Copa América de 1997
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SILAS MARTÍ
NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - Uma das testemunhas mais aguardadas no julgamento do escândalo de corrupção da Fifa, o brasileiro José Hawilla, dono da empresa de marketing esportivo Traffic, contou em Nova York que pagou propina a cartolas latino-americanos, entre eles Ricardo Teixeira, ao longo das últimas três décadas.

Hawilla disse que o acordo com Teixeira, que chamou de "uma das vozes e presenças mais importantes nas decisões" da Conmebol, visava garantir que a seleção brasileira disputasse as partidas da Copa América com "os seus melhores jogadores".

O ex-presidente da CBF teria recebido pelo menos US$ 10 milhões, segundo o empresário, que fez acordo de delação premiada nos Estados Unidos e chegou à Corte de Justiça do Brooklyn com dificuldade para respirar e usando um tanque de oxigênio.

Nas primeiras horas de seu depoimento, ele também deu detalhes da origem do esquema de corrupção, que começou com esse campeonato.

Quando assinou o contrato com a Conmebol para realizar a edição de 1987 do torneio que ele mesmo havia reformulado, Hawilla disse que pagou "entre US$ 400 mil a US$ 600 mil" ao paraguaio Nicolás Leoz, então chefe da entidade que controla e regula o futebol latino-americano.

Hawilla disse ter "ficado refém" de Leoz desde que concordou com o pagamento ilícito na década de 1980.

"Ele começou a nos ameaçar. Se não pagasse, ele tiraria o contrato. Foi um erro porque abriu uma porta para o futuro, que permitiu que ele pedisse dinheiro a cada renovação de contrato", disse o empresário, falando sobre Leoz. "Eu paguei porque precisava do contrato. Foi um erro e me arrependo muito."

Pagamentos a Leoz chegaram a bater a marca de US$ 1 milhão. Hawilla disse que grande parte das transferências eram para o ex-presidente da Conmebol, Ricardo Teixeira e Julio Grondona, ex-chefe do futebol argentino, que, segundo a testemunha, recebia suas remessas por meio de uma agência de viagens chamada Alhec Tours.

O argentino teria recebido pelo menos US$ 1,4 milhão pela firma de Buenos Aires.

O depoimento de Hawilla, que até o momento não citou José Maria Marin, o ex-presidente da CBF que está sendo julgado agora em Nova York, deu detalhes das negociações internas da Conmebol e do racha entre a Traffic e as empresas argentinas Torneos y Competencias e Full Play.

Essas duas últimas entraram na disputa por direitos depois que o equilíbrio de poder dentro da Conmebol mudou com a ascensão do chamado Grupo dos Seis, que reunia cartolas de Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru, Paraguai e Equador. Juntos, eles ameaçaram derrubar Leoz e refazer vários contratos.

Hawilla chamou o caso de "golpe de Estado" dentro da Conmebol e abriu então um processo contra os cartolas.

Essa ação movida na Justiça americana só foi interrompida quando o brasileiro chegou a um acordo com parceiros argentinos, que ele disse terem "orgulho" de pagar propina, numa reunião ocorrida no Rio intermediada pelo empresário e ex-presidente do Flamengo, Kleber Leite.

Depois de perder a queda de braço com os argentinos, Hawilla concordou em entrar com eles na sociedade de uma empresa chamada Datisa, criada para comprar direitos da Copa América e da Copa Libertadores da Conmebol. Essa empresa, segundo o empresário, passou então a realizar os pagamentos de propina a vários cartolas por meio de empresas offshore.

Hawilla disse ainda que os pagamentos de propina acabaram se tornando parte necessária dos negócios com a Conmebol, porque eram a única garantia que os torneios fossem disputados de um jeito que pudesse gerar lucro para os patrocinadores e as emissoras de televisão.

"Não basta comprar um campeonato. Você precisa ter a colaboração deles, senão não consegue formatar um campeonato que atenda às necessidades das televisões do mundo inteiro e dos patrocinadores", afirmou Hawilla.

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