acredita-se um abençoado. Por Deus, ou não, foi bendito nos últimos pleitos. Ganhou.

Em tudo, um pano de fundo que aposta nas bancadas religiosas que representam, hoje, uma grande maioria na esfera pública. Só na Câmara Federal, por exemplo, os fiéis contabilizam 40% dos deputados. Todos eleitos democraticamente como representantes de um Estado Constitucionalmente laico.

Que se cuidem os infiéis!

O empresário José Batista Júnior (PMDB) e o prefeito de Anápolis, Antônio Gomide (PT), que pouco parecem dar atenção à agenda Divina na pré-campanha, podem ficar de fora. Se não estão com Deus (cadê a agenda Divina? As fotos nas igrejas?), ou com os deuses, estão com nada. Ou não?

É certo que Deus escreve por linhas tortas. Vá entender. E Ele está em todo lugar. Onipresente.

Por exemplo: se macumba valesse, os jogos de futebol do campeonato baiano só terminariam empatados. Certo, isso está mais para ditado popular. Sabedoria que não é minha. Mas a voz do povo não é a voz de Deus?

O que há de concreto é que Deus é um bom cabo eleitoral, mas seus desígnios são misteriosos. 

De minha parte, vejo que há dúvida de como Deus participa dos governos, e em relação ao de Marconi, em especial. Ele indicou cargos? Zela pela moralidade nas ações do governador? Então é isso?

A realidade mostra que, passada a eleição, o puxador de votos, Deus, sempre é deixado de lado, fica esquecido, como aliado inconveniente com sua doutrina e ética que, na prática, inviabilizaria acordos, negociatas, propinodutos e corrupção em geral.

Poxa, Deus, livrai-nos desse mal, amém!

Ou tudo não passa de um grande equívoco.

O deus evocado pelos políticos não é Deus, com D maiúsculo. É o deus da demagogia, por isso abençoa o mais esperto, aquele mais disposto a prometer para não cumprir, a falar uma coisa e fazer outra, a estar sempre disposto a um bom acordo de ocasião que lhe garanta mais e mais poder, a fazer o que for preciso para se perpetuar no comando do cofre e das negociações.

E se é verdade que o povo tem sempre o governante que merece, então talvez quem precisa se apegar com o Pai não são os candidatos, e sim a população.

Que Deus nos acuda!


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