27 de maio de 2022
Economia

“A qualidade do ajuste fiscal está longe do que gostaríamos”, diz economista Zeina Latif

Zeina Latif é a economista-chefe da XP Investimentos. (Fotos: Estadão Conteúdo)
Zeina Latif é a economista-chefe da XP Investimentos. (Fotos: Estadão Conteúdo)

A economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, explicou, em entrevista ao Diário de Goiás, que alguns pontos do ajuste fiscal ainda poderiam ser melhorados. Para a economista, o governo federal demonstrou criatividade com algumas das medidas anunciadas nesta segunda-feira (14), mas é necessária a flexibilização dos gastos. Ela participou em Goiânia de palestra para convidados da Centro Norte Investimentos.

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Leia a entrevista na íntegra:

Altair Tavares: Na exposição, você afirmou que o ajuste fiscal é a única saída. O que o governo fez agora de ajuste fiscal é suficiente?

Zeina Latif: A qualidade do ajuste fiscal está longe daquilo que gostaríamos. Primeiro que, de novo, a gente vai ter aumento de carga tributária, se é que vai ser aprovado pelo Congresso. A outra, ele ainda não consegue avançar em cortes de despesas obrigatórias, quer dizer, flexibilizar as regras atuais, algumas previstas em Constituição, flexibilizar os gastos para que a gente possa cortar despesas obrigatórias. As tais despesas discricionárias, que é onde o governo tem controle, que é pouco mais de 10% do total dos gastos, é muito pouco. O grosso a gente já cortou. Algumas medidas mostraram alguma criatividade do governo, das medidas anunciadas ontem [segunda-feira, 14]. Não sei se funcionam, mas têm algumas coisas interessantes como, por exemplo, essa questão de vincular emenda dos parlamentares para gasto com saúde. Essa é uma forma de flexibilizar a regra de saúde, que é muito rígida. Uma coisa que eu achei interessante também é a transferência de recursos do Sistema S para investimentos. Enfim. Eu acho que o governo ainda está devendo em termo de medidas mais estruturais. Eu preferiria que tivesse avançado nisso e não no aumento de carga tributária. O que a literatura mostra, quer dizer, essa arrumação da macroeconomia que a gente precisa, tanto para reduzir a inflação como para pensar em dinâmica da dívida, o ideal era a gente ter avançado na questão das despesas, porque senão toda hora a gente vai ter que criar uma CMPF. Se a gente não der conta de conter despesas, esse crescimento das despesas obrigatórias, significa que de tempos em tempos a gente vai ter novas rodadas de aumento de carga tributária.

Altair Tavares: Com o Congresso criando novas despesas, com reajuste de servidores e resistente a essa situação, temos um conflito político muito forte. Não?

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Zeina Latif: A postura do Congresso nessas tais pautas-bomba é uma postura irresponsável, que nos empurra ainda mais para o abismo. São medidas que têm um cunho populista, mas que hoje a última coisa que a gente precisa é o populismo. A gente precisa eliminar isso, se afastar disso e fazer um ajuste fiscal que dê sustentabilidade para a nossa dívida, que arrume a macroeconomia. É uma postura, ao meu ver, irresponsável e que já está nos custando caro. Parte da perda do Investiment Grade pela S&P tem a ver com essa postura do Congresso.

Altair Tavares: Qual é a perspectiva sobre essa recuperação do grau de investimento?

Zeina Latif: Acho muito pouco provável isso acontecer rapidamente. Acho que vão ser anos aí. Acho que a decisão da S&P, infelizmente, reflete o real risco da economia brasileira. Ou a gente dá uma arrumada e rapidamente avança nessa agenda do país de resolver a questão fiscal, de permitir volta do crescimento – e essa tentativa de aumentar tributos atrapalha -, eu acho que a gente ainda vai ter um tempo pela frente. Até porque o quadro político não ajuda. Nós não estamos em um momento de renovação política que permite, portanto, a própria renovação da agenda econômica. É mais difícil renovar a agenda econômica nesse ambiente político. Então, infelizmente, eu acho que a gente vai ter mais dificuldade. Outro ponto que é importante é o seguinte: hoje o cenário internacional é mais desafiador que há um ano. Hoje a gente tem um cenário internacional que é de maior fragilidade de países emergentes. Ou seja, o risco da economia brasileira aumentou, sim. E isso dificulta também a recuperação do Investiment Grade. Se a gente estivesse em um quadro daquele crescimento mundial, do comércio, dos emergentes fortes, enfim, ia ser muito mais fácil a gente se ajustar, não ia ter que fazer tanto esforço e, obviamente, ia ficar mais fácil de a gente melhorar nossa percepção de risco. E, finalmente, acho que foi muito ruim esse enfraquecimento do ministro da Fazenda [Joaquim Levy]. Essa visão de fragilidade que é hoje vista em relação ao ministro, pelos investidores, analistas e empresários, ainda que seja um ministro habilidoso, competente, um economista talentoso, o fato é que isso também cobra seu preço. A imagem do Brasil está arranhada. Acho que recuperar o Investiment Grade pela S&P vai ser difícil. Hoje a gente tem que tomar cuidado para não perder o Investiment Grade de outras agências.               

Altair Tavares: Você afirmou que o debate essencial é o das contas públicas. O que significa isso?

Zeina Latif: A gente tem hoje um Estado muito inchado, muitas políticas, eu tenho certeza, que foram bem-intencionadas, mas que hoje nos amarram, ameaçam a solvência da dívida, reduzem a eficiência da economia. Um exemplo: antigamente as pessoas diziam “Essa foi uma boa política”, mas hoje a gente precisa repensar, como a política do salário mínimo. A política de recomposição do salário mínimo começou com o Fernando Henrique e com o Lula ganhou impulso. Foi uma política importante para melhorar a distribuição de renda, teve seus benefícios. Só que a gente observa agora que o valor do salário mínimo já está muito mais compatível com a experiência mundial. Se a gente insistir em dar ajustes tão fortes, e no ano que vem a gente vai dar um ajuste muito forte, de 9,8%, em um quadro em que a gente não está tendo ganho de produtividade na economia, hoje essa política está trazendo mais problemas e custos do que benefícios. Porque você dá em uma mão e tira na outra, por causa da inflação alta, da queda no emprego. E fora todas as consequências para a Previdência [Social], que acabam atrapalhando também o equilíbrio das contas públicas. Então, reavaliar as políticas públicas no Brasil sem ideologia, de forma lúcida, o custo benefício de cada política e, com transparência, passar isso e discutir com a sociedade é essencial. Eu me lembro de uma na época da campanha eleitoral, observando os discursos da candidata Dilma, naquele momento, o que a gente via é que tinha política para tudo quanto é lado. Qualquer pergunta que fizesse a ela nos debates, ela respondia que tinha a política A, B, C, D, F. Não funciona. Não está funcionando. A gente precisa ter lucidez de enxergar que a maioria das políticas no Brasil não tem o devido cuidado, não tem o devido controle, a gente não sabe quanto custa, a gente não tem metas estabelecidas. A sociedade como um todo, tem políticas que um grupo se beneficia, mas a sociedade como um todo está pagando e nem sabe que está pagando. Se você perguntar para uma pessoa se ela é a favor de uma universidade pública, ela vai falar “Sou”, mas se você contar para ela quanto custa cada aluno e verificar se aquele aluno precisa mesmo daquele incentivo ou se poderia ter um esquema de bolsas e financiamento, será que a resposta das pessoas seria a mesma? Então, a gente precisa ter mais transparência em relação às políticas públicas, tanto de gastos quanto de proteções e subsídios para a sociedade poder decidir o que quer. O que não dá é para a gente ficar nesse Estado inchado, que atrapalha a vida do empresário, prejudica a distribuição de renda em um país que tem tantas vulnerabilidades, tantos desafios sociais. Então, sim, que a crise fiscal sirva como uma forma de a gente reavaliar a ação do Estado na economia.

Altair Tavares: Qual foi a situação chave pela qual perdemos o grau de investimento?

Zeina Latif: Eu acho que o último mês foi decisivo, porque o discurso da S&P foi muito claro. O discurso foi: “Nós vemos compromisso do governo em relação ao ajuste fiscal, mas nós vemos um risco na execução porque o governo não está conseguindo fazer a articulação, não só para eliminar, evitar pautas-bomba, mas também para avançar na sua agenda. Atingiu uma ‘fadiga’ de reformas muito cedo”. Esse era o discurso, muito claro. O que aconteceu no último mês? A gente mostrou que não está tão convicto assim da necessidade de ajuste fiscal. A gente mandou um déficit de orçamento do ano que vem sem nenhuma medida naquele momento para corrigir, sendo que duas semanas antes, tinha falado que a meta era de 0,7% do PIB para o ano que vem. Então, veja, foi uma confusão muito grande, coordenação de expectativas muito ruim, enfraquecimento do ministro, tudo isso sinalizando que o Brasil não estava, que o governo não estava com tanta convicção assim, como as agências, como a S&P acreditava em relação à necessidade do ajuste. Isso eu acho que foi a gota d’água. 

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