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Desde as eleições americanas passadas as notícias falsas – Fake News – se popularizaram e vêm sendo estudadas como um fenômeno da política e da comunicação. Os resultados desses estudos começam a vir a público: as tecnologias avançaram mais rápido que nossos hábitos para lidar com ela. Confiamos em fotografias digitalmente alteradas, somos ruins em discernir publicidade e artigos patrocinados de jornalismo independente, não suspeitamos de viés político no discurso de grupos de ativistas, e geralmente não conferimos as fontes.

As mídias sociais adicionaram um elemento a mais na já complexa situação: segundo o relatório da Agência Reuters sobre notícias digitais em 2017 o Brasil está em primeiro lugar no pódio dos países que mais compartilham notícias online, e a plataforma preferida dos brasileiros para isso é o Facebook. Essa rede já era utilizada pelos veículos de informação porque é lá onde estão os leitores, mas Mark Zuckerberg recentemente formou parcerias com produtores de notícias, pagando organizações como a National Public Radio para produzir conteúdo, fazendo sua rede social ser a mais poderosa distribuidora de notícias do mundo.

Esse ambiente fértil para cliques fez com que críticos apontassem as Fake News de Facebook como uma das principais responsáveis pelo resultado das últimas eleições americanas. E, embora Zuckerberg rejeite essa ideia, ele se preocupou o suficiente para mudar regras nas postagens, ajudando a coibir um pouco a propagação de notícias falsas. De fato, os maiores produtores de notícias falsas no Brasil utilizam principalmente o Facebook como ferramenta de distribuição. O funcionamento dessa rede tem a ver com o compartilhamento de boatos porque os algoritmos utilizados fazem com que os usuários recebam em seus feeds um conteúdo semelhante ao que já curtiram antes, favorecendo assim o viés de confirmação – que é a tendência a aceitar sem questionamento as informações que reafirmam nossas visões de mundo prévias. Como recebemos material com que já concordamos, ficamos isolados em uma bolha de conteúdo que corrobora nossa opinião.

Em uma reportagem, a Folha de São Paulo, conversou com um grande produtor de Fake News brasileiro. Beto Silva, dono do portal Pensa Brasil, tem números impressionantes e alcançou o sucesso rapidamente. O inventor de fatos afirma coisas como: “quem tem de saber o que é verdade ou mentira é quem lê a matéria”; “Não existe verdade absoluta a não ser que vire uma ditadura e que a grande imprensa diga o que pode ou não”.  Ele também afirma: "tudo é dinheiro. Ninguém faz isso para contar historinha. Folha de S.Paulo, Veja, Globo, ninguém faz matéria porque gosta, é atrás do dinheiro que todo mundo está correndo."

Seu discurso parece ressoar em parte dos leitores. Um comentário na matéria diz: “a grande mídia é a produtora profissional de fake news e agora que surgiram os farsantes amadores, está preocupada com a concorrência.” O relatório da Reuters sobre notícias digitais ajuda a entender porque essa concepção se alastra: neste momento de crise o Brasil apresenta grande incredulidade no governo e nas instituições. 40% dos brasileiros afirmam não confiar na mídia e a suspeita de manipulação deliberada é uma constante.  Isso não é necessariamente negativo, mas se o ceticismo não for  acompanhado de interesse e método, se transforma em um cinismo vazio: “acredito que a verdade não existe. Existe o ponto de vista da Folha, cada um tem o seu”, como diz Beto.

Existem diferenças abismais entre textos embasados em fontes e Fake News que passaram despercebidas pelo internauta comentarista. Não se trata aqui de defender a grande mídia (como se ela precisasse), mas sim de entender o procedimento do jornalismo que possibilita a democracia. Se uma matéria revela suas fontes, conta como as informações foram obtidas, fornece dados de contexto e aponta as consequências do fato, então não importa o veículo. Neste cenário o ceticismo da população é positivo porque que ela pode verificar a veracidade do que é informado e encontrar mais informações que a interesse. Caso não hajam fontes, trata-se apenas de ruído com intuito de fazer dinheiro ou desequilibrar o debate político.

Segundo David Kaye, relator especial da ONU, o esvaziamento da premissa de que “fatos são fatos” começa a tornar-se uma ameaça. Ele categorizou notícias falsas como uma preocupação para a democracia global, e acrescentou que o combate a elas pode resultar em "risco da supressão do pensamento crítico e de outras abordagens contrárias à lei de direitos humanos". Como a tentativa de combatê-las por meio da lei pode resultar em censura, a higienização de textos informativos passa pelo discernimento do próprio leitor. Saber identificar notícias falsas será uma habilidade cada vez mais importante nesse mundo em que mentiras projetadas para ganharem cliques disputam o feed de notícias com reportagens feitas com embasamento.

O leitor deve saber onde buscar informações em primeira mão e desmistificar o assunto, mesmo quando (principalmente quando) a matéria não informa a proveniência da informação. Fontes valiosas são os bancos de dados públicos, como o registro.br, que pode ser usado para descobrir quem está por trás de páginas usadas para lançar campanhas difamatórias contra políticos; o Divulgacand Contas, que exibe financiamento de campanhas eleitorais; o Portal da Transparência, que detalha convênios e gastos do governo. Esses são apenas alguns exemplos (e há mais conselhos no box que ajudam a identificar Fake News).

O vocabulário da internet é novo e apenas agora estamos nos alfabetizando, mas o leitor certamente não está sozinho. Agências de Fact Checking são entidades da sociedade civil que fazem o trabalho de verificar afirmações para determinar a veracidade e a exatidão das declarações em textos de não-ficção. Elas vêm se multiplicando em todo o mundo e o Brasil conta com agências cuja leitura entra na lista de dicas para a identificação de notícias falsas. Em nível nacional temos a Truco, a Lupa, a Aos Fatos, a Preto no Branco, o E-farsas (que faz fact checking desde muito antes do termo ser criado), e outras.

Se começamos com um cenário sombrio, percebemos que os leitores não são tão indefesos quanto parecem; não estão à mercê de mentiras quando sabem onde procurar por informações fidedignas. Segundo o relatório da Reuters, a vitória de Trump provocou um retorno a fontes confiáveis. Desde as eleições, as assinaturas pagas por jornais online aumentaram 7%. Em entrevista a Laura Greenhalgh para a revista Valor de 21 de julho, Dan Kennedy, pesquisador do Shorenstein Center, afirmou que o financiamento de jornais via publicidade tende a desaparecer e o público leitor deverá ser capaz de sustentar os periódicos via assinatura.

Esta mesma reportagem da Valor retrata um Arthur Sulzberger Jr. exultante com o sucesso do negócio de paywall do New York Times; além de um Jeff Bezos (dono do Washington Post) e um Mark Beard (vice presidente da Economist) em acordo com o fato de que o que irá financiar o jornalismo são os leitores em busca de fontes creditáveis. A matéria de Greenhalgh mostra que o futuro do jornalismo depende, portanto, “do fortalecimento dos seus valores mais caros – rigor na apuração, independência, credibilidade”.

Alguns conselhos importantes para identificar notícias falsas:

●      Sempre leia a seção “sobre nós” ou “quem somos”. Sites de notícias reais têm informações sobre as empresas que os dirigem, membros da liderança e missão ética. Caso a linguagem utilizada seja melodramática e parecer exagerada, você deve ler as notícias com um pé atrás. Além disso, pesquise pelos nomes dos líderes da organização fora do site.

●      Procure pelas aspas. Ou melhor, procure pela falta de aspas. Se houver apenas uma fonte anônima ou uma fonte sobre a qual você não consegue descobrir informações num site de buscas, e se você não conseguir encontrar os estudos citados nos sites das universidades, seja cético.

●      É improvável que uma notícia seja dada em apenas um site. Se o presidente disse algo chocante ou importante, procure a citação num site de buscas. Caso um portal pequeno tenha sido o único a noticiar aquilo…

●      Leia os comentários. Notícias falsas são projetadas para gerarem cliques. Com milhares de leitores, é possível que alguém já tenha desmascarado a matéria. Avise na região dos comentários as incongruências que você mesmo encontrar.

●      Preste atenção nas fotografias. Se a pessoa que a escreveu não se deu o trabalho de sair de casa para entrevistar as fontes, também não deve ter tirado suas próprias fotos. O Google tem uma ferramenta que te permite procurar pela imagem; busque-a e verifique se aparece em notícias diferentes. Ela pode ter sido copiada da internet para dar credibilidade à matéria falsa.

 

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