paulo renato alves

Muito tem se falado nos últimos anos do papel relevante que o arquiteto passa a ter no mercado imobiliário com o advento da Norma de Desempenho 15.575. Mas, finalmente, o projeto de arquitetura assume seu objetivo mais pleno, a de promover não só um bom desempenho em sua forma e função, mas também na durabilidade e manutenção da edificação ou espaço que será construído.

Mas a mudança traz consigo mais responsabilidades ao profissional, e é aí que o trabalho do arquiteto ganha uma nova e maior dimensão. Os projetos arquitetônicos, há muito tempo, vinham sendo tratados como um documento auxiliar, superficial, uma espécie de pedágio a ser pago para que a construtora obtivesse o alvará de construção. Não obstante, muitas vezes encontrávamos material de vendas na obra para orientar os operários. Com isso, os arquitetos eram contratados para desenvolver o chamado “projeto legal” ao menor custo possível e, consequentemente, com o mínimo de informações. O resultado não poderia ser pior: edifícios ruins, clientes insatisfeitos e projetistas mal treinados.

Ao mesmo tempo em que o projeto não recebia o seu devido valor, muitos arquitetos também não se mostravam merecedores de um papel mais relevante nesse roteiro. Aceitavam passivamente que as construtoras economizassem no projeto, para, injustificadamente, gastar mais na execução e na manutenção da obra.

Em qualquer país desenvolvido o arquiteto tem papel oposto: seus desenhos e especificações são o fiel da balança para que uma obra seja econômica e durável. Por aqui, se ouve falar o tempo todo em despesas de pós-obra, quando na verdade muitas delas poderiam ser evitadas com bons detalhes construtivos e especificações mais coerentes. Mas por que esse profissional deixou que isso acontecesse de forma tão passiva? Me atrevo a dizer, com toda certeza, que por pura covardia.

O profissional de arquitetura muitas vezes se acomoda na ideia de que é um artista, de que sua função é criar o belo, a imagem que marca. Numa palestra que ministrei recentemente (“Arquiteto não é artista”), explico meu ponto de vista sobre o assunto. Defendo que o artista é um gênio que pode trabalhar de forma individual sem absolutamente nenhuma responsabilidade com alguém ou algo. Apesar disso, um projeto arquitetônico pode até se tornar uma obra de arte, mas desde que atenda aos requisitos dos usuários, cumpra bem sua função estética, seja viável economicamente e mantenha suas características físicas ao longo do tempo. E é quando se fala em responsabilidade que distinguimos o artista descompromissado do profissional realista, atento às normas e à funcionalidade do projeto.

Os arquitetos artistas são aqueles que se eximem de estudar. Nem mesmo as diretrizes básicas de uso e ocupação do solo são levadas em consideração por esses profissionais. Para facilitar sua vida, encaminham projetos sem nenhum critério técnico aos órgãos competentes, para que estes apontem os erros e como eles os devem corrigir. É como o professor que precisa corrigir a tarefa em sala de aula do aluno que não se empenhou o quanto deveria.

A Prefeitura de Goiânia, inclusive, que vinha sofrendo para corrigir esses projetos e acabava acumulando pilhas e pilhas de processos, resolveu virar o jogo. Transferiu para o profissional toda a responsabilidade sobre seus desenhos, e agora o alvará de construção aqui na capital depende apenas do pagamento da taxa, e não mais da aprovação do projeto.

Já o arquiteto realista é aquele que, além de estudar os parâmetros urbanísticos do local onde atua, se debruça sobre as normas técnicas a fim de tornar seu trabalho mais eficaz, mais produtivo, mais responsável. Somente na ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) são centenas de normas que regem a atuação desse profissional. Além disso ainda recai sobre ele as leis orgânicas de cada município, normas específicas do Corpo de Bombeiros, concessionárias de água e energia, etc. Mesmo em assuntos em que ele não domina amplamente, é papel do profissional solicitar o apoio de outros como os arquitetos especialistas em desempenho acústico, térmico ou lumínico. Enfim, o arquiteto responsável é aquele que assume seus direitos e deveres no cenário da construção civil.

Assim como num filme, um bom roteiro, um bom diretor e um bom elenco respondem por, pelo menos, 90% de seu sucesso. Com advento da Norma de Desempenho 15.575, o arquiteto responsável passa a ser o grande diretor de seu projeto, ou porque não do seu roteiro arquitetônico, e como um bom diretor ele precisa escolher e trabalhar muito bem o seu cast.

Paulo Renato Alves é arquiteto urbanista e diretor executivo da Norden Arquitetura

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